L. Wesley's COMMUNITÀS

Este blog é dedicado ao exercício dos dons da liberdade, da razão, da experiência e do afeto na caminhada.

Minha foto
Nome: Luís Wesley
Local: Atlanta, GA, United States

Ora, o que me importa ser senão UM BOM AMIGO NA JORNADA?

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Aldeia Alegre e Prazenteira


Histórias da minha história


Saudades são visitas que as memórias fazem à alma, e esta se encarrega de dizer pra onde queremos voltar, ainda que apenas nas lembranças. Memórias são tesouros que a gente sempre guarda, mas nunca às sete chaves! Elas são livres, surpreendentes. Voltam mesmo quando não são convidadas, e chegam com forças capazes de redimir, de nos devolver a vida e o significado. São inspiradoras, nostálgicas, atraentes, envolventes, apaziguadoras e afetuosas. Dizem não somente de onde viemos, mas também a respeito de quem somos.

Tenho memórias que remontam desde os meus 3 anos de idade, quando morávamos em Jericó, nas serras do Vale do Paraíba, há 18 quilômetros de Cunha, SP. Eu sou um “jericoense” de coração e de alma. De lá vim e pra lá quero voltar. No início dos anos 60 alguém que se apaixonou pelo lugar compôs uma música sobre Jericó. Nunca foi gravada, senão nas mentes de alguns poucos, dentre elas a minha. A primeira estrofe dizia o seguinte:

Jericó é uma aldeia pequenina,
Sempre alegre e prazenteira.
Uma cascata e uma igreja na colina,
De gente boa e hospitaleira.

Jericó era isso mesmo. De longe via-se a cachoeira e, mais acima, na colina, o templo metodista. Quando lá se chegava, percebia-se que era mais do que isto. Aos fundos havia um salão social e outras instalações. Ao lado uma casa pastoral, e, mais adiante, uma escola rural.


Não havia bancos, nem contas bancárias, nem saldos, e nem a angústia da falta deles.
A ROTA não passava na frente da casa da gente, fazendo sugerir que a vida lá fora é perigosíssima demais. Não se recebia nem se fazia cobranças. O suprimento alimentar era compartilhado, o pão era feito em casa, e a farinha, o arroz e o açúcar eram trazidos de Cunha em jeepes ou no lombo dos burros. Tudo o mais era produzido ali mesmo na horta, na granja, na roça. Não se dormia tarde e os dias eram repletos de simplicidades, calmarias e natureza.

Perto do templo havia um “estacionamento de cavalos”. Era como eu chamava o estábulo de duas faces que, no domingo, ficava repleto de cavalos, mulas e éguas ainda com arreios, garupeiras, estribos e rédeas. O estábulo coberto fora constrído pelos próprios membros e simbolizava a cultura simples, não agitada, aberta e acolhedora do sertão.

Costumava ir até lá para olhar, por entre as frestas e pelos vãos das tábuas, o túnel que se formava entre as pernas das dezenas de animais enfileirados um ao lado do outro. Enquanto observava aquela quantidade de patas, algumas socando o chão pra espantar os mosquitos, minha imaginação viajava: "Como seria correr agachadinho ao longo deste “túnel”?

Do que me lembro, este foi um dos únicos riscos imaginários que nunca tentei correr de fato e de direito. Era
menininho ainda ingênuo, mas muito imaginativo e já vivido o bastante pra saber que, se tentasse tal loucura, seria trucidado e defenestrado aos coices!

O jovem Samuel, meu pai, com pouco mais de 24 anos de idade, era o ministro daquela igreja sertaneja. Ele fez história. Conquistou a congregação com seu extraordinário dom de fazer frequentes visitas pastorais, de caçar e pescar com os membros; de capinar, roçar e de cavalgar com eles. A família mais próxima morava há quilômetros, e o transporte era animal mesmo.

A igreja possuía uma “mula pastoral” que tinha um instinto extraordinário de memória. Sabia os dias e horas em que partiria levando no lombo o pastor de Jericó, este sempre e irremediavelmente enternado e engravatado em pleno sertão empoeirado. Não era preciso buscar a mula no pasto. Ela vinha sozinha, aos galopes, rinchando e pedindo milho. Enquanto era arreiada por meu pai, estufava a barriga pra depois soltá-la quando ele a montava. O bicho era tudo, menos burro!

Foi de Samuel que partiu a idéia de instalar, logo ao lado da cachoeira, o primeiro gerador de energia elétrica, o que possibilitou iluminar a aldeia. Ele contatou o Sr. Schneider, de Guaratiguatá, SP, e instalou um motor cuja chave liga e desliga era um arame estendido sobre roldanas por mais de seiscentos metros colina acima, até alcançar a casa pastoral. Fazia-se uma força descomunal para puxar a chave e encaixá-la no gancho. Para desligar, era-se quase sugado pelo peso do arame estendido.

Não somente isto. Como não havia telefones, celulares não passavam de imaginação doida de cientistas malucos, e "aldeia global" era uma idéia que ainda estava por nascer, Samuel tomou a iniciativa de avançar a tecnologia de comunicação daquela comunidade. Instalou o que havia de mais moderno em auto-falantes que lançavam o som à longuíssima distância, uma espécie de rádio musical campineiro e sertanejo.

Seguindo as estações e o calendário litúrgico, ele colocava músicas e hinos nos sábados à tarde e nos domingos pela manhã. Era esta a suave e melodiosa lembrança que ele fazia aos sitiantes e fazendeiros circunvisinhos, seus peões e empregados, ricos e pobres, de que lá na colina havia um lugar de
encontro, para o qual todos eram convidados e bem-vindos.

Foi em Jericó que vi meu pai esconder, por vários dias, líderes da confederacão
e da federação de jovens da Igreja Metodista. Por suas posturas de contestação à ditadura militar que acabara de se instalar através de golpe, denunciados por lideranças da própria denominação, eles corriam riscos de serem pegos, torturados, exilados e até mortos pelo regime que usurpou a democracia e instaurou o terror contra estudantes discidentes. Por esta via e em Jericó, meu pai construiu em mim a cultura da sensibilidade, da justiça e da solidariedade, ainda que tivesse que correr os riscos de dar cobertura a perseguidos políticos.

N
uma certa ocasião, vi meu pai prender um bandido fugitivo no escritório pastoral da igreja de Jericó, orar pela conversão dele e, no dia seguinte, convencê-lo de se entregar à polícia para, daí, levá-lo no lombo da mula para Cunha e devolvê-lo à cadeia. N'outra ocasião, ouvi minha mãe contar sobre meu pai que, montado na mesma mula, enfrentou gente armada na mesmíssima estrada para Cunha, porque ele resolvera, após várias pregações e muita advertência, denunciá-los ao poder público por zoofilia.

Com a coragem de quem é homem-macho e a ousadia de quem é homem-de-Deus, mesmo sob ameaça à mão armada, Samuel passou cavalgando sem titubear por meio deles dizendo que "era isto mesmo que iria fazer, quisessem ou não, para o bem deles próprios, de suas famílias, dos animais e da sociedade." Isso tudo no início dos anos 60 e no Vale do Paraíba, onde e quando uma denúncia dessas poderia significar a morte do denunciante. É mole?

E
u tinha apenas seis meses de idade quando meus pais mudaram-se para Jericó, e morei lá até aos seis anos. Cresci conhecendo apenas isto — uma igreja no sertão construída no início do século 20, cercada de montanhas, de verde, de beleza natural, de animais domésticos e silvestres, de pássaros raros, de matas, de penhascos e campos.

No final das tardes de verão, minha mãe, Maria Edi, nos chamava para a varanda e, de lá, olhávamos os micos-leão-dourados que desciam das árvores e passavam sobre a porteira acompanhados dos filhotes que os seguiam relutantes ou permaneciam grudados nas costas dos pais. Ah, aquela cena! Era o ápice do dia! Sinal de que o que era bom se repitira novamente, e amanhã outra vez.

Enquanto ouvíamos histórias que minha mãe contava — ela era educadora nata e intuitiva —, observávamos o por do sol. Depois ficávamos horas contemplando o luar, as estrelas cadentes e o escurecer dos vales ao som das cigarras e do pisca-pisca dos vaga-lumes. “Vaga-lume tem tem, teu pai tá aqui, tua mãe também!”, cantávamos juntos.

Nair, minha irmã adotiva, à pedido da própria mãe natural, fora trazida já moçinha para a casa dos meus pais e se tornou a irmã babá de todos os filhos que Samuel e Maria Edi tiveram: Léa Wesley, Luís Wesley, Leila Wesley e Leda Wesley. A Leila quase nasceu no sertão jericoense e, quando nos mudamos de volta pra São Paulo e depois para Santa Catarina, deixou seus padrinhos lá. A Leda não morou em Jericó, mas visitou e voltou prá lá nas várias vezes que passávamos as férias de janeiro na aldeia.

Aos fundos da residência havia um pequeno chiqueiro, uma horta, um bananal e um bambuzal. À esquerda da casa havia um paiol e uma oficina de ferramentas. À direita um pomar onde havia pessegueiros, pereiras, macieiras, marmeleiros, laranjeiras e parreiras.

Eu tinha uma relação bastante ambígua com os marmeleiros, já que davam frutos deliciosos e forneciam as varas com as quais eu apanhava quando fazia "artes". Quando estava por apanhar, eu, o próprio, era responsável por ir até um marmeleiro, escolher, limpar e trazer a vara, e entregá-la aos meus pais. Abuso? Não para a minha alma, nem para a excelente formação que eles me presentearam.

Entre a cachoeira lá embaixo e a igreja lá em cima, havia um conjunto de pedras majestosas. Meu pai costumava dizer que tinham sido erigidas por tribos primitivas, há centenas e centenas de anos. Nunca tive a exata noção do que aquele lugar pudesse significavar para os primeiros habitantes do terra. Somente décadas depois, quando estudei antropologia cultural, concluí que poderia ter sido mesmo um altar ou um marco histórico para algém.

Enfim, era o meu lugar preferido para brincar, correr, imaginar, olhar em direção ao vale, enfiar a cabeça nas frestas das pedras, atirar pequenas pedras roliças em estilingue, gritar e ouvir os ecos que voltavam segundos depois, enquanto olhava para as barbas de um enorme chorão que ficava logo abaixo. Me imaginava grande e pequeno,
fraco e forte, livre e anexado, alado e enraizado... tudo ao mesmo tempo.

Uma das pedras
se projetava para um lado do vale, outra tinha o formato de um sapo, outra de um busto sem cabeça, e a outra, bem ao lado, de um retângulo mal formado, mas muito semelhante à pedra visinha. Estas últimas são a maior evidência de que aquele lugar tenha sido fruto de um prossível trabalho de ancestrais.

Eu costumava subir e descer de todas elas, sentia o solo sólido e cálido debaixo dos meus pés descalços, como se a vida jamais,
em hipótese alguma, viesse um dia a se abalar. Me imaginava dono daquilo tudo: igreja e cachoeira, pedras e vales, pastos e carreadores, árvores e campos, barrancos e estradas, riachos e montanhas, seriemas e jacús, azuis do céu e verdes da terra.

Centenas de andorinhas migratórias, após voarem milhares de quilômetros, desde o sul do Canadá, passando pelos Estados Unidos, México e América Central, cruzando oceanos, rios, cordilheiras, a Amazônia e o planalto central, chegavam no doce calor da primavera e se instalavam em Jericó.

Gostavam do convívio humano e preferiam as frondosas árvores ao redor da igreja, o topo da torre e os beirais das instalações. Faziam ninhos e se reproduziam, e, como que numa constante celebranção da vida, promoviam revoadas e cantavam o dia inteiro. Bem escreveu o poeta ambiental José Júlio Azevedo:

Voa, voa, andorinha,
Você não é de ninguém, nem minha.
Voa, voa no céu de Deus
Voa junto a milhares seus.
Peregrinas no espaço
Pastam invertebrados na roça
De tardezinha sobrevoam [a aldeia]
Desenhando no ar uma palavra: Felicidade!
Andorinha de verão
Voa do Norte para o Sul,
na rota do sol
Nunca verão planeta como este.
Seu horizonte é azul.
Voa, voa andorinha
Sem brevê, sem passaporte
sem carteira de identidade
nem fila do INSS
Aninha em seu coração navegante
o sonho da liberdade!*

Enquanto isso, os pardais, os tico-ticos e as corrílas faziam a festa. Os canarinhos, sabiás, pássaros azuis, pinta-silvas, codornas, quero-queros, vira-bostas e saracuras completavam o coro. Nem as galinhas, frangos, galos e pintainhos destoavam. E a música da qual mais me lembro,
aquela composta pelos apaixonados por Jericó, feita por humanos que costumam dar harmonia à vida da gente pra onde quer que ela siga, tinha um estribílio que ainda canto aqui dentro:

Jericó, Jericó.
Quem me dera aqui voltar para ficar!
Jericó, Jericó.
Quem me dera aqui voltar...

(CONTINUA)
__________________
*José J. Azevedo, "Andorinhas", 1992 (itálicos meus, adaptação entre colchetes minha; forma original: "De tardezinha sobrevoam a cidade").

Sábado, Outubro 31, 2009

Ah, João!

Histórias da Minha História
Incluindo partes novas!

Seu nome era João, que fora pai de Inácio, que fora pai de Pedro, que fora pai de Samuel, que é pai de Luís Wesley, que é pai de Filipe, Matheus, Talitha e Luís Wesley Júnior. João, que era senhor de engenho nas cercanias de Angra dos Reis, RJ, gerou a Inácio daquela que era sua escrava protegida, a quem amava como a nada e a mais ninguém.

Inácio, não muito depois da abolição da escravatura no Brasil, gerou a Pedro daquela que fora descendente de escravos livres. Pedro, de pele escura, palmas das mãos e planta dos pés brancos, teve vinte e três irmãos, onze dos quais eram irmãos da mesma mãe. Os outros doze irmãos do mesmo pai foram gerados por uma outra mãe. Inácio tinha duas esposas, a descendente de escravos livres e uma descendente de europeus que migraram para o Brasil no século 19.

A história de João, Inácio, Pedro, Samuel, Luís Wesley e seus descendentes, não é tão óbvia quanto parece. Gerações se sucederam umas às outras, os contextos se transformaram, as relações se redesenharam. Novas histórias foram vividas, com trajetórias diferentes de nuances peculiares e de experiências formatadas por cosmovisões diversas e, de certa forma, conectadas.

Eu, Luís Wesley, de pele branca e genuína negritude mestiça no coração e nas veias, descendente de João e de sua escrava-esposa, e de Inácio e sua escrava livre, quero contar e recontar esta história, sem nenhum outro objetivo senão o de aprender, uma vez mais, que a gente é gente, gente!

Do pouco que se sabe de João

Parte da família afirma que João era bom com seus escravos. Contra senso. Afinal, quem é bom não tem escravos! Quem é bom tem amigos e parceiros numa caminhada justa e igualitária. Não escravos.

De quem teria vindo, então, esta estória de que João era bom? Ninguém sabe. Mas, a julgar pela cultura da época, esta imagem de "João-bom" pode ter sido vendida por ele mesmo, por seus amigos, ou por seus filhos, noras e genros, ou ainda pela própria esposa-escrava protegida.

Dada às circunstâncias escravagistas, ser escrava protegida era um status excepcional, conferido apenas às escravas saudáveis, lindas, esguias, sensuais, atraentes e, sobretudo, prendadas. João podia ter apenas fama de ser bom, sem sê-lo, com os escravos, mas foi certa e definitivamente muito bom na escolha de uma dada escrava para ser mais do que protegida -- tornar-se esposa do patrão.

Fala-se, contudo, que ela também o amava e protegia, que era ela quem governava a casa e educava os filhos. Mais do que isto, conta-se que ela tornava a vida dos escravos mais digna, livre de chibatadas e punições... enfim, das desumanidades características da escravidão, por si mesma horrenda. Fala-se também que ele, João, era só ouvidos pra ela, e que, por esta razão, muitos ex-escravos escolheram (sic) permanecer no engenho após a abolição.

A intrigante história de Inácio


João teve muitos filhos, dentre eles Inácio, o primogênito. Inácio era muito jovem ainda quando resolveu se casar com aquela por quem era apaixonado desde criança -- a filha de escravos livres. No dia do casamento, contudo, o pai de uma moça branca e de feições européias, veio à casa de João e pediu que ele exigisse que Inácio acolhesse a filha em sua futura residência, ainda que como segunda esposa, já que Inácio a tinha deixado "de bucho cheio". Sim, Inácio vinha se aventurando, em bases contínuas, com a mocinha branquela.

João, em nome da "honra" -- sabe-se lá de quem! --, usando de sua autoridade múltipla (pai, senhor de engenho, etc), além de se deixar dominar pelo orgulho próprio (afinal, ele era o "João-bom"!), fez com que Inácio recebesse a moça em sua casa desde o primeiro dia de casamento.

Punição? Provavelmente. Entretanto, esta decisão veio a formatar uma relação poligâmica que se extendeu por muitos anos, resultando em vinte e quatro filhos plantados, concebidos e gerados em duas mulheres.

Ter um senso de justiça mais aguçado era a virtude de Inácio, o que, na prática, se provou até no número de filhos que teve com cada uma. Seu senso de igualdade, contudo, se estendeu, de forma mais evidente, para outras áreas ao longo de sua história.

Inácio no protestantismo - Num certo domingo de verão, Inácio decidiu aceitar o convite de um pregador para ir à igreja protestante. Vestido de paletó e calça de brim cuidadosamente passados com ferro à brasa, usando botas rancheiras, daquelas que rangem quando se caminha, de espora, chicote e chapéu, Inácio adentrou uma igreja pela primera vez.

Segundo ouvi, sua entrada impressionou o pequeno número de congregantes, porque ele se fez acompanhar das duas esposas e de todos os filhos. "Foi quase como uma parada militar", disse-me há dezenove anos uma amiga da família, hoje falecida. "Era uma fila enorme que demorou para entrar e se acomodar totalmente."

Inácio tinha o costume de andar com a família quase todos os dias, e, sendo o sertão repleto de caminhos estreitos nos pastos, prados e montanhas, feitos pelo andar constante do gado, todos vinham em fila enquanto conversavam, se desviavam dos estrumes das vacas, brincavam e se divertiam com qualquer que fosse o motivo enquanto caminhavam e observavam a paisagem, numa mistura interessante de negros, brancos e mulatos.

Foi assim que entraram na igreja, tanto na primeira como em todas as demais vezes que lá foram: em fila escalonada, a começar dos menores, dois dos quais eram bebês carregados no colo de cada esposa, e indo para os maiores.

Calçadas estrumentas - A igreja dobrou o seu número de participantes num só domingo, professores de escola dominical para adultos, jovens, juvenís, criancas e até de berçário tiveram de ser recrutados imediatamente, e um sino foi comprado para avisar a família -- que morava distante no campo -- quando havia alguma atividade especial em dias diferentes do domingo.

Novos problemas surgiram para a pequena igreja também, como por exemplo, o volume de estrume de cavalo deixado na calçada que teve de ser adaptada para acomodar os animais selados e emparelhados desde a manhã do domingo até o final do culto protestante da noite. Vida de cavalo nas mãos da família de Inácio era coisa dura, e a vingança vinha da forma mais estrumesca possível.

A exigência moral feita a Inácio - Aquela versão do protestismo, assim como a esmagadora maioria delas em contextos culturais monogâmicos, não aceitava que um homem pudesse ter duas mulheres. A exigência para que Inácio tivesse uma só esposa não tardou quase nada. Também exigiram que ele escolhesse com que família queria ficar.

Ele deveria não somente decidir-se por uma dentre as duas esposas, mas também sobre quais dos filhos manteria como sua família. Na lógica daquele protestantismo, filhos "bastardos" deveriam ser desconsiderados.

Inácio tinha ao seu redor todas as racionalidades sociais e supostamente bíblicas possíveis para legitimar o abandono de uma das famílias. A igreja, neste caso, se encarregaria de apaziguar sua consciência pelo abandono. Afinal, os únicos a sofrerem as consequências das escolhas anteriores de Inácio ao formar duas famílias, seriam os abandonados.

A decisão de Inácio - Inácio lutou muito, se contorceu ao considerar se deveria ou não aceitar a demanda. Temente a Deus, tendo tido uma experiência de conversão ao Jesus de Nazaré, tomou a decisão mais justa e razoável que pode conceber. Sua decisão mostrou o quanto estava à frente de seu próprio tempo.

Para a surpreza de todos, Inácio dividiu a pequena fazenda em duas partes iguais, fez uma cerca vegetal facilmente transitável de fora a fora, e, na frente da fazenda, construiu duas casas idênticas. Colocou em seu testamento que as esposas e seus filhos ficariam com as partes tal qual foram divididas, respectivamente.

Inácio foi mais além. Fez um quintal gramado, aberto e conjugado em frente às duas casas e definiu que os meninos continuariam brincando juntos e como irmãos, e que seriam sempre livres para visitar ambas as casas como se fossem deles próprios. Decidiu que continuaria tendo a todos e a cada um deles como seus filhos e sua família.

Quanto a escolher viver com uma só esposa, optou por manter uma relação conjugal apenas com aquela com quem se casou por amor -- a negra. Colocou as duas mulheres em suas próprias casas, uma ao lado da outra, e as manteve com absoluta igualdade em coisas como recursos financeiros, mantimentos, suprimentos domésticos, respeito e afeto. Deixou de visitar a cama da européia branca, e concentrou sua energia dupla apenas na descendente de escravos livres.

(Acompanhe aqui a sequência desta saga nos posts das
próximas semanas, em Histórias da Minha História)

.

Sábado, Outubro 24, 2009

Vai ler, camarada!


Carta de John Wesley a John Trembath

John Trembath,

O que tem prejudicado a sua vida no passado e, lamento dizer, até hoje, é a sua negligência quanto à leitura. Negligência tal que, por sua vez, chega a prejudicar até o próprio desejo de ler.

Dificilmente me recordo de um pregador que leia tão pouco. Eis a razão porque seu talento em pregar não aumenta. Você continua pregando como pregava há sete anos; com emoção, porém sem profundidade.

Falta variedade e conteúdo.

A leitura poderá preencher estas lacunas com meditação e oração diária. Você prejudica a si mesmo em omitir tal prática.

Desprezo à leitura impede alguém de ser um pregador maduro. Até para ser um cristão íntegro é mister a leitura adequada. Queira Deus que começasse logo!

Separe uma parte do dia para este exercício. Assim adquirirá o sabor por aquilo que faltava; o que parece monótono no início se tornará com o tempo um prazer.

Com ou sem disposição leia e ore diariamente. É para a sua própria vida; não existe outro caminho.

Faltando isso será para sempre um pregador superficial.

John Wesley
Em 17 de agosto de 1760
.

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

Unamuno & Freire


"As idéias se têem, nas crenças se está."

Miguel de Unamuno,
filósofo espanhol,
em Idéias e Crenças


"Nunca tive que brigar comigo mesmo para me compreender na fé... Eu estou na minha fé. Então, eu nunca precisei de argumentações de natureza científica e filosófica para me justificar na minha fé."

Paulo Freire,
filósofo e educador brasileiro,
em entrevista disponível no YouTube

.

Sábado, Outubro 10, 2009

Néo-Alcatrazes & Liberdade


Alcatraz, a legendária prisão localizada na Baía de San Francisco, Califórnia, EUA, serve de analogia para ilustrar as prisões eclesiásticas nas quais se vêem dezenas de religiosos. A fama e o mito de Alcatraz se fundamentavam no conceito de que se tratava de um complexo presidiário ilhado do qual ninguém conseguia escapar vivo. Contudo, a suposta inescapabilidade de Alcatraz não era uma realidade absoluta, senão na mente dos prisioneiros. A verdadeira Alcatraz residia apenas no imaginário da quase totalidade dos presos.

Tal imaginário era constantemente nutrido pelo próprio sistema prisional, que retroalimentava os medos, afirmando perigos que um prisioneiro em fuga encontraria lá fora: águas turbulentas, tubarões, guarda prisional, sentinelas, guarda costeira, ataques com armas de fogo e, por fim, a morte. Para que houvesse qualquer tentativa de fuga, o prisioneiro tinha que romper a primeira e mais intransponível barreira: conceber a possibilidade de que o mito da inescapabilidade era relativo, considerar os riscos concretos, desenvolver a coragem necessária para querer correr o risco de morte, e, acima de tudo, tentar!

A meu ver, hoje existem néo-Alcatrazes sendo alimentadas no imaginário de muita gente. Estas novas Alcatrazes não são somente representadas por certas empresas, sociedades, ordens, clubes, partidos, status quo's, convenções relacionais ou de amizade, mas também por organismos religiosos, notadamente por estruturas eclesiásticas. Estas costumam sugerir que, fora das suas muralhas domésticas, só pode haver incerteza, ignorância, anonimato, ausência de destino, despropósito, isolamento, desvalor, paralelismo, desaparecimento, invisibilidade e/ou morte ministerial.

Libertar-se destas néo-Alcatrazes implica traspassar a representação das grades, paredes e perigos até então nutridos em nosso imaginário. Esta libertação é tanto mental como espiritual, emocional e cultural, e, eventualmente, funcional. Razão pela qual se conquista sob o poder e ternura do Espírito Santo, com muita confiança no amor, na graça e no cuidado de Deus, para Quem e diante de Quem não há limites, nem distâncias, nem barreiras e nem morte, mas vida, e vida plena e abundante.

Valorizar os pequenos passos, rejeitar a super-valorização do consenso, querer correr riscos, planejar e viabilizar pequenas conquistas, ser persistente e não-conformado, são alguns dos segredos do processo de mudança de paradigmas e, neste caso, de libertação. Além disso, é preciso lembrar-se com carinho e apreço dos que ficaram, e, acima de tudo, respeitar aqueles que de forma alguma se sentem presos. No mais, é preciso lembrar que, independente do que nos tornamos dentro de instituições, fomos chamados à liberdade para servir com amor (Gálatas 5:13). Enquanto se luta pela liberdade, mantém-se o coração sempre latejante nesta convicção: "Tudo posso [no Cristo] que me fortalece".

Copyright © 2007 Luís Wesley de Souza

Domingo, Outubro 04, 2009

Imperfeição


A instituição igreja é imperfeita,
adotada por pessoas imperfeitas,
liderada por gente imperfeita,
num mundo imperfeito.
Se a gente tem a expectativa
de que será perfeita,
então seremos continua e
consistentemente desapontados.

A afirmativa não intenciona sugerir que a gente mergulhe numa de conformismo mórbido, de auto-mordaça profética, de supressão da massa crítica, ou de passividade histórica. Também não intenciona sugerir que a gente pare de sonhar, de querer, de perseguir ideais e de construí-los enquanto catalistas e agentes de mudança que somos. Afinal, infundir vida e ideal numa instituição igreja imperfeita é, antes de tudo, um esforço deliberado, cônscio e organizado por parte dos seus membros para construir uma cultura mais satisfatória.

O que está acima sugere, sim, a constatação de uma realidade que precisa ser entendida e abordada de forma a não causar danos quase irreparáveis aos relacionamentos com a fé, o entendimento da Graça reparadora e livre, e, é claro, com as pessoas, notadamente aquelas em relação às quais o coração da gente aprendeu a apreciar para além, aquém, por causa, através e apesar da instituição igreja. Afinal, pessoas são pessoas, nada mais; Deus é que é Deus, nada menos.

LWS
.

Terça-feira, Setembro 29, 2009

Americanos e brasileiros: diferenças no pastorado

Fonte*: Informativo do Instituto Jetro
Edição Especial, Liderança Pastoral, Setembro 2009

Clique:
Entrevista com Luís Wesley de Souza
Data de Publicação: 29/09/2009

Muitas são as diferenças das lideranças cristãs brasileiras e americanas: o uso da tecnologia, a interação, o preparo das pregações e o encorajamento para o aprendizado ao longo da vida. Além destes fatores, de forma mais marcante, a importância das emoções para os brasileiros e dos objetivos para os americanos. Conhecer o que estas características influenciam na condução das ovelhas é o objetivo desta entrevista, que aproxima as possibilidades de aprender uns com os outros levando em conta as potencialidades de cada cultura. (Parágrafo escrito pela editora)

Quais as diferenças quanto à liderança pastoral nas igrejas do Brasil e dos EUA?
Luís Wesley – A meu ver, são muitas as diferenças, mas vou apontar apenas quatro. A primeira diz respeito à questão tecnológica e de informação. A esmagadora maioria dos pastores americanos se vê razoavelmente cercada e provida de recursos tecnológicos, incluindo mídia externa e interna, aparelhagem eletrônica, instrumentação áudio-visual, boa biblioteca pessoal, amplo acesso às bibliotecas especializadas, assinatura de jornais e revistas; possuem computadores pessoais, acesso fácil e imediato à Internet, promovem comunicação rápida com a comunidade via e-mail, periódicos e mala direta. Pastores brasileiros, entretanto, em sua grande maioria, ainda trabalham com recursos tecnológicos muito limitados, possuem pouco ou nenhum acesso à mídia, usam recursos caseiros e rudimentares, lêem pouco os periódicos, têm dificuldade de acesso à Internet e comunicam-se pouco com a comunidade local, a cidade ou o bairro.

A segunda diferença é relacional. Pastores americanos se sentem confiantes no exercício de liderança ministerial, mas a maioria enfrenta dificuldades quando o assunto é interagir com outros. Segundo pesquisa do Barna Group, 61% dos pastores americanos admitem terem pouquíssimos amigos chegados, por exemplo. Perceba o contraste: embora cercados de informação, recursos tecnológicos e humanos, secretária, assistentes, equipes, etc., pastores americanos se sentem sub-apreciados e nutrem receios no que tange às dinâmicas de convivência e de expectativa relacionadas ao fato de serem líderes espirituais, e acabam por se desconectarem das pessoas enquanto “gente”. Pastores brasileiros, por razões sócio-culturais, possuem uma habilidade maior para estabelecer conexões pessoais duradouras, compartilham seu dia-a-dia com as pessoas, se vulnerabilizam e dialogam mais, sentem mais o coração dos outros e, na maioria das vezes, se deixam perceber nos seus sentimentos.

A terceira, que considero mais flagrante, diz respeito ao púlpito. Pastores americanos se preparam exaustivamente para a pregação de domingo, despendendo em média 20 horas por semana neste exercício preparatório. A maioria das pregações é o que se poderia chamar de “obra prima” da homilética e do conteúdo teológico, mas é voltada para a audiência apenas e intelectualmente exaustiva. As temáticas são geralmente atreladas ao calendário litúrgico cristão. O pastor brasileiro, contudo, fala diversas vezes por semana, de cinco a oito vezes em média, não elabora suas pregações com teores intelectuais ou acadêmicos, e não objetiva apenas a audiência e/ou congregação imediata. Tende a falar para a Igreja como um todo e se define mais dependente da oração e da direção do Espírito Santo, embora isto nem sempre seja uma realidade prática e observável. Gasta pouco tempo em oração pessoal, escreve pouco, lê pouca literatura de suporte e faz uma leitura bíblica geralmente intuitiva e voltada para o que "deve" dizer aos outros muito mais do que a si mesmo.

A quarta diz respeito aos recursos extra-ordenação. Pastores americanos possuem amplo acesso e encorajamento à educação continuada e programas de “life-long learning” (aprendizado para a vida). Suas igrejas e denominações lhes provêem recursos para participação em congressos, fóruns, grupos de mentoria, viagens, treinamentos e interação ministerial extra-confessional e extra-igreja local. Pastores brasileiros, por outro lado, sentem a necessidade de todas e cada uma destas coisas, mas recebem ou guardam poucos recursos para torná-las possíveis. Em razão disso, acomodam-se quanto a continuar aprendendo, deixam de ser ensináveis em suas dimensões de fé, experiência, missão e vida, e, consequentemente, aceitam o engano de acharem que, por medida de economia de tempo e dinheiro, lhes é suficiente serem autodidatas. Isto ainda é menos grave do que a preguiça intelectual que os leva a buscar e abraçar "pacotes" teológicos, eclesiológicos, metodológicos e estratégicos prontos para o consumo sem reflexão e sem senso crítico de aplicabilidade teológica, missiológica e contextual.

Levando em conta estas diferenças, o que podemos ensinar aos pastores dos EUA e o que devemos aprender com eles?
Luís Wesley – Penso que pastores brasileiros podem ensinar aos americanos que recurso tecnológico é útil e bom, mas nem sempre é fundamental para a boa comunicação interpessoal e nem pode ser encarado como meio sine qua non. Podem ensinar que a espiritualidade deve ser amplamente nutrida através da interação e da boa convivência com pessoas "de carne e osso", sejam amigos distantes, irmãos de caminhada ou gente estranha à convivência diária. Podem ainda ensinar que a pregação de domingo é importante, sim, mas não é a única coisa do decorrer da semana, e nem parte da escrivaninha ou do escritório para o púlpito como trajetória única e necessária, mas do concreto da vida para o entendimento e compartilhar do sentido da Palavra no contexto do povo, da Igreja e da nação.

Os pastores americanos podem ensinar aos brasileiros a encararem com mais responsabilidade o estudo e a preparação semanal com vistas à pregação. Púlpitos são igualmente vazios de kerigma e kairós quando encarados de forma irresponsável e despreparada, ou, como diria um bom camponês do norte pioneiro paranaense, "a Miguelão". O despreparo semanal tem conduzido muitos pastores brasileiros a “mastigarem borracha” nos púlpitos, com pregações caracterizadas pela apelação e a exacerbação emocional, e por sacadas repentinas pouco ou nada refletidas, inconsequentes e pouco bíblicas. Tais pregações mais parecem borrifos de água turva, morna e rala que nunca refresca ou rega a alma, a mente e o coração de forma edificante, profunda e duradoura. Como tal, o máximo que este tipo de púlpito consegue fazer é "dourar a pírula", deixando de ser profético e transformador. Os americanos também podem ensinar os brasileiros que a formação pastoral não cessa quando se completa um curso num instituto bíblico, seminário ou faculdade teológica. É necessário continuar ensinável e intencional na busca por novos entendimentos, perspectivas e introspecções.

Diferentes características culturais, tais como o fato de os brasileiros serem mais emocionais e os americanos mais objetivos, influenciam de que forma na condução das igrejas?
Luís Wesley – Dando mais espaço para as emoções, o líder cristão brasileiro tende a ser marcantemente intuitivo. Isto pode ser muito bom, mas também pode vir a ser devastador para a liderança ministerial de uma comunidade. Ser intuitivo pode marcar uma liderança ministerial extraordinariamente sensível, sintonizada, contemplativa, aberta, facilitadora, acessível e inovadora. Penso que é no campo da intuição que nos tornamos mais abertos para a ação soberana, humanizadora e criativa do Espírito Santo.

Há, contudo, um grande perigo quando colocamos demasiada confiança na auto-criatividade e no auto-discernimento advindos da intuição sem objetividade e sem relacionamentos que ofereçam questionamentos desafiadores ao indivíduo e à comunidade. Se o pastor se torna apenas intuitivo no exercício do ministério, negligenciará o fato de que o Espírito não se prende à intuição humana, nem à percepção de um só indivíduo. Ao confiar demasiadamente na sua própria intuição, o pastor desenvolverá um ministério místico, sem massa crítica, desconectado da realidade, não consciente do Reino, sufocador das metas e propósitos da igreja, negligente dos “anseios ocultos” do Povo de Deus, e inibidor do carisma, dos dons e da diversidade de talentos na comunidade.

O inverso também é verdadeiro. O excesso de objetividade, que acontece com mais intensidade no ministério dos pastores americanos (embora isto também caracterize alguns pastores brasileiros!) tem o poder de gerar certa inflexibilidade, de bloquear a dinâmica de infusão de vida, além de causar uma espécie de eclipse no entendimento ou discernimento sobre a direção em que o “Vento” está soprando. Enquanto missiólogo, consultor e instrutor nas Américas do Norte e do Sul, vejo que é possível construir uma objetividade que também se deixa governar pela intuição comunitária. Gestão de planos, projetos, iniciativas e metas, por exemplo, que outrora eram tabus, servem para capacitar e acompanhar líderes em várias frentes de abordagem, e hoje estão sendo encarados como úteis, relevantes, redimíveis e aplicáveis ao ministério cristão que se entende e se percebe cheio e guiado do Espírito Santo.

Quais as diferenças na condução das ovelhas das igrejas americanas e brasileiras?
Luís Wesley – Lembro-me de quando eu e minha família éramos membros de uma enorme igreja metodista em Lexington, EUA. Num domingo pela manhã, minha esposa e eu estávamos participando da nossa classe de escola dominical, e o pastor titular, para a surpresa do professor e de nós alunos, veio visitar nossa turma. Acompanhado pela esposa, ele permaneceu não mais do que três minutos na sala, trouxe uma saudação, e saiu rumo à outra classe. Do momento da saída dele até o final da classe, a turma abandonou a lição que vínhamos estudando e passou a falar apenas da visita do pastor naquela manhã.

Dentre as coisas positivas e negativas que aprendi do ocorrido, destaco uma negativa, ou seja, o fato de que aquela experiência denunciou a distância que geralmente há entre o pastor e as ovelhas. Enquanto família e indivíduos, por exemplo, nunca recebemos uma só visita pastoral ou telefonema pastoral, e todas as tentativas de buscar o cuidado do pastor dependiam sempre de agendamento muito prévio, isto é, com antecedência de longo prazo. As sessões de aconselhamento, quando agendadas a curto prazo, eram curtas e objetivas, e geralmente feitas pelos pastores auxiliares e/ou voluntários em seções geralmente formais e em termos profissionais.

Com algumas exceções, o cuidado pastoral dos brasileiros é feito mais no corpo-a-corpo, em bases relacionais, afetivas e aproximadoras. Isto é, o cuidado com as ovelhas é mais individual e familiar, sem deixar de ser coletivo. Neste jeito brasileiro de prover cuidado pastoral, a presença é encarada como algo fundamental. Olhar nos olhos, sentir o coração, dar lugar ao abraço, ao toque, ao afago lícito e à conversa longa -- sem ficar olhando no relógio à cada 3 minutos -- são coisas indispensáveis para a cultura brasileira.

John Maxwell em seu livro Parceiros de Oração (Editora Betânia), alerta para o fato de que nos Estados Unidos 30% dos pastores seriam tentados a “abandonar as suas responsabilidades” naquele ano. De forma geral, quais os pastores são mais sobrecarregados, os americanos ou brasileiros?
Luís Wesley – A questão da intuição e da objetividade ajuda a responder esta pergunta. Os pastores americanos fazem pouco com muita objetividade, e se frustram, enquanto os pastores brasileiros realizam muito com pouca objetividade, e se desgastam. O que mais estressa os pastores não é o volume de trabalho, mas o excesso de cansaços emocionais e espirituais advindos da falta de bom entendimento do que significa ser e fazer igreja e ministério. Em consequência disso, tiros são dados para todos os lados e para lado nenhum, o que cansa, aborrece, enfada e rouba o entusiasmo do coração.

Este cansaço gera muita frustração e insatisfação, e daí surgem os sentimentos que levam pastores a desejarem desistir não somente do que de fato importa em ministério -- a glória de Deus --, mas também de suas famílias e de si mesmos. Muitos acabam por abandonar por completo o que outrora era feito por paixão, chamado e vocação, mas que agora é feito por "honra da firma" e para a sobrevivência pessoal. Esta realidade se aplica tanto para pastores brasileiros como para americanos.

*Reprodução autorizada desde que mantida a integridade dos textos,
mencionado o site www.institutojetro.com e comunicada sua
utilização através do e-mail artigos@institutojetro.com.
.

Trecho escrito pela editora -- Luís Wesley, co-fundador do Instituto Jetro e da Faculdade Teológica Sul Americana, conhece bem as diferenças culturais nas Américas do Norte e do Sul. Foi pastor metodista no Brasil e, atualmente, é professor catedrático de Missão e Evangelismo na Emory University, Candler School of Theology, Atlanta, Georgia, e membro clérigo da United Methodist Church, EUA. Além destas vivências, seus estudos em nível de mestrado, doutorado e pós-doutorado foram feitos nos EUA. É pós-doutor em Teologia Prática e Práxis Religiosa pela Emory University, PhD em Estudos Inter-Culturais pela E. Stanley Jones School of World Mission & Evangelism, Asbury Theological Seminary, Wilmore, Kentucky (EUA), ThM em Missiologia pela mesma instituição, e bacharel em Teologia pela Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo.
.
.

Terça-feira, Setembro 22, 2009

Neys, velhinhas e Cássios.

Histórias da Minha História

Cássio e eu tínhamos apenas oito anos. Éramos amigos de bairro, de rio, de pandorga, de travessuras infantis. Junto com o Nícolas, o Edson e a Matilda (nomes fictícios, pessoas reais), brincávamos e jogávamos a tarde inteira na cancha de futebol de salão da Igreja Metodista da linda Porto União, SC, às margens do Rio Iguaçú.

O Cássio era esperto, astuto e super criativo, embora possuísse um olhar que misturava bravura e tristeza, desejo pela vida e medo dela. Sem ele, nossas tardes eram monótonas. Eu, o Luisinho (era como me chamavam), por outro lado, era muito ingênuo e extremamente tímido!

Todas as idéias malucas sempre partiam do Cássio, fertilizavam a imaginação de nós todos, e se espalhavam nas nossas brincadeiras como praga prazerosa, como pólvora incendiada que iluminava nossas tardes. Eu apenas seguia o fluxo do grupo, embora quase sempre relutante e cheio dos pudores de um filho de ministro metodista modelo anos 60, e que achava que podia e devia fazer tudo certinho, sem deslizes comportamentais de qualquer espécie e sem deixar margens para críticas alheias. Tudo pela honra da "firma", i.e., a igreja. Afinal, eu era não somente o “dono” da cancha, mas também o filho do Reverendo da cidade!

Um dia, o Cássio teve uma idéia, digamos, genial. Nós cinco montaríamos uma cilada para o Ney, filho de um oficial do regime de ditadura militar iniciado em 64, do tipo que apresentava a carteira de oficial-militar e ía logo dizendo, "Sabe com que você está falando?"

Ney era tido por nós como o filhinho de papai da rua, de quem ninguém de nós conseguia ser amigo por razões sociais e econômicas. No que tangia a mim, havia uma razão adicional da qual eu sequer tinha consciência naquela época -- a ideológica. O pai dele fazia questão de que se mantivesse afastado do filho do pastor metodista que recebia em sua congregação insurgentes ao regime militar.

Riquinho, ranzinza, gordinho, dentuço, cabelo ruivo cortado semanalmente ao estilo Recruta Zero e, o que é pior, Ney era a representação extrema do "Caxias-CDF" da cidade. Ele era o único da vizinhança que, por pura determinação dos pais, estudava à tarde e num colégio particular para, acima de tudo, não ter que se misturar com os meninos pobres do bairro. A razão secundária era pra não ter que repartir os muitos brinquedos de último lançamento da época. Eram muitos, porém todos brincados solitariamente, tornando-o egoísta e recluso.

O plano do Cássio envolvia até um treinamento divertido. Enquanto o Ney não passasse por ali vindo da escola de lancheira de plástico pendurada no pescoço e óculos tipo fundo de garrafa, a gente se esconderia atrás do monte de areia branca acumulada do lado de dentro do muro.

Assim, qualquer transeunte que se atrevesse a passar pela frente dos muros da igreja, levaria uma chuva de areia. Escondidos, ficaríamos quietinhos pra ouvir o barulho dos passos de quem quer que seja que transitasse pela calçada e, intuitivamente, saberíamos a hora exata de jogar a areia e nos escondermos imediatamente.

Fizemos isso com algumas poucas pessoas que, por mais que tentassem, não conseguiam saber de onde vinham os jatos de areia e seguiam murmurando pelos ares, balbuciando palavrões típicos de humanos afrontados, o que incluía, é claro, referências desonrosas às nossas inocentes mãezinhas.

Ríamos à beça, cada um a seu estilo. O Nícolas, por exemplo, filho de italianos provavelmente fugidos de Benito Mussolini, quando muito alegre ou muito nervoso, lançava a mão na cabeça e enrolava com dois dedos uma mexa qualquer de cabelo. O Edson ficava coçando o saco por cima do calção tipo sanfona, como se aquela nossa mais recente brincadeira se traduzisse, pra ele, em deleite genital. A Matilda pulava amarelinhas imaginárias enquanto ouvia as asneiras que dizíamos, e o Cássio se estirava na areia às gargalhadas. Ficávamos longos minutos comentando os detalhes do último "episódio arenoso", nos entusiasmávamos com a eficiência do plano, e logo focávamos n'outra vítima qualquer que se aproximasse.

“Olha! O 'bolha' do Ney está vindo!”, disse a Matilda com olhos brilhantes e saltados, cabelos amarrados ao estilo Maria Chiquinha, e tom de menininha maligna. Espiamos rapidamente pra vê-lo terminar de dobrar a esquina lá longe, e nos escondemos em seguida. Ficamos quietinhos e esperando a longa caminhada do Ney, geralmente em câmera-lenta, em direção à humilhação que jamais havia experimentado até então.

Cada um encheu de areia seca e fina as duas mãos que formavam uma só concha. O Cássio, contudo, sabe-se lá por que cargas d’água, sem que soubéssemos até então, pegou um tijolo partido ao meio, daqueles antigos, pesados e massudos, dando "sopa" bem ao lado dele.

Esperamos por um breve momento apenas, e em poucos segundos ouvimos passos rápidos e firmes. Por uma fração de tempo, baseado apenas no que ouvia, mas não via, pensei comigo: “Minha nossa! Como o Ney chegou rápido da esquina até aqui! E por que será que ele está usando tamancos e caminha tão rapidinho assim?” Interrompi este meu mais lúcido raciocínio quando lancei os olhos logo ao lado e vi Matilda deitadinha, com um lado do rosto descansado na areia e extendendo lenta e verticalmente o dedo indicador contra os lábios, como que dizendo pra todo mundo ficar quietinho, enquanto se segurava pra não rir.

Já bem treinados para saber da proximidade do “alvo” apenas usando a audição pra saber a hora de atacar, lançamos a areia que, obviamente, seguiu com o tijolo atirado pelo criativo Cássio. Ouvimos apenas dois sons, seguidos de um silêncio estarrecedor que pareceu uma eternidade, e depois percebemos que alguém vinha correndo na direção da vítima. O primeiro som foi o do impacto seco e tosco do tijolo naquilo que soou ser a cabeça de alguém. O segundo, mais apavorante, foi o de um gemido prolongado.

Fiquei intrigado e levantei a cabeça. Vi que o Ney vinha correndo esbaforido, com os braços abertos, com pernas que quase se trançavam com a força das curvas que precisavam fazer em função da gordura por entre as coxas, sacudindo a barriga como uma porca prenha e cheia de leitãozinhos, e com a lancheira se espalhando por todos os lados ao redor do pescoço. Percebi a palidez dele e, por um instante, pensei: “Hummm... Se ele está ainda no meio da quadra, correndo pra perto de onde estamos, quem terá sido acertado?”

Meu pensamento foi, uma vez mais, interrompido. Desta vez pelos gritos do próprio Ney: “Acudam! Acudam! Mataram uma velhinha!” Nos levantamos todos e, tomados de pura curiosidade infantil misturada ao medo, à ingenuidade e ao desespero, olhamos pra ver quem era.

Era mesmo uma velhinha de tamancos novinhos, nocalteada e estirada, com um talho enorme na altura da testa, uma sacola de sapé ainda presa ao braço cheia de pães d'água (também chamados de pães "bundinha") e duas longas bisnagas frescas (pães "bengala") que se projetavam de dentro da sacola como duas torres gêmeas.

Os visinhos, a maioria deles nossos pais, correram pra ajudá-la, diante da convocação do Ney, a quase vítima que, repentinamente, se transformou no herói esbaforido da hora. Em poucos segundos, meus amigos fiéis viraram “fumaça”, exceto pelo Cássio que, naquela altura, embora trêmulo, tentava inspirar ser o bravo escudeiro que nunca foge da responsabilidade pessoal. Eu, por outro lado, fiquei onde estava porque minhas pernas se recusavam a obedecer ao comando do meu cérebro momentaneamente apequenado.

Congelado, paralisado e atônito diante de tal tragédia, comecei a usar as únicas coisas que, apesar de travadas e trêmulas em meio às muitas engolidas secas, ainda funcionavam em mim: os lábios e a língua. “Não fui eu! Não fui eu!”, repetia inúmeras de vezes. "Quem foi, então, Luisinho?”, gritou alguém sob o olhar dos presentes.

"Diz pra eles, Luisinho! Diz! Diz logo que foi você! Assim a gente resolve isto tudo rapidinho… vai, Luisinho!", dizia o Cássio com olhos a esta altura desesperados e fitos em mim, como que dizendo “Me livra dessa, camarada! As consequências pra mim serão muito maiores se você disser que fui eu mesmo!”

Cássio era filho de pai violento, cujos abusos deixavam marcas visíveis e decifráveis. Sabíamos quando ele havia apanhado de cabo de vassoura, de salto de sapato, de fio de ferro, de fivela de cinto, aos chutes ou a murros. Ele andava sempre apegado ao irmãozinho, como que tentando protegê-lo de todo e qualquer mal que lhe pudesse ocorrer. Numa ocasião, assisti a uma cena em que o Cássio empurrou o irmão para trás de si, posicionando-se entre o pai e o irmão mais novo. Apanhou a surra do irmão, mas não desgrudou dele.

A velhinha acordou logo, zonza e meio confusa, mas rapidamente evoluiu sua melhora à medida em que cuspia areia e a traduzia em olhares de compaixão inexplicável por mim e por meu amigo Cássio. Para a nossa completa surpresa, os olhos dela pareciam pacíficos, sem qualquer demanda aparente em desvendar quem de nós dois era culpado por ter-lhe dado um tijolaço. Parecia já saber quem o teria feito.

Num dado momento, conquistado pelos olhos bondosos da velhinha, segui repetindo o que vinha dizendo dezenas de vezes, esquecendo-me, contudo, de usar a negativa “não”. Fitado por olhos que saltavam de bondade no meio do sangue que ainda corria da testa, passei a repetir: “Fui eu! Fui eu!”

"Não foi não, gente!", dizia o Ney com determinação. "Eu sei quem foi... Eu vi quando atiraram a pedra!" O olhar de todos se dividiam entre o Cássio e eu. Por um momento, cessei de repetir o inseguro e apavorante "Fui eu!", passando a ter pensamentos que viajavam no mundo das possibilidades:

"Se eu lhes revelar que foi o Cássio, ainda hoje ele será espancado pelo pai, e amanhã, se vier brincar, estará todinho quebrado. Mas se eu continuar dizendo que fui eu, a vergonha que virá sobre o meu Reverendo pai será enorme e mais grave do que levar as garantidas palmadas ardidas. Meu Deus! Tenho duas possíveis tragédias sequentes nas palmas destas minhas mãos ainda sujas de areia branca. Que opção devo escolher?"

(A história continua!)

Luís Wesley

Quinta-feira, Setembro 17, 2009

Billy Graham no TED 1998.


Há onze anos,
Billy Graham falou no TED
sobre tecnologia, fé e sofrimento.


Ele diz que a ciência tecnológica é admirável e
indispensável, ao mesmo tempo em que é incapaz
de lidar com problemas que só a fé no Deus que estava
em Cristo pode
resolver. Legendária palestra,
inesquecível, atual e sempre relevante.

(Para ver a versão com subtítulos em português, clique na frase em verde)


Segunda-feira, Setembro 07, 2009

Entrevista para a Revista Mosaico

Respostas às perguntas da jornalista
Suzel Tunes,
da Mosaico da FaTeo


Cara Suzel,
Paz e bem!

(1) Em que período você foi aluno da FaTeo?

Cheguei na FaTeo em Janeiro de 1979, fiz o curso nos quarto anos regulares, e me formei em dezembro de 1982. Fui o primeiro “pré-teológico” da Igreja Metodista, uma espécie de “cobaia”, cuja experiência me fez ganhar mais maturidade, mais solidez nas minhas convicções de chamado e vocação, além de me trazer a convicção de que era isso mesmo que eu queria – preparar-me para o ministério de tempo integral no serviço ao Reino de Deus através do movimento metodista.

(2) O que significou para sua vida (pessoal e profissional) ter sido aluno da Faculdade de Teologia?

O desejo de ir pra FaTeo ocorreu fortemente, pela primeira vez, quando ainda era adolescente e morava no Equador com meus pais e irmãs. A família missionária fora cedida pela Sexta Região Eclesiástica, enviada pela Igreja Metodista do Brasil, comissionada pelo Conselho de Igrejas Evangélicas Metodistas da América Latina (CIEMAL), e sustentada pela Junta Geral de Ministérios Globais da Igreja Metodista Unida, EUA (GBGM-UMC), sob a supervisão de um bispo que é quase uma lenda: Sante Uberto Barbieri.

Lembro-me de que ele nos trouxe um exemplar do Expositor Cristão, no qual havia uma foto do Prof. Dr. Ely Éser Barreto César, de toga, num púlpito, pregando, e, na sequência, uma reportagem sobre um evento ocorrido na FaTeo, onde ele havia falado. Aquela simples foto representou em mim um imaginário de um futuro que poderia ser, e que acabou sendo, sob muitos aspectos.

Tornar-me aluno da FaTeo, contudo, foi um desafio pessoal em várias áreas, dentre elas o abandono do sonho que nutria, desde criança, de fazer medicina. A experiência missionária no Equador, conquanto ainda adolescente, fez crescer o desejo de usar a futura profissão médica n'algum contexto de missão trans-cultural.

A decisão de seguir pra FaTeo ocorreu no cerne de uma forte, inspiradora e transformadora experiência de avivamento na Sexta RE, sob a liderança do então bispo Richard dos Santos Canfield, que, além de mim, gerou líderes como Clóvis Pinto de Castro (atual presidente da UNIMEP), Estêvão Canfield (falecido recentemente, foi iniciador do Ministério Brasileiro e da primeira Igreja Metodista para brasileiros nos EUA, e era pastor em New Jersey), Josué Adam Lazier (hoje bispo emérito), Reynaldo Ferreira Leão “Léo” Neto (pastor metodista na Inglaterra), João Carlos Lopes (bispo e atual presidente da Igreja Metodista do Brasil) e outros contemporâneos.

A experiência de fazer parte de uma comunidade diversa, pluralista e acadêmica, conquanto tensa e em transição, como a FaTeo da época, me trouxe o espectro de vida de que precisava para não somente me capacitar para o ministério cristão na Igreja, mas também de me equilibrar, de me dar lastros firmes que, mais tarde, me lançariam para novas formas legítimas de ministério cristão, não somente em igrejas locais, mas também para além delas.

(3) Que episódio ou lembrança desse período ficou marcada em sua memória?

Pra se entender uma das muitas coisas que permanecem na minha memória do período que passei pela FaTeo (e ela passou por mim!), é preciso que eu fale um pouco de algo ocorrido na minha infância. Meu pai era pastor na linda Porto União, SC. Foi lá que, ainda menino, tive o privilégio e a honra de conhecer alguns dos excelentes representantes dos "anos rebeldes", alunos da FaTeo nos anos 60, gente que não abraçava os comprometimentos ideológicos e políticos de certos representantes da Igreja Metodista no que tangia ao estado vigente criado pelo golpe militar de 1964, que instituiu a ditadura: Herman Oberdick, Günter Bart e Nelson Tomasi.

O Herman Oberdick, por exemplo, cujos pais moravam em Porto União/União da Vitória, vinha em casa para conversar com meu pai e, enquanto isso, fazia pandorgas/pipas pra mim na varanda da casa pastoral. Eu ouvia todas as conversas, e sabia, por esta via, das crises na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista e do brutal e inconcebível fechamento desta.

Pouco mais de uma década depois, quando a minha turma chegou na FaTeo, quase todos os excelentes professores haviam se demitido, voltaram para as suas regiões eclesiásticas ou foram para a UNIMEP, resultando em três transições de reitoria nos quatro anos em que ficamos na FaTeo (Prócuro Velásquez, Duncan Alexander Reilly e Isaac Aço). Para mim, a retirada coletiva de professores foi como se a FaTeo tivesse fechado novamente e não o soubesse.

Lembro-me de que começamos com uma turma de 36 alunos cheios de sonhos e muita, mas muita ingenuidade institucional e teológica. Formaram-se 10 do grupo original, dos quais apenas alguns continuam no ministério pastoral efetivo até hoje. No segundo ano fizemos uma greve de silêncio, pusemos taxinhas na cadeira de um professor que, na ocasião, fingiu não ter sido espetado!, e fizemos outro chorar em plena sala de aula.

A nossa turma alegava que estava exigindo que se resgatasse a qualidade do ensino teológico que havia antes da saída dos professores. No fundo, contudo, éramos nós que estávamos ainda por aprender a sobreviver a uma crise que, aparentemente, não nos pertencia, mas que refletia um momento de transição da própria Igreja, algo que nos envolveria num futuro não muito distante.

Novos professores foram chegando, dentre eles os excelentes Tércio Siqueira e Paulo Lockmann, que nos apaixonavam em suas aulas de Antigo e Novo Testamento, respectivamente. Tivemos também os inesquecíveis Yoshikazu Takiya, Severino Croatto, Antônio Golveia de Mendonça, Geoval Jacinto da Silva e Duncan Alexander Reilly. Todos, indistintamente, nos proveram o que poderia haver de melhor na formação acadêmica e ministerial. No que tange a mim, eles me deram bases sólidas de uma reflexão critica responsável, comprometida com a realidade do mundo e da igreja, e me ensinaram a nutrir um labor teológico engajado e relevante.

Hoje, enquanto missiólogo formado pela rica espiritualidade de santidade social wesleyana, e por um evangelicalismo progressista (i.e., do movimento de “missão integral” brasileiro e latino-americano) que busca não dicotomizar evangelismo e transformação social, vejo-me no privilégio de ser catedrático de uma das maiores universidades metodistas do mundo, a Emory University, Candler School of Theology.

Com apreço,

Luís Wesley

Domingo, Julho 05, 2009

Movimento Carismático e Movimento Antropomágico

Movimento Carismático é o nome dado ao movimento de renovação espiritual dentro das igrejas históricas. É um movimento do Espírito Santo no coração das pessoas e das comunidades que traz dinamismo para vida cristã, paixão pelo Evangelho de Jesus Cristo. É caracterizado pelos dons (karismas) do Espírito Santo distribuídos na comunidade para o serviço ministerial.
Eu gosto do substantivo “movimento”. Faz-me sempre lembrar do texto no Evangelho de João que fala do Espírito Santo como “vento”. Como vento, Ele se move livre e soberanamente. E, de tempos em tempos, se derrama sobre corações sedentos e arrependidos.
O Movimento Carismático tem sido acusado de ser o gerador de muitas práticas confusas no meio das igrejas histórias. Quando surge alguma “novidade extraordinária” e, diga-se de passagem, esquisita, há sempre os que dizem: “Se não houvesse esse movimento carismático isso não teria acontecido.”
É verdade que qualquer movimento espiritual está sujeito a distorções, equívocos, pecados. A quantidade e a intensidade de distorções dependem muito de como a experiência espiritual é interpretada à luz da Pessoa do Espírito Santo na Bíblia. Um livro do Caio Fábio sobre o Espírito Santo já dizia que distorções são resultado da experiência com a “caricatura do Espírito”, e não com a Pessoa do Espírito Santo.
Hoje, podemos ir mais além e dizer que muito do que tem acontecido e tem sido chamado de “espiritual” ou “vindo de Deus” não passa de Movimento Antropomágico: pura ação humana revestida magicamente de chavões, gestos, rituais, métodos, atividades, programas, projetos, etc.
Felizes as igrejas que conseguiram manter o movimento do Espírito Santo por meio da leitura devocional da Palavra, da oração e de tantos outros “meios de graça” revelados na Bíblia.
Infelizes as igrejas que vivem no Movimento Antropomágico, pois em algum momento da sua história repetiu-se a experiência de Saul: “O Espírito do Senhor se retirou de Saul, e um espírito maligno, vindo da parte do Senhor, o atormentava” (1 Samuel 16.14). E não é um exagero essa comparação se lembrarmos da repreensão de Jesus a Pedro, por ocasião da não aceitação do anúncio de sua morte: “Para trás de mim, Satanás! Você é uma pedra de tropeço para mim, e não pensa nas coisas de Deus, mas nas dos homens” (Mateus 16.23). O Movimento Antropomágico, uma vez que é centrado no Homem, e por isso “pensa nas coisas dos homens”, pode estar sendo sutilmente um instrumento de Satanás. E o resultado não é outro senão tormento e falta de paz.
Vou listar algumas diferenças entre o Movimento Carismático e o Movimento Antropomágico:
1. O Movimento Carismático é do Espírito Santo. O Movimento Antropomágico é do espírito humano.
2. O Movimento Carismático é marcado pelos sinais extraordinários dos dons do Espírito Santo como registrado em 1 Coríntios, Efésios e Romanos. O Movimento Antropomágico é marcado por sinais não identificáveis na Bíblia: dente de ouro, uivos e risos no espírito, revelações futurísticas, milagres por atacado etc.
3. O Movimento Carismático cultiva a Teologia da Graça porque experimenta e sabe que os dons (karismas) são dados por graça (karis) de Deus. O Movimento Antropomágico cultiva a Teologia da Retribuição: tudo que é dado só o é porque se deu algo antes, ou seja, barganha-se com Deus.
4. O Movimento Carismático traz espontaneidade e alegria na liturgia do culto. O Movimento Antropomágico acaba com a liturgia e bagunça o culto.
5. O Movimento Carismático não despreza e nem muda o modo de administração dos sacramentos porque se entende como promotor da unidade do Espírito na dinâmica do “ser nova criatura”. O Movimento Antropomágico brinca com os sacramentos, especialmente com o do Batismo, rebatizando os fiéis quantas vezes estes desejarem.
6. O Movimento Carismático dá devida atenção à Bíblia por meio da leitura devocional, do estudo em grupos, da Pregação nos cultos. O Movimento Antropomágico tem a Bíblia como um aparato estético na mão dos fiéis e um pretexto na boca dos pregadores.
7. O Movimento Carismático sustenta-se pela dinâmica das disciplinas espirituais, especialmente a oração pessoal em secreto e as reuniões de oração em comunidade. O Movimento Antropomágico não produz oração pessoal em secreto porque não tem interesse em Deus; ora em comunidade, mas as orações são motivadas exclusivamente por campanhas para atendimento das necessidades humanas.
8. O Movimento Carismático dá importância à Teologia e à História como instrumentos de inspiração, fundamentação e avaliação do movimento. O Movimento Antropomágico despreza a Teologia e a História e arroga-se como “o” movimento inspirado e fundamentado no seu “líder”.
9. O Movimento Carismático mobiliza o povo de Deus para servir na diversidade dos dons e ministérios. O Movimento Antropomágico é centralizado no clero e busca a uniformização dos fiéis.
10. No Movimento Carismático as pessoas se reúnem por amor a Deus. No Movimento Antropomágico as pessoas se reúnem por causa das promessas que seu líder faz, usando o nome de Deus.
11. No Movimento Carismático o louvor faz parte do cotidiano das pessoas de modo que, ao se reunirem para cultuar, ele flui naturalmente. No Movimento Antropomágico o louvor precisa ser bem “animado” pelos “dirigentes do louvor” e necessita de muito aparato instrumental e tecnológico senão ele não acontece.
12. No Movimento Carismático as pessoas saem do templo para evangelização, vão em direção ao povo. Os fiéis do Movimento Antropomágico esperam que o povo venha até eles.
13. No Movimento Carismático o povo é atraído pelo testemunho de vida das pessoas. No Movimento Antropomágico o povo é atraído pela capacidade de propaganda e pelo marketing das igrejas.
14. No Movimento Carismático fala-se de “poder”, como o poder de Deus para testemunhar o Evangelho e libertar o ser humano. No Movimento Antropomágico o “poder” é controle de pessoas, com vistas à ascensão ou manutenção de cargo institucional.
15. O Movimento Antropomágico vê o Movimento Carismático como movimento “tradicional”, ultrapassado. O Movimento Carismático vê o Movimento Antropomágico como movimento humano, carnal, sujeito aos ventos das novidades do mercado religioso. Seu “mestre” na Bíblia é Simão, o mágico (Atos 8.9-24).
Sei que não acabam aqui, mas essas diferenças são suficientes para mostrar que não passa de Movimento Antropomágico o que muitos julgam ser Movimento Carismático. Em outras palavras, a linha divisória dos dois movimentos não é tão tênue que não seja possível separá-los, mas, ao contrário, é muito nítida e grossa, como uma corda que segura navio em porto.
O Movimento Carismático é como o pássaro encantado de um livro de história infantil do Rubem Alves: só é bonito e encantador se estiver livre. Se colocado em gaiola, perde o encanto. Não é exatamente essa a natureza do Espírito Santo? Ele é livre! Sopra onde quer, quando quer, sobre quem quer! Ele jamais será domesticado! Quando alguém pensa que o está domesticando, Ele já se foi há muito tempo!
Nunca me envergonhei de identificar-me como participante do Movimento Carismático. E hoje, quando vejo tantas igrejas no Movimento Antropomágico, sinto saudade.
Ainda deve haver algumas poucas igrejas no Movimento Carismático.
Entretanto, como o Movimento Carismático é obra do Espírito Santo, há esperança que ele ressurja aqui e acolá, quando o próprio Espírito Santo encontrar corações sedentos de Deus, contritos, arrependidos, e se derramar sobre eles.
“Todos esperam de ti que lhes dês de comer a seu tempo. Se lhes dás, eles o recolhem; se abres a mão, eles se fartam de bens. Se ocultas o rosto, eles se perturbam; se lhes cortas a respiração, morrem e voltam ao seu pó. Envias o teu Espírito, eles são criados, e, assim, renovas a face da terra” (Salmo 104. 27-30).

Maurício Ramaldes
São Paulo, 2 de julho de 2009.

Domingo, Maio 31, 2009

"Os Evangélicos" na Globo?


Daqui dos EUA acompanhei de perto as reportagens apresentadas pelo Jornal Nacional que, diga-se de passagem, até então eram inéditas na Rede Globo e vieram com décadas de atraso aparentemente intencional.

A reação por parte de alguns grupos protestantes agora é hilária, o que, em certa medida, demonstra a ânsia quase unânime de verem seus trabalhos, sociais ou não, sendo abordados pela Globo e outros meios de comunicação, de maneira positiva e em cadeia nacional e internacional.

Apreciei cada uma das reportagens. Como bom metodista que sou, sentí-me muitíssimo lisonjeado por fazer parte de um movimento que, desde suas origens, procura desenvolver a prática do que chamamos de "santidade social", e por ver uma pequena pinçada demonstrativa disso ser exposta ao conhecimento da sociedade brasileira. Aliás, uma excelente pinçada no que tange ao destaque dado à Comunidade Metodista do Povo de Rua, intercalado com o testemunho público do evangelho do Reino por parte de gente que é transformada e de gente que transforma!

Apreciei, portanto, o fato de ver a exposição de ao menos um dos muitos ministérios desta natureza que são exercidos pela denominação, do Oiapoque ao Chuí -- ao longo dos anos, desde a primeira chegada ao Brasil dos missionários metodistas em 1836 --, através de suas igrejas locais, ministérios especializados e iniciativas individuais, muitas destas invisíveis até para a própria igreja.

Me pergunto, contudo: O que pode (ou não) haver por detrás deste afago público-Global? O que pode estar à frente do protestantismo brasileiro em geral após esta série? Só Deus e a Globo é que sabem realmente, imagino (rsrsrsrsrs).

Ficou claro que focaram apenas as igrejas chamadas "de tradição histórica", nenhuma das quais é proprietária de TV concorrente em cadeia nacional. Tom macio e simpático, além de flagrante entusiásmo na apresentação, sem falar de um certo toque naïve, da atitude tipo "veja como nós da Globo 'sempre' amamos vocês!", do velado preconceito em relação ao pentecostalismo em geral (ao menos na correção que fizeram da apresentação sobre os batistas), da ausência absoluta de apreço e consideração ao pentecostalismo clássico e deutero-clássico, etc.

Não estou e nem quero estar entre aqueles que estão falando tosqueiras destas reportagens da Globo. Alguns que assim o fazem, "até o anticristo colocaram no meio", como diz com propriedade o blogueiro Sérgio Pavarini (PavaBlog.com). Contudo, penso que os evangélicos brasileiros ainda estão por entender melhor a diferença entre poder de mídia e acesso (condicional) à mídia. Afinal, há implicações sócio-político-relacionais anexadas à esta diferença.

Como diz o ditado, "Gato molhado tem medo de água fria". Sou de uma geração que aprendeu a suspeitar, sem ceticismo barato ou de crítica apenas pelo bem da crítica, das intenções do quarto poder (os meios de comunicação), notadamente da Rede Globo. Esta, ao longo das últimas décadas, ocupou-se em privilegiar outros grupos religiosos em detrimento do protestantismo, quase sempre caracterizado como "seita". Nos anos 70, 80 e 90, antes e depois do final da ditadura militar, ouvi muitas de vezes o seguinte dos meus pares de geração: "Cuidado com a Globo, porque ela pode te fazer de bobo!"

Luís Wesley

Segunda-feira, Maio 25, 2009

Spoken Word: Woman at the Well

Este vídeo é uma dramática interpretação da mulher que encontrou-se com Jesus no Poço de Jacó e o seu desejo de ser amada por quem ela realmente é. Intensa interpretação! Faz parte de uma série de videos chamada "Spoken Word" (Palavra Falada), produzida pelo Student Life.


Segunda-feira, Abril 13, 2009

Antológico: O TAPECEIRO -- De João Alexandre


(Clique na foto ou aqui para ver video no YouTube)

Tapeceiro, grande artista,
Vai fazendo seu trabalho
Incansável, paciente no seu tear

Tapeceiro, não se engana
Sabe o fim desde o começo,
Traça voltas, mil desvios sem perder o fio

Minha vida é obra de tapeçaria,
É tecida de cores alegres e vivas,
Que fazem contraste no meio das cores
Nubladas e tristes
Se você olha do avesso,
Nem imagina o desfecho
No fim das contas, tudo se explica,
Tudo se encaixa, tudo coopera pro meu bem

Quando se vê pelo lado certo,
Muda-se logo a expressão do rosto,
Obra de arte pra Honra e Glória do Tapeceiro

Quando se vê pelo lado certo,
Todas as cores da minha vida
Dignificam a Jesus Cristo, o Tapeceiro

Sábado, Abril 11, 2009

Na cama com minha amiga-inimiga.


Reflexão sobre uma invasiva
relação de intimidade.

Eu e ela, ela e eu.

Tenho alguém muito íntima de mim, de longe a maior e a melhor das amigas inimigas que jamais pensei, imaginei ou planejei possuir. Tenho com ela uma relação tão íntima e que se manifesta num grau de cumplicidade tal, que há momentos em que não sei se o que sentimos um pelo outro é amor, ódio ou o mais puro instinto de sobrevivência.

Tento compreender suas origens, seus conteúdos, suas faces, seus caminhos, suas notas, seus abismos, suas foices, seus remédios... Todos estes perfis me parecem óbvios e, ao mesmo tempo, obscuros e nebulosos.

Bálsamo, unhas e cobertor.

Quando ela conversa comigo, com a doçura mais desejada que minha alma possa conceber, com uma voz cujos sons e timbres são quase imperceptíveis, invado-me pela impressão de conhecê-la desde minha mais tenra infância.

O seu tom me faz lembrar da voz de minha mãe, e, por essa via, ela me faz sentir como se eu estivesse voltando à experiência e à imagem de, em resposta ao meu choro, ser colhido no colo, amamentado e embalado por aquela que me amava sem condições.

Contudo, quando ela mostra suas unhas, cujas bordas cortam como punhal bem afiado, e me faz saber que são esmaltadas por uma incrível mistura de mel e fel, antídoto e veneno, ferida e remédio, o meu impulso mais óbvio é sair às pressas, à busca de um abrigo qualquer, o primeiro que aparecer, mesmo que esse seja sobre um travesseiro e entre o colchão macio, o lençol e o ededrom que me aquecem.

Me cubro depressa como aquela criança que tem medo de “Bicho-Papão”, como se este fosse fraco o bastante e ingênuo o suficiente para não pensar em tirar ou transpor o cobertor. Que ledo engano!

Paz ou perturbação.

Aonde quer que eu vá, lá estará ela também. Me segue como um cão dependente de seu dono, ou como um dono apegado ao seu cão. Às vezes me deixa em paz, e às vezes em perturbação. Me cutuca, me instiga, me provoca, me toca, me povoa, me faz pensar, me invade, me exorta e me mata, para logo mais me consolar, me beijar e me reacender para a vida.

Ela é uma alternação que vai de uma amiga-inimiga a uma inimiga-amiga. Já tentei dizer-lhe que não mais quero conversar nem trocar idéias, mas ela é teimosíssima e extremamente persistente! Quer estar comigo, não importando onde, quando, com quem ou em que circunstâncias.

Nudez e crueza.

Aliás, diga-se de passagem, com freqüência ela invade as minhas mais profundas intimidades e privacidades. Nada há que ela não conheça em mim, e a cama costuma ser o lugar onde ela mais gosta de me fazer companhia.

Abraça-me por detrás e pela frente, entrelaça suas pernas nas minhas, sussurra nos meus ouvidos me falando coisas indizíveis, me aperta, me agita, me excita e me relaxa. Tira o meu sono para devolvê-lo logo em seguida.

Nua e crua, ela se encaixa em mim de uma tal forma e com tal leveza que, depois de um certo tempo, passo a não mais saber se há algum espaço de qualquer espécie entre nós. Me verga, me entorta, me endireita novamente, me apruma, me faz rolar, me surra, me afaga, me põe genuflexo, me redime...

Intromissão.

Intromete-se onde pouco peço sua ajuda, fala coisas sobre as quais pensei em não solicitar sua opinião, responde perguntas que formulei apenas e tão somente no íntimo e no mais absoluto e obsequioso silêncio, canta músicas antigas perturbadoras que pensei nunca voltaria a ouvir.

Mas, como numa mágica instantânea e paralela, ela me faz sentir em casa, como quando minha alma voava ao abrir os braços para recostar-me naquela rede da varanda da casa dos meus pais. Eu ainda era um menino sem noção de como a vida se desvendaria, mas que amava observar o vento tocando as árvores de folhas viçosas e cheias de frutas, e os pássaros silvestres pousando nelas.

O diálogo.

“Por que você não me deixa?”, eu pergunto, mas a resposta é sempre a mesma: “Oras bolas... porque você não viveria sem mim! Porque seria como um tronco cortado, morto e lançado despenhadeiro abaixo, ou como uma folha que se desprende do galho e que, a partir de então, é levada por um vento que não possui nem parâmetros nem direção. Deixe-me ficar com você, eu lhe peço”, insiste minha amiga-inimiga.

"Tá bom, tá bom... Pode ficar!", eu replico e completo: "Afinal, de você o que mais quero é a Essência que te perfuma, o Aroma que me seduz, a Graça que me perdoa, o Sangue que me alveja e o Conteúdo que me forma."

E eu me silencio e me tranqüilizo nos braços desta eterna parceira de cama e travesseiro: a Consciência.


Copyright © April 2008 Luís Wesley de Souza

Sexta-feira, Abril 10, 2009

Pensando alto

Há formas falsas de sofrimento que nos são impostas, às vezes vindas de fora, via injustiça e crueldade externa, e às vezes provindas de dentro da gente mesmo. Estas formas falsas de sofrimento precisam ser resistidas, recusadas, rechaçadas com vigor e determinação. Não acredito que o Deus que me deu vida queira que eu viva uma morte em vida. Creio que o mesmo Deus que concede vida quer que eu viva de forma integral, saudável e inspiradora.

Isto significa que eu não possa ser levado a situações e lugares nos quais venha a sofrer? Não. Significa que posso vir a vivenciar dores relacionais por me posicionar em relação a algo que considero correto, incorreto ou importante? Sim.

Significa ser vulnerável às angustias de quem nutre convicções e as expressa com honestidade, coerência, bom senso e equilíbrio, ou mesmo de estar apaixonado por algo que se torna resistível e rejeitável por um indivíduo, grupo, instituição ou sociedade, em razão dos interesses políticos, ideológicos e mesmo da falsa moral dos afetados? Sim, absolutamente. Qualquer um que tenha sofrido desta maneira sabe que é uma dádiva da vida, e que, se esta é sua verdade, não pode deixar de fazê-lo. Este conhecimento o ajuda a passar pelo que for necessário.

Mas o tipo de sofrimento que precisa ser rejeitado é aquele que se torna morte na vida. É esta escuridão que precisa ser vencida para que a gente encontre a luz e a vida mais adiante, sabendo que quanto mais perto se chega da luz, mais se discerne a escuridão. Mover-se em direção a Deus é aproximar-se daquilo que todo ser humano precisa conhecer e experimentar, e isto pode vir a incluir ambos: sofrimento ou regozijo.

LWS

Sexta-feira, Março 13, 2009

ODEIO ROSAS VERMELHAS - Por Larissa B. Piconi


Hoje de manhã, enquanto tomava meu café antes de sair para o trabalho, observava um botão de rosa que se encontrava deitado, ainda embrulhado e acompanhado de um pequeno cartão, em cima da mesa. Aquela flor estava ali desde o dia 08 de março, dia em que a havia ganhado. Passado alguns dias sem água e cuidado, a rosa já se mostrava sem vida.

Neste momento, pensava na minha insensibilidade, na minha falta de zelo com algo tão belo e singelo. Indagando-me acerca do porquê de tamanho desprezo, lembrei-me da razão pela qual a havia ganhado, quando pensei em voz alta: "Esta flor não tem nenhum significado para mim!"

Pensei nos inúmeros outros botões de rosa vermelha que, assim como aquele, haviam sido distribuídos a tantas outras mulheres no Dia Internacional da Mulher. Pensei na possibilidade de a singeleza e fragilidade daquela flor esconder no interior daquelas pétalas fechadas, a permanência de uma relação desigual entre sexos instaurada na história da humanidade. Pensei na possibilidade de estas mesmas pétalas mascararem o motivo pelo qual este dia existiu. Pensei na possibilidade desta rosa silenciar e constranger uma batalha que ainda não se encerrou.

Em um breve instante, aquela flor passou a ter muitos de significados para mim.

Em meio a tantos pensamentos, me veio à memória o momento em que aquela flor foi-me entregue. Lembrei-me do meu chefe vindo de sua grande sala até o meu pequeno espaço de trabalho para, pessoalmente e em mãos, entregar-me um botão de rosa vermelha acompanhado de um cartão. Após parabenizar-me pelo "meu dia" (seja lá o que isto significa), um tradicional comentário surge de um colega de trabalho: "E o dia dos homens?". E eis a resposta fatídica daquele que, há segundos atrás, me parabenizara pelo "meu dia": "O DIA DOS HOMENS SÃO TODOS OS OUTROS".

E agora, continuo a pensar: que significados tem esta flor para mim?

Copyright © Março 2009 Larissa Bassi Piconi

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009

Decálogo de um escritor sem literatura.


Judith*:

I. Minhas cartas são tão longas que, suspeito, nunca são lidas por inteiro;

II. Meus livros são tão longos que sequer me animo a terminá-los;

III. Meus contos são tão detalhados que melhor seria se não tivessem nem começo nem fim. Assim eu teria mais espaço pro meu virgulismo de detalhe;

IV. A vida se me apresenta tão tagarela que tornei-me um ser de algumas poucas palavras verbalizadas e de outras poucas apenas blogueadas;

V. Minhas idéias são criativas, mas sempre nutro dúvidas de que sejam inéditas. Afinal, não é possível que ninguém as tenha tido antes de mim, até mesmo o que acabo de dizer;

VI. Tento fugir de sacadas fenomenais. Nesta fuga, descubro que o óbvio pode vir a ser mais inimigo da escrita do que as sacadas;

VII. Saquei outro dia que as introspecções inéditas são um convite para a dúvida e, portanto, um possível bloqueio para a necessária confiança que se deve ter para serem colocadas no papel, na página do livro ou na tela do computador;

VIII. Esborracho o nariz e a testa intelectual quando, ainda que raramente, me permito seduzir por qualquer espécie de presunção acadêmica;

IX. Num mundo em que quase tudo já foi dito, gostaria de ser o herói "eureca" da escrita, e, uma vez mais, quebro a cara;

X. Acho absolutamente asquerosa a filosofia de originalidade enquanto "arte de esconder as fontes". Isso me faz querer antecipar-me às fontes, i.e., elaborar o meu saber antes que elas me digam o que quer que seja que estão lá pra dizer. Depois, então, eu as procuro como possível sustentação, e o que encontro são evidências da minha absoluta idiotice em pensar que realmente pudesse me antecipar às idéias já traduzidas em letra e literatura há um, dois, dez, cem ou mil anos!

Agora me diga uma coisa, Judith. Que conselho literário você daria a este escritor sem literatura? Por favor, seja generosa!

Luís Wesley

-------------------------
Resposta da Judith:

Luís Wesley, digamos que seu resumo levou bem mais que 6 palavras! Rsrs. Bem, diria umas poucas coisas e considere minha distância abissal da vida acadêmica, terreno fértil para grandes verborragias (e outras coisas mais nobres, admito!): 1. Fuja da onipotência; originilidade, sacadas fenomenais, eureca, estas coisas. O sábio tem razão: não há nada novo debaixo do sol. 2. Não tenha medo de duvidar e, ao fazê-lo, não se omita de colocar no papel. A dúvida é terreno mais fértil para o pensar generoso do que as certezas. Via de regra, eu acho (hahaha). 3. Se suas cartas não são lidas, idem seus livros e seus contos são detalhistas demais, que tal enxugar e aplicar o princípio do "menos é mais"? 4. É sábio falar menos, ouvir mais e abrir a boca quando se achar que se tem o que dizer. Bom caminho, este! 5. Não leve nada disso a sério. Acho que ambos estamos brincando né? rsrsrs. 6. Viu como vc não é o único a não conseguir fazer seu resumo em 6 palavras. Eu tb não consegui! rsrsrs. Judith

---------------
*Judith de Almeida, amiga de longa data, faz crítica literária e acumula grande experiência adquirida nas publicadoras que trabalhou, dentre elas a Editora Sepal e a Editora Vida Nova. Sua competência na área lhe deu o mérito de trabalhar com a Thomas Nelson, uma casa publicadora cristã fundada inicialmente em Edinburgh, Scotland, hoje com sede em Nashville, TN, EUA, e expandida mundialmente.


Terça-feira, Fevereiro 17, 2009

Siga os sinais que se apresentam a você...



Tradução (em sequência):
(1) "Tire uma foto", (2) "Tô brincando!", (3) "Stacey", (4) "Jason", (5) "Prazer em conhecê-lo!", (6) "Prazer em conhecê-la também!", (7) [Jogo da Velha], (8) [Careta], (9) [Seios], (10) "Tenho um segredo", (11) "Eu estava te observando primeiro", (12) "Quer se encontrar?", (13) "Fui promovida", (14) "Deveríamos celebrar", (15) "Absolutamente!", (16) "Quer se encontrar?", (17) "Pensei que você nunca perguntaria", (18) "Oi"

Domingo, Janeiro 25, 2009

Mais perguntas ou mais respostas? (VideoBlog #4)

Sábado, Janeiro 24, 2009

AMIGOS CAMINHANTES, SONHAR É PRECISO!


Por Liana Bassi

Após receber um e-mail do meu filho, contando como foi viver o momento histórico sobre o qual estão os holofotes do mundo, percebi-me inquieta.

Inicialmente, me senti orgulhosa como mãe ao observar a autonomia e a grandeza das escolhas dos meus filhos. Alguns me disseram que sou louca por ter permitido que ele se aventurasse a ir para Washington numa época dessas para participar da posse de um presidente que nem é o do país dele. Mas o que é a vida senão correr riscos e conseqüências das escolhas que fazemos?

Meus olhos percorriam as linhas da mensagem de e-mail, enquanto a minha mente se estendia por outras “linhas”. Fiz-me várias perguntas: O que há de tão especial na chegada desse homem à presidência de uma nação tão poderosa? O que nós, brasileiros, dependentes de economias poderosas, temos a ver com isso? Não temos coisas mais importantes para nos preocupar? Como anda a saúde, a educação, a assistência, o meio ambiente etc? Quantos brasileirinhos nasceram no mesmíssimo dia da posse de Barack H. Obama, porém sem perspectiva de futuro? Não seria a hora de olharmos pra nós mesmos ao invés de vibrarmos com os estadunidenses como se fôssemos parte da mesma nação?

Lembrei-me, também, do quanto me irrita assistir a mídia enfatizando e priorizando as notícias externas contribuindo para uma mega-valorização de tudo que não é nacional.

Por um outro lado, a imagem daquele homem de pele escura me remeteu à imagem de um outro homem que teve um sonho: "Eu tenho um sonho," declarou Matin Luther King Junior, "no qual meus quatro pequenos filhos viverão num país onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas sim pela grandeza de seu caráter". O mais incrível foi conseguir que o seu sonho se tornasse um sonho coletivo.

Será que estamos perdendo a capacidade de sonhar?

Não sou uma pessoa que já viajou muito para fora do Brasil – embora faça parte dos meus planos conhecer novos lugares e culturas! –, mas dentre aqueles que visitei, certamente um dos mais marcantes e inesquecível foi o memorial de Martin Luther King Junior, em Atlanta, GA, EUA. Relembrar a sua história, luta e caminhada, estar na mesma igreja de onde ele lançava as sementes da sua esperança me levou às lágrimas.

Estas lembranças me remetem à resposta da pergunta que fazemos quando procuramos o que a posse de Obama tem de especial. Na verdade, provavelmente, ele não tenha nada de tão especial assim, e é aí que reside sua importância! Talvez não seja o que todos esperam e provavelmente não será, já que há uma hiper-valorização do seu poder. Do "poder negro" de um homem que se coloca como representante de brancos, negros, amarelos, vermelhos e todas as cores que quisermos dar.

A meu ver, o poder não é dele. O verdadeiro poder é o que reside nos sonhos. E, neste dia 21 de janeiro de 2009, o mundo assistiu a materialização do sonho de Martin Luther King Junior e de muitos outros que compartilharam não somente os seus sonhos, mas também a vida, a prisão quando necessário, o levantar-se pela liberdade e, em muitos casos, a própria morte.

Este evento histórico mostra para a humanidade que não basta sonhar, contudo. Afinal, além do sonho, é preciso construir o futuro no tempo que se chama hoje. Meus alunos muitas vezes me questionam dizendo que a transformação social é impossível diante dos óbices impostos pelo capitalismo. Um outro amigo diria que tudo não passa de falácia. Todavia, hoje, a nação norte-americana nos dá esta lição: não devemos desistir dos sonhos.

Quanto a mim, quero continuar tendo sonhos e sendo alimentada por eles por mais que tenham o sabor da utopia. Fernando Birri, o cineasta argentino citado pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano, diz o seguinte: "A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para caminhar".

Sendo assim, amigos caminhantes, o horizonte nos espera.

Liana Bassi

Sábado, Janeiro 17, 2009

A Gente é Gente, Gente! (VideoBlog #03)

Domingo, Janeiro 11, 2009

As Falsas Trindades (VideoBlog #02)

Sexta-feira, Janeiro 02, 2009

A Teologia e o Silêncio (VideoBlog #01)

Segunda-feira, Dezembro 29, 2008

Uma mensagem para 2009 e um convite pra você.

Sábado, Dezembro 27, 2008

2009 com outro tipo de bênção.

"Possa Deus abençoá-lo com desconforto diante de respostas fáceis, meias verdades e relacionamentos superficiais, de forma que você possa viver profundidade em seu coração.

Possa Deus abençoá-lo com brabeza diante da injustiça, opressão e exploração de pessoas, de maneira que você possa trabalhar por justiça, liberdade e paz.

Possa Deus abençoá-lo com lágrimas que se derramem por aqueles que sofrem dor, rejeição, fome e guerra, de forma que você possa estender suas mãos para confortá-los e tornar suas dores em regozijo.

E possa Deus abençoá-lo com suficiente irracionalidade e estupidez para crer que você pode fazer diferença neste mundo, de maneira que você faça o que outros afirmam que já não pode ser feito."

(Texto original em inglês, autor desconhecido, tradução de Luís Wesley)

Quinta-feira, Dezembro 25, 2008

Natal, crianças e adultos.

“Natal não é festa para crianças.
Elas já sabem que Deus é criança.
Não é festa para elas.
É festa delas para os adultos.
São os adultos que estão perdidos.
Por isso eu sugiro que no Natal as crianças
façam coisa que nunca fizeram:
que elas dêem brinquedos como
presentes para os seus pais,
mesmo que sejam os brinquedos velhos.
Aí, quem sabe, o milagre acontece:
os adultos viram crianças de novo
e os filhos ganham, então,
o melhor de todos os presentes:
companheiros de brinquedo.”
Rubem Alves

Segunda-feira, Novembro 17, 2008

Mais respostas ou mais perguntas? (Um ensaio)


Não abraço teologias "tagarelas", da mesma forma como não
ponho fé em teologias que só oferecem respostas,
muito menos nas que respondem perguntas
que ninguém formulou, nem nas que forjam
perguntas e respostas sem qualquer relação com
o espaço, o tempo, a cultura e a conjuntura.

Penso que a maneira mais honesta e criativa de entender e processar uma dada tradição cristã é focar nas perguntas complicadas do passado e do presente formuladas pela mesma tradição, com a consciência de que as respostas foram e ainda são, freqüente e necessariamente, contextuais e provisórias. Desta forma, refletir numa tradição cristã não é uma questão de obter respostas para todas e cada uma das perguntas que temos hoje, sem margens de exceção. Ao invés disto, para teólogos cristãos que querem ser responsáveis com a história, a atitude de perguntar e responder deveria, isto sim, se tornar um exercício de questionar e lutar/lidar com respostas aparentemente prontas.

Estou falando de perguntar e lutar/lidar principalmente com aquilo que se nos apresenta como respostas inquestináveis e definitivas, na maioria das vezes sobre questões secundárias e terciárias, e de brigar com aquilo que bloqueia nossa liberdade de re-interpretação e re-construção. Isto é próprio do movimento
protestante, diga-se de passagem!

A tradição cristã deve continuar fazendo perguntas profundas, ricas e pungentes, tais como: Por que o mal existe? Por que tantas pessoas sofrem? Onde está Deus em relação ao sofrimento? Afinal de contas, Deus se importa mesmo com a opressão, a injustiça, os geradores de infelicidade, o abuso moral, a falta de solidariedade etc? Se sim, qual o nosso lugar na missio Dei em relação a isto tudo? Como Deus se importa e em relação a quem? Há ordem e justiça no universo? Por quanto tempo?

Esta é a razão pela qual, no processo de fazer teologia, quando a gente faz perguntas,
por exemplo, buscamos não por respostas, mas por insights (introspecções). Tais introspecções precisam nos arremeter para mais além de respostas óbvias que apenas dourem a pírula da vida com ilucinações transcendentes e pretensamente revelatórias, ou que apenas alimentem esta cultura de consumo da fé que cria disneylândias espirituais e bancos de respostas prontas.

É claro que a tradição cristã, por seu labor histórico, já possui uma multiplicidade de respostas, algumas das quais são e devem continuar sendo definitivas e inegociáveis. Um exemplo está nas seguintes formulações e convições da Reforma Protestante: Sola gratia (somente pela graça), Sola fide (pela fé somente), Solus Christus (somente Cristo), Sola scriptura (somente a Escritura), Soli Deo gloria (glória somente a Deus). Como já disse num post anterior, "menos do que isto deixa de ser o Evangelho do Reino; mais do que isto é borra que as confessionalidades aderem e tromboses que as institucionalidades impõem" (LWdeS, neste blog, em 11/12/07).

Embora possua respostas que, de fato, são nada menos que definitivas e inegociáveis, na tradição cristã também existem respostas que são apenas convincentes, outras são, digamos, promissoras, e ainda outras são realmente insatisfatórias. Sobre estas últimas, elas são parciais e misturadas com a inevitável falibilidade humana e os ruídos ideológicos. Por isso que é tão importante que as comu
nidades de fé lutem/lidem com textos difíceis e com aspectos complicados da tradição. Penso que é isto que a biblicista Katheryn Pfisterer Darr sugere quando diz, por exemplo, que “às vezes continuamos a abraçar textos que ferem, não porque afirmamos suas respostas, mas porque eles nos forçam a confrontar as questões importantes.”

O fato é que não possuímos tradições, incluindo aqui as interpretações bíblico-doutrinárias, que não passem por artérias falíveis e parciais. Temos, isto sim, tradições que, apesar de ricas, inspiradoras e admiráveis
a maioria das quais dão sentido ao "abraço" que damos à fé , são extremamente terrenas, ambíguas e saturadas de dor, ao mesmo tempo em que são feitas e ornadas de paixão. De qualquer forma, ao questionarmos e re-questionarmos, e ao lidarmos com respostas que nada são senão como o tatear de um cego diante do seu desejo de conhecer as formas e as imagens, a gente ganha sabedoria – embora esta mesma sabedoria ainda não seja certeza.

Penso que toda e qualquer teologia começa com perguntas muito humanas, das quais a mais importante é: "Há ordem e significado neste universo?" Penso também que, pelo fato de que muitas teologias não se mantém intactas, íntegras e holísticas i.e., não provêem poder formativo suficiente para impedir a injustiça, a segregação racial, a opressão, a desumanidade, o genocídio, etc. (o holocausto é um exemplo clássico, mas não é o único!) , não deveríamos discutí-las como lugares onde se desvendam questões/respostas importantes.

Afinal, é isto que as teologias responsáveis apontam com profundidade: para perguntas/questões difíceis que formam a comunidade da fé e a colocam na linha de frente de uma ação profética
transformadora; não para respostas fáceis que, no seu resultado pedagógico final, deformam a percepção que devemos ter do mundo, da realidade, do espaço, da conjuntura, das pessoas, dos poderes, da cultura, dos sistemas e do tempo!

Parte da nossa tarefa como pensadores cristãos, então, é perguntar sobre que espécie de perguntas produziram as respostas que não se mantiveram em pé diante das vicissitudes da história. Do contrário, cometeremos os mesmos erros de outrora, elaborando respostas pretensamente definitivas, mas extremamente descontextualizadas, pouco formativas e nada transformadoras.

Luís Wesley

Marcadores: , , ,

Sexta-feira, Novembro 07, 2008

ESTES NOSSOS IRMÃOS...


Nosso irm
ão querido, o liberal-democrata Barack H. Obama, com a graça de quem sabe tanto mobilizar as massas populares como desafiar e dobrar impérios econômicos, com a consciência de quem foi eleito para fazer bem ao mundo, com a solidariedade humana que lhe é característica, e com a sensibilidade global que demonstra, vai arrumar o que um outro irmão nada querido, o conservador-republicano, metodista "de carteirinha" George W. Bush, des-arrumou no mundo.

O irmão Bush adentrou a presidência dizendo que era "homem de guerra". Suas escolas foram os interesses de conglomerados petrolíferos e financeiros. Com trejeitos de típico vaqueiro texano, atrelado a um conjunto de idéias néo-fundamentalistas, conseguiu começar (sem terminar) uma guerra baseada em premissas faltosas, abriu uma "vala" por onde também correu o sangue de milhares de pessoas inocentes, orientado pela mais pura lógica do "olho por olho e dente por dente". Gastou múltiplos trilhões de dólares, que poderiam ter sido investidos em desenvolvimento humano ao redor do mundo, e praticou uma política que acabou por defenestrar a economia mundial e espalhar inseguranças e incertezas em nível planetário.

O irmão Obama foi eleito por uma variedade de segmentos, até por aqueles que os "irmãos" não consideram serem irmãos, e tomará posse dizendo que quer a paz e que não pensa somente nos Estados Unidos da América. Suas escolas foram as múltiplas orfandades (paterna, materna e social) e a cidadania mundial que corre em suas veias e embeleza sua história. Antes, durante e depois de seus estudos na Harvard University, soube transformar, para si mesmo, em sala de aula, as ruas e calçadas de Chicago, aprendendo a sentir o que o povo sente, saber o que o povo sabe para, então, mobilizá-los por mudanças necessárias.

O irmão Bush desenhou sua própria história com lápis coloridos pelos conservadorismos evangélicos do "cinturão bíblico" americano -- eivado de conceitos e preconceitos pouco cristãos --, e a caricaturou de tal forma que acabará sendo contado como o pior presidente que os EUA jamais teve. A história do mundo hoje lamenta sua ascensão à presidência e desde já agradece e sua partida do poder.

O
irmão Obama já fez história, e até aqui ele a escreveu com tinta que tem a cor da dignidade de ser quem é, de vir de onde veio e de representar o que representa. Além de ser o primeiro afro-americano a ser eleito para o ofício da presidência dos EEUU, ele incorpora o perfil do líder que, com jeito calmo e dialético, porém firme, inteligente e nada impulsivo, exerce o poder em favor do seu país e do mundo. O que a história fará dele vai depender de sua própria honra, abertura e determinação, e daquilo que o seu povo venha a permitir, com todas as implicações envolvidas, que se transforme aqui na América e no mundo.

Estes nossos dois irmãos, embora compartilhem da mesma fé cristã, abraçam epistemologias e cosmovisões muito diferentes. O irmão Bush estribou-se no maniqueísmo dos irmãos para os quais a percepção da irmandade/fraternidade humana é fosca, distorcida, cheia de ruídos e interferências de um protestantismo opinionated, e sujeita a flagrantes incapacidades de perceber "o outro" mais além dos arraiais e currais religiosos. Por outro lado, o irmão Obama concebe que, neste mundo já marcado pela desigualdade, não basta ser apenas irmão dos que tem a mesma fé e fazem as mesmas escolhas: é preciso se estender muito além de si mesmo e das pobres agendas religiosas e partidárias, amar a justiça, solidarizar-se com os que sequer sabem mesmo o que significa ter um irmão, e ser agente de mudança em favor de todos, indistintamente.

Luís Wesley


Copyright © Novembro 2008 Luís Wesley de Souza


Marcadores: , ,

Terça-feira, Novembro 04, 2008

Memoráveis tempos!

.

.

Telêmaco Borba, PR, 1978, Acampamento Metodista Bispo Dawsey. Da esquerda para a direita: Vera, Lidiane, Eliane, Ediéia, Arlei, Edinei e Luís Wesley. Coloco esta foto aqui porque aqueles eram "Anos de Prata Fina", e para que aquela geração se alimente do que são nossas lembranças de Telêmaco Borba e dos jovens da Sexta RE no final dos anos 70. Recebi esta foto da Lidiane. Tive uma lembrança vívida da ocasião. A foto pode ser qualificada de “medonha”, sim, mas é repleta de significado. “Medonho” mesmo é o que nos tornamos após 31 anos!

O Acampamento Bispo Dawsey era rústico e simples, e a gente ía pra lá por muitas razões, menos à procura de conforto. Note o fundo do palco em lona ainda, paredes de tijolo sem reboco, nada terminado, tudo provisório, tema ("Em busca da maturidade cristã") e cântico (veja letra abaixo) escritos à mão em cartazes de papelão... E nós todos éramos mais simples também. Afinal, painéis refletores e retro-projetores eram coisas "futuristas", datashow e tela de plasma sequer cabiam na nossa mais criativa imaginação, e "CD" eram apenas as duas primeiras das três letras daquele adjetivo terminado com "F" que dávamos aos nerds.

E tinha muito barro! Basta observar os nossos sapatos e botas. A foto, de fato, tem a "côr" de Telêmaco da época. Quanto mais barro e frio em Telêmaco, mais aconchegante ficava. A gente trabalhava pra construir o “Recanto”, sujava a roupa, mas limpava a alma!

Olho nesta foto e esta é a pergunta que me vem à mente: Éramos mais ingênuos e mais alienados, ou mais sensíveis, alegres, livres, aquecidos e apaixonados? No que tange a mim, percebo o quanto a vida, de lá pra cá, se sofisticou em TODOS os aspectos. Saudade da simplicidade...

Entretanto, a memória do que foi caminha lado-a-lado na definição de quem somos. Afinal, "sucesso" não se mede pelo que nos tornamos, mas de onde viemos e a Quem pertencemos.

Luís Wesley

----------------------------------

Mais e Mais

Queremos te conhecer mais e mais,
Escolhendo os teus caminhos mais e mais.
Queremos te obedecer, procurando o teu querer,
E vivendo pra te agradar mais e mais.

Queremos, Senhor, te amar mais e mais.
Ajudando a tua gente mais e mais.
Crescendo pra sermos úteis no teu reino aqui, Senhor.
Repartindo a tua vida mais e mais.

[Luiza Cruz (1973)]


Sábado, Novembro 01, 2008

95 Teses para a Igreja de HOJE.


Por José Barbosa Junior (organizador)

No dia 31 de Outubro de 1517, o monge agostiniano Martinho Lutero afixou, na Abadia de Wittemberg, 95 teses em que desafiava a Igreja Católica a debater sobre a venda de indulgências. O fato desencadeou o que mais tarde seria conhecido como a Reforma Protestante, movimento que marcou a história da humanidade.

491 anos depois, ao vermos a igreja "protestante" navegar por mares incertos e perigosos, decidimos lançar em comemoração a esta data tão importante em nossa história, um manifesto pela volta à simplicidade do Evangelho, segundo as Escrituras.

O lema Eclesia reformata, semper reformanda, deve estar sempre ecoando em nossos ouvidos, chamando-nos à responsabilidade de sempre caminharmos segundo a Palavra, sem nos deixarmos levar por ventos de doutrinas e movimentos que tentam transformar a Igreja de Cristo, num circo eclesiástico, nas mãos de líderes inescrupulosos, que manipulam o povo ao seu bel prazer, tudo isso em nome de Deus! Fica lançado aqui o nosso desafio. Não temos a pretensão de iniciarmos uma "nova reforma", mas simplesmente levar o povo de Deus a uma reflexão sincera e bíblica daquilo que temos vivido como Igreja de Cristo em nosso tempo.

O texto abaixo surge muito mais como desabafo e lamento do que como proposta de revolução.

"Non nobis Domine, sed nomini Tuo da gloriam" (Salmo 115.1)

95 Teses para a Igreja de Hoje

1 – Reafirmamos a supremacia das Escrituras Sagradas sobre quaisquer visões, sonhos ou novas revelações que possam aparecer. (Mc 13.31)

2 – Entendemos que todas as doutrinas, idéias, projetos ou ministérios devem passar pelo crivo da Palavra de Deus, levando-se em conta sua total revelação em Cristo e no Novo Testamento do Seu sangue. (Hb 1.1-2)

3 – Repudiamos toda e qualquer tentativa de utilização do texto sagrado visando a manipulação e domínio do povo que, sinceramente, deseja seguir a Deus. (2 Pe 1.20)

4 – Cremos que a Bíblia é a Palavra de Deus e que contém TODA a revelação que Deus julgou necessária para todos os povos, em todos os tempos, não necessitando de revelações posteriores, sejam essas revelações trazidas por anjos, profetas ou quaisquer outras pessoas. (2 Tm 3.16)

5 – Que o ensino coerente das Escrituras volte a ocupar lugar de honra em nossas igrejas. Que haja integridade e fidelidade no conhecimento da Palavra tanto por parte daqueles que a estudam como, principalmente, por parte daqueles que a ensinam. (Rm 12.7; 2 Tm 2.15)

6 – Que princípios relevantes da Palavra de Deus sejam reafirmados sempre: a soberania de Deus, a suficiência da graça, o sacrifício perfeito de Cristo e Sua divindade, o fim do peso da lei, a revelação plena das Escrituras na pessoa de Cristo, etc. (At 2.42)

7 – Cremos que o mundo jaz no maligno, conforme nos garantem as Escrituras, não significando, porém, que Satanás domine este mundo, pois "do Senhor é a Terra e sua Plenitude, o mundo e os que nele habitam". (1 Jo 5.19; Sl 24.1)

8 – Cremos que a vitória de Jesus sobre Satanás foi efetivada na cruz, onde Cristo "expôs publicamente os principados e potestades à vergonha, triunfando sobre eles" e que essa vitória teve como golpe final a ressurreição, onde o último trunfo do diabo, a saber, a morte, também foi vencido. (Cl 2.15; 1 Co 15.20-26)

9 – Acreditamos que o cristão verdadeiro, uma vez liberto do império das trevas e trazido para o Reino do Filho do amor de Deus, conhecendo a verdade e liberto por ela, não necessita de sessões contínuas de libertação, pois isso seria uma afronta à Cruz de Cristo. (Cl 1.13; Jo 8.32,36)

10 – Cremos que o diabo existe, como ser espiritual, mas que está subjugado pelo poder da cruz de Cristo, onde ele, o diabo, foi vencido. Portanto, não há a necessidade de se "amarrar" todo o mal antes dos cultos, até porque o grande Vencedor se faz presente. (1 Co 15.57; Mt 18.20)

11 – Declaramos que nós, cristãos, estamos sujeitos à doenças, males físicos, problemas relativos à saúde, e que não há nenhuma obrigação da parte de Deus em curar-nos, e que isso de forma alguma altera o seu caráter de Pai amoroso e Deus fiel. (Jo 16.33; 1 Tm 5.23)

12 – Entendemos que a prosperidade financeira pode ser uma benção na vida de um cristão, mas que isso não é uma regra. Deus não tem nenhum compromisso de enriquecer e fazer prosperar um cristão. (Fp 4.10-12)

13 – Reconhecemos que somos peregrinos nesta terra. Não temos, portanto, ambições materiais de conquistar esta terra, pois "nossa pátria está nos céus, de onde aguardamos a vinda do nosso salvador, Jesus Cristo". (1 Pe 2.11)

14 – Nossas petições devem sempre sujeitar-se à vontade de Deus. "Determinar", "reivindicar", "ordenar" e outros verbos autoritários não encontram eco nas Escrituras Sagradas. (Lc 22.42)

15 – Afirmamos que a frase "Pare de sofrer", exposta em muitas igrejas, não reflete a verdade bíblica. Em toda a Palavra de Deus fica clara a idéia de que o cristão passa por sofrimentos, às vezes cruéis, mas ele nunca está sozinho em seu sofrer. (Rm 8.35-37)

16 – Reafirmamos que, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, sendo os mesmos livres de quaisquer maldições passadas, conhecidas ou não, pelo poder da cruz e do sangue de Cristo, que nos livra de todo o pecado e encerra em si mesmo toda a maldição que antes estava sobre nós. (Rm 8.1)

17 – Entendemos que a natureza criada participa das dores, angústias e conseqüências da queda do homem, e que aguarda com ardente expectativa a manifestação dos filhos de Deus. (Rm 8.19-23)

18 – Reconhecemos a suficiência e plenitude da graça de Cristo, não necessitando assim, de quaisquer sacrifícios ou barganhas para se alcançar a salvação e favores de Deus. (Ef 2.8-9)

19 – Reconhecemos também a suficiência da graça em TODOS os aspectos da vida cristã, dizendo com isso que não há nada que possamos fazer para "merecermos" a atenção de Deus. (Rm 3.23; 2 Co 12.9)

20 – Que nossos cultos sejam mais revestidos de elementos de nossa cultura. Que a brasilidade latente em nossas veias também sirva como elemento de adoração e liturgia ao nosso Deus. (1 Co 7.20)

21 – Que entendamos que vivemos num "país tropical, abençoado por Deus, e bonito por natureza". Portanto, que não seja mais "obrigatório" aos pastores e líderes o uso de trajes mais adequados ao clima frio ou extremamente formais. Que celebremos nossa tropicalidade com graça e alegria diante de Deus e dos homens. (1 Co 9.19-23)

22 – Que nossa liturgia seja leve, alegre, espontânea, vibrante, como é o povo brasileiro. Que haja brilho nos olhos daqueles que se reúnem para adorar e ouvir da Palavra e que Deus se alegre de nosso modo brasileiro de cultuá-LO. (Salmo 100)

23 – Que as igrejas entendam que Deus pode ser adorado em qualquer ritmo, e que a igreja brasileira seja despertada para a riqueza dos vários sons e ritmos brasileiros e entenda que Deus pode ser louvado através de um baião, xote, milonga, frevo, samba, etc... (Sl 150)

24 – Que retornemos ao princípio bíblico, vivido pela igreja chamada primitiva, de que "ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum." (At 4.32)

25 – Que não condenemos nenhum irmão por ter caído em pecado, ou por seu passado. Antes, seguindo a Palavra, corrijamos a ovelha ferida com espírito de brandura, guardando-nos para que não sejamos também tentados. (Gl 6.1)

26 – Que ninguém seja culpado por duvidar de algo. Que haja espaço em nosso meio para dúvidas e questionamentos. Que ninguém seja recriminado por "falta de fé". Que haja maturidade para acolher o fraco e sabedoria para ensiná-lo na Palavra. A fé vem pelo ouvir, e o ouvir da Palavra de Deus. (Rm 14.1; Rm 10.17)

27 – Que a igreja reconheça que são as portas do inferno que não prevalecerão contra ela e não a igreja que tem que se defender do "exército inimigo". Que essa consciência nos leve à prática da fé e do amor, e que isso carregue consigo o avançar do Reino de Deus sobre a terra. (Mt 16.18)

28 – Cremos na plena ação do Espírito Santo, mas reconhecemos que em muitas situações e igrejas, há enganos em torno do ensino sobre dons e abusos em suas manifestações. (Hb 13.8; 1 Co 12.1)

29 – Que nossas estatísticas sejam mais realistas e não utilizadas para, mentindo, "disputarmos" quais são as maiores igrejas; o Reino é bem maior que essas futilidades. (Lc 22.24-26)

30 – Que os neófitos sejam tratados com carinho, ensinados no caminho, e não expostos aos púlpitos e à "fama" antes de estarem amadurecidos na fé, para que não se ensoberbeçam e caiam nas ciladas do diabo. (1 Tm 3.6)

31 – Que saibamos valorizar a nossa história, certos de que homens e mulheres deram suas vidas para que o Evangelho chegasse até nós. (Hb 12.1-2)

32 – Que sejamos conhecidos não por nossas roupas ou por nossos jargões lingüísticos, mas por nossa ética e amor para com todos os homens, refletindo assim, a luz de Cristo para todos os povos. (Mt 5.16)

33 – Que arda sempre em nosso peito o desejo de ver Cristo conhecido em todas as culturas, raças, tribos, línguas e nações. Que missões seja algo sempre inerente ao próprio ser do cristão, obedecendo assim à grande comissão que Jesus nos outorgou. (Mt 28.18-20)

34 – Reconhecemos que muitas igrejas chamam de pecado aquilo que a Bíblia nunca chamou de pecado. (Lc 11.46)

35 – A participação de cristãos e pastores em entidades e sociedades secretas é perniciosa e degradante para a simplicidade e pureza do evangelho. Não entendemos como líderes que dizem servir ao Deus vivo sujeitam-se à juramentos que vão de encontro à Palavra de Deus, colocando-se em comunhão espiritual com não cristãos declarando-se irmãos, aceitando outros deuses como verdadeiros. (Lv 5.4-6,10; Ef 5.11-12; 2 Co 6.14)

36 – Rejeitamos a idéia do messianismo político, que afirma que o Brasil só será transformado quando um "justo" (que na linguagem das igrejas significa um membro de igreja evangélica) dominar sobre esta terra. O papel de transformação da sociedade, pelos princípios cristãos, cabe à Igreja e não ao Estado. O Reino de Deus não é deste mundo, e lamentamos a manipulação e ambição de alguns líderes evangélicos pelo poder terreal. (Jo 18.36)

37 – Que os púlpitos não sejam transformados em palanques eleitorais em épocas de eleição. Que nenhum pastor induza o seu rebanho a votar neste ou naquele candidato por ser de sua preferência ou interesse pessoal. Que haja liberdade de pensamento e ideologia política entre o rebanho. (Gl 1.10)

38 – Que as igrejas recusem ajuda financeira ou estrutural de políticos em épocas de campanha política a fim de zelarem pela coerência e liberdade do Evangelho. (Ez 13.19)

39 – Que os membros das igrejas cobrem esta atitude honrada de seus líderes. Caso contrário, rejeitem a recomendação perniciosa de sua liderança. (Gl 2.11)

40 – Negamos, veementemente, no âmbito político, qualquer entidade que se diga porta-voz dos evangélicos. Nós, cristãos evangélicos, somos livres em nossas ideologias políticas, não tendo nenhuma obrigação com qualquer partido político ou organização que se passe por nossos representantes. (Mt 22.21)

41 – O versículo bíblico "Feliz a nação cujo Deus é o Senhor" não deve ser interpretado sob olhares políticos como "Feliz a nação cujo presidente é evangélico" e nem utilizado para favorecer candidatos que se arroguem como cristãos. (Sl 144.15)

42 – Repugnamos veementemente os chamados "showmícios" com artistas evangélicos. Entendemos ser uma afronta ao verdadeiro sentido do louvor a participação desses músicos entoando hinos de "louvor a Deus" para angariarem votos para seus candidatos. (Ex 20.7)

43 – Cremos que o Reino também se manifesta na Igreja, mas é maior que ela. Deus não está preso às paredes de uma religião. O Espírito de Deus tem total liberdade para se manifestar onde quiser, independente de nossas vontades. (At 7.48-49)

44 – Nenhum pastor, bispo ou apóstolo (ou qualquer denominação que se dê ao líder da igreja local) é inquestionável. Tudo deve ser conferido conforme as Escrituras. Nenhum homem possui a "patente" de Deus para as suas próprias palavras. Portanto, estamos livres para, com base nas Escrituras, questionarmos qualquer palavra que não esteja de acordo com as mesmas. (At 17.11)

45 – Ninguém deve ser julgado por sua roupa, maquiagem ou estilo. As opiniões pessoais de pastores e líderes quanto ao vestuário e estilo pessoal não devem ser tomadas como Palavras de Deus e são passíveis de questionamentos. Mas que essa liberdade pessoal seja exercida como servos de Cristo, com sabedoria e equilíbrio. (Rm 14.22)

46 – Que nenhum pastor, bispo ou apóstolo se utilize do versículo bíblico "não toqueis no meu ungido" para tornarem-se inquestionáveis e isentos de responsabilidade por aquilo que falam e fazem no comando de suas igrejas. (Ez 34.2; 1 Cr 16.22)

47 – Que ninguém seja ameaçado por seus líderes de "perder a salvação" por questionarem seus métodos, palavras e interpretações. Que essas pessoas descansem na graça de Deus, cientes de que, uma vez salvas pela graça estão guardadas sob a égide do sangue do cordeiro, de cujas mãos, conforme Ele mesmo nos afirma, nenhuma ovelha escapará. (Jo 10.28-29)

48 – Que estejamos cada vez mais certos de que Deus não habita em templos feitos por mãos de homens. Que a febre de erguermos "palácios" para Deus dê lugar à simplicidade e humildade do bebê que nasce na manjedoura, e nem por isso, deixa de ser Rei do Universo. (At 7.48-50)

49 – Que nenhum movimento, modelo, ou "pacote" eclesiástico seja aceito como o ÚNICO vindo de Deus, e nem recebido com a "solução" para o crescimento da igreja. Cremos que é Deus quem dá o crescimento natural a uma igreja que se coloca sob Sua Palavra e autoridade. (At 2.47; 1 Co 3.6)

50 – Que nenhum grupo religioso julgue-se superior a outro pelo NÚMERO de pessoas que aderem ao seu "mover". Nem sempre crescimento numérico representa crescimento sadio. (Gl 6.3)

51 – Que a idolatria evangélica para com pastores, apóstolos, bispos, cantores, seja banida de nosso meio como um câncer é extirpado para haver cura do corpo. Que a existência de fã-clubes e a "tietagem" evangélica sejam vistos como uma afronta e como tentativa de se dividir a glória de Deus com outras pessoas. (Is 42.8; At 10.25-26)

52 – Reafirmamos que o véu que fazia separação entre o povo e o lugar santo, foi rasgado de alto a baixo quando da morte de Cristo. TODO cristão tem livre acesso a Deus pelo sangue de Cristo, não necessitando da mediação de quem quer que seja. (Hb 4.16; 2 Tm 2.15)

53 – Que os pastores, bispos e apóstolos arrependam-se de utilizarem-se de argumentos fúteis para justificarem suas vidas regaladas. Carro importado do ano, casa nova e prosperidade financeira não devem servir de parâmetros para saber se um ministério é ou não abençoado. Que todos nós aprendamos mais da simplicidade de Cristo. (Mt 8.20)

54 – Não reconhecemos a autoridade de bispos, apóstolos e líderes que profetizam a respeito de datas para a volta de Cristo. Ninguém tem autoridade para falar, em nome de Deus, sobre este assunto. (Mc 13.32)

55 – "O profeta que tiver um sonho, conte-o como sonho. Mas aquele a quem for dado a Palavra de Deus, que pregue a Palavra de Deus." Que sejamos sábios para não misturar as coisas. (Jr 23.28)

56 – Que o ministério pastoral seja reconhecidamente um dom, e não um título a ser perseguido. Que aqueles que exercem o ministério, sejam homens ou mulheres, o exerçam segundo suas forças, com todo o seu coração e entendimento, buscando sempre servir a Deus e aos homens, sendo realmente ministros de Deus. (1 Tm 3.1; Rm 12.7)

57 – Que os cânticos e hinos sejam mais centralizados na pessoa de Deus no que na primeira pessoa do singular (EU). (Jo 3.30)

58 – Que ninguém seja obrigado a levantar as mãos, fechar os olhos, dizer alguma coisa para o irmão do lado, pular, dançar... mas que haja liberdade no louvor tanto para fazer essas coisas como para não fazer. E que ninguém seja julgado por isso. (2 Co 3.17)

59 – Que as nossas crianças vivam como crianças e não sejam obrigadas a se tornarem como nós, adultos, violentando a sua infância e fazendo com que se tornem "estrelas" do evangelho ou mesmo "produtos" a serem utilizados por aduladores e pastores que visam, antes de tudo, lotarem seus templos com "atrações" curiosas, como "a menor pregadora do mundo", etc... (Lc 18.16; 1 Tm 3.6)

60 – Que as "Marchas para Jesus" sejam realmente para Jesus, e não para promover igrejas que estão sob suspeita e líderes questionáveis. Muito menos para promover políticos e aproveitadores desses mega-eventos evangélicos. (1 Co 10.31)

61 – Nenhuma igreja ou instituição se julgue detentora da salvação. Cristo está acima de toda religião e de toda instituição religiosa. O Espírito é livre e sopra onde quer. Até mesmo fora dos arraiais "cristãos". (At 4.12; Jo 3.8)

62 – Que as livrarias ditas "cristãs" sejam realmente cristãs e não ajudem a proliferar literaturas que deturpam a palavra de Deus e que valorizam mais a experiência de algumas pessoas do que o verdadeiro ensino da Palavra. (Mq 3.11; Gl 1.8-9)

63 – Cremos que "declarações mágicas" como "O Brasil é do Senhor Jesus" e outras equivalentes não surtem efeito algum nas regiões celestiais e servem como fator alienante e fuga das responsabilidades sociais e evangelísticas realmente eficazes na propagação do Evangelho. (Tg 2.15-16)

64 – Consideramos uma afronta ao Evangelho as novas unções como "unção dos 4 seres viventes", "unção do riso", etc... pois além de não possuírem NENHUM respaldo bíblico ainda expõem as pessoas a situações degradantes e constrangedoras. (2 Tm 4.1-4)

65 – Cremos, firmemente, que todo cristão genuíno, nascido de novo, já possui a unção que vem de Deus, não necessitando de "novas unções". (1 Jo 2.20,27)

66 – Lamentamos a transformação do culto público a Deus em momentos de puro entretenimento "gospel", com a presença de animadores de auditório e pastores que, vazios da Palavra, enchem o povo de bobagens e frases de efeito que nada tem a ver com a simplicidade e profundidade do Evangelho de Cristo. (Rm 12.1-2)

67 – É necessário uma leitura equilibrada do livro de Cantares de Salomão. A poesia, muitas vezes erótica e sensual do livro tem sido de forma abusiva e descontextualizada atribuída a Cristo e à igreja. (Ct 1.1)

68 – Não consideramos qualquer instrumento, seja de que origem for, mais santo que outros. Instrumentos judaicos, como o shophar, não têm poderes sobrenaturais e nem são os instrumentos "preferidos" de Deus. Muitas igrejas têm feito do shophar "O" instrumento, dizendo que é ordem de Deus que se toque o shophar para convocar o povo à guerra. Repugnamos essa idéia e reafirmamos a soberania de Deus sobre todos os instrumentos musicais. (Sl 150)

69 – Rejeitamos a idéia de que Deus tem levantado o Brasil como o novo "Israel" para abençoar todos os povos. Essa idéia surge de mentes centralizadoras e corações desejosos de serem o centro da voz de Deus na Terra. O SENHOR reina sobre toda a Terra e ama a todos os povos com Seu grande amor incondicional. (Jo 3.16)

70 – Lamentamos o estímulo e o uso de "amuletos" cristãos como "água do rio Jordão", "areia de Israel" e outros que transformam a fé cristã numa fé animista e necessitada de "catalisadores" do poder de Deus. (Hb 11.1)

71 – Que o profeta que "profetizar" algo e isso não se cumprir, seja reconhecido como falso profeta, segundo as Escrituras. (Ez 13.9; Dt 18.22)

72 – Rejeitamos as músicas que consistem de repetições infindáveis, a fim de levar o povo ao êxtase induzido, fragilizando a mente de receber a Palavra e prestar a Deus culto racional, conforme as Escrituras. (Rm 12.1-2; 1 Co 14.15)

73 – Deixemos de lado a busca desenfreada de títulos e funções do Antigo Testamento, como levitas, gaditas, etc... Tudo se fez novo em Cristo Jesus, onde TODOS nós fomos feitos geração eleita, sacerdócio real, nação santa e povo adquirido. (1 Pe 2.9)

74 – Que então os ministros e dirigentes de música sejam simplesmente ministros e dirigentes de música, exercendo talentos e dons que Deus livremente distribuiu em Sua igreja, não criando uma "classe superior" de "levitas", até porque os mesmos já não existem entre nós. (Rm 12.3-5)

75 – Que haja consciência sobre aquilo que se canta. Que sejamos fiéis à Palavra quando diz "cantarei com o meu espírito, mas também cantarei com meu entendimento". (1 Co 14.15)

76 – Não consideramos que "há poder em nossas palavras" como querem os adeptos dessa teologia da "confissão positiva". Deus não está sujeito ao que falamos e não serão nossas palavras capazes de trazer maldição ou benção sobre quem quer que seja, se essa não for, antes de tudo, a vontade expressa de Deus através de nossas bocas. (Gl 1.6-7)

77 – Rejeitamos a onda de "atos proféticos" que, sem base e autoridade nas Escrituras, confundem e desvirtuam o sentido da Palavra, ainda comprometendo seriamente a sanidade e a coerência das pessoas envolvidas. (Mt 7.22-23)

78 - Apresentar uma noiva pura e gloriosa, adequadamente vestida para o seu noivo, não consiste em "restaurar a adoração" ou apresentar a Deus uma falsa santidade, mas em fazer as obras que Jesus fez — cuidar dos enfermos e quebrantados de coração, pregar o evangelho aos humildes, e viver a cada respirar a vontade de Deus revelada na Sua palavra — deixando para trás o pecado, deixando para trás o velho homem, e nos revestindo no novo (Tg 1.27)

79 – Discordamos dos "restauradores das coisas perdidas" por não perceberem a mão de Deus na história, sempre mantendo um remanescente fiel à Palavra e ao Testemunho. Dizer que Deus está "restaurando a adoração", "restaurando o ministério profético", etc... é desprezar o sangue dos mártires, o testemunho dos fiéis e a adoração prestada a Deus durante todos esses séculos. (Hb 12.1-2)

80 – Lamentamos a transformação da fé cristã em shows e mega-eventos que somos obrigados a assistir nas TVs, onde a figura humana e as ênfases nos "milagres" e produtos da fé sobrepujam as Escrituras e a pregação sadia da Palavra de Deus. (Jo 3.30)

81 – Deus não nos chamou para sermos "leões que rugem", mas fomos considerados como ovelhas levadas ao matadouro, por amor a Deus. Mas ainda assim, somos mais que vencedores por Aquele que nos amou. (Lc 10.3; Rm 8.36)

82 – Entendemos como abusivas as cobranças de "cachês" para "testemunhos". Que fique bem claro que aquilo que é recebido de graça, deve ser dado de graça, pois nos cabe a obrigação de pregar o evangelho. (Mt 10.8)

83 – Que movimentos como "dança profética", "louvor profético" e outros "moveres proféticos" sejam analisados sinceramente segundo as Escrituras e, por conseqüência, deixados de lado pelo povo que se chama pelo nome do Senhor. (2 Tm 4.3-4)

84 – Que a cruz de Cristo, e não o seu trono, sejam o centro de nossa pregação! (1 Co 2.2)

85 – Reafirmamos que, quaisquer que sejam as ofertas e dízimos, que sejam entregues por pura gratidão, e com alegria. Que nunca sejam dados por obrigação e nem entregues como troca de bênçãos para com Deus. Muito menos sejam dados como fruto do medo do castigo de Deus ou de seus líderes. Deus ama ao que dá com alegria! (2 Co 9.7)

86 – Que a igreja volte-se para os problemas sociais à sua volta, reconheça sua passividade e volte à prática das boas obras, não como fator para a salvação, mas como reflexo da graça que se manifesta de forma visível e encarnada. "Pois tive fome... e me destes de comer..." (Mt 25.31-46; Tg 2.14-18)

87 – Cremos, conforme a Palavra que há UM SÓ MEDIADOR entre Deus e os homens – Jesus Cristo. Nenhuma igreja local, ou seu líder, podem arrogar para si o direito de mediar a comunhão dos homens e Deus. (1 Tm 2.5)

88 – Lamentamos o comércio que em que se transformou a música evangélica brasileira. Infelizmente impera, por exemplo, a "máfia" das rádios evangélicas, que só tocam os artistas de suas respectivas gravadoras, alienam o nosso povo através da massificação dos "louvores" comerciais, e não dão espaço para tanta gente boa que há em nosso meio, com compromisso de qualidade musical e conteúdo poético, lingüístico e, principalmente, bíblico. (Mc 11.15-17)

89 – Que os pastores ajudem a diminuir a indústria de testemunhos e a "máfia" das gravadoras evangélicas. Que valorizem a simples pregação da Palavra ao invés do espetáculo "gospel" a fim de terem igrejas "lotadas" para ouvirem as "atrações" da fé. (1 Pe 5.2)

90 – Que sejamos livres para "examinarmos tudo e retermos o que é bom". (1 Ts 5.21)

91 – Somente as Escrituras. (Jo 14.21;17.17)

92 – Somente a Graça. (Ef 2.8-9)

93 – Somente a Fé. (Rm 1.17)

94 – Somente Cristo. (At 17.28)

95 – Glória somente a Deus (Jd 24-25)

Copyright © Outubro 2008 José Barbosa Junior

Segunda-feira, Outubro 27, 2008

O discurso de Guaicaipuro Cuauhtémoc.

Um discurso feito pelo embaixador Guaicaipuro Cuauhtémoc, de descendência indígena, defendendo o pagamento da dívida externa do seu país, o México, embasbacou os principais chefes de Estado da Comunidade Européia. A conferência dos chefes de Estado da União Européia, Mercosul e Caribe, em maio de 2002 em Madri, viveu um momento revelador e surpreendente: os chefes de Estado europeus ouviram perplexos e calados um discurso irônico, cáustico e de exatidão histórica que lhes fez Guaicaipuro Cuauhtémoc. Eis o discurso:

"Aqui estou eu, Guaicaipuro Cuauhtémoc, descendente dos que povoaram a América há 40 mil anos, para encontrar os que a ‘descobriram’ só há 500 anos. O irmão europeu da aduana me pediu um papel escrito, um visto, para poder descobrir os que me descobriram. O irmão financista europeu me pede o pagamento - ao meu país -, com juros, de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei que me vendesse. Outro irmão europeu me explica que toda dívida se paga com juros, mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento. Eu também posso reclamar pagamento e juros.

Consta no ‘Arquivo da Cia. das Índias Ocidentais’ que, somente entre os anos 1503 e 1660, chegaram a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América. Teria sido isso um saque? Não acredito, porque seria pensar que os irmãos cristãos faltaram ao sétimo mandamento! Teria sido espoliação? Guarda-me Tanatzin de me convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue do irmão. Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a arrancada do capitalismo e a atual civilização européia se devem à inundação de metais preciosos tirados das Américas.

Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata foram o primeiro de tantos empréstimos amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da Europa. O contrário disso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a devolução, mas indenização por perdas e danos.

Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva. Tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano ‘MARSHALL MONTEZUMA’, para garantir a reconstrução da Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra, da poligamia, e de outras conquistas da civilização.

Para celebrar o quinto centenário desse empréstimo, podemos perguntar: Os irmãos europeus fizeram uso racional responsável ou pelo menos produtivo desses fundos? Não. No aspecto estratégico, dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em navios invencíveis, em terceiros reichs e várias formas de extermínio mútuo. No aspecto financeiro, foram incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de amortizar o capital e seus juros quanto independerem das rendas líquidas, das matérias-primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo. Este quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar e nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão generosamente, temos demorado todos estes séculos em cobrar.

Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus, as mesmas vis e sanguinárias taxas de 20% e até 30% de juros ao ano que os irmãos europeus cobram dos povos do Terceiro Mundo. Nos limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de um módico juro de 10%, acumulado apenas durante os últimos 300 anos, com 200 anos de graça.

Sobre esta base e aplicando a fórmula européia de juros compostos, informamos aos descobridores que eles nos devem 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambas as cifras elevadas à potência de 300, isso quer dizer um número para cuja expressão total será necessário expandir o planeta Terra. Muito peso em ouro e prata... quanto pesariam se calculados em sangue? Admitir que a Europa, em meio milênio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para esses módicos juros, seria como admitir seu absoluto fracasso financeiro e a demência e irracionalidade dos conceitos capitalistas. Tais questões metafísicas, desde já, não inquietam a nós, índios da América. Porém, exigimos assinatura de uma carta de intenções que enquadre os povos devedores do Velho Continente e que os obriguem a cumpri-la, sob pena de uma privatização ou conversão da Europa, de forma que lhes permitam entregar suas terras, como primeira prestação de dívida histórica..."

Quando terminou seu discurso diante dos chefes de Estado da Comunidade Européia, o Cacique Guaicaípuro Guatemoc não sabia que estava expondo uma tese de Direito Internacional para determinar a Verdadeira Dívida Externa. Agora resta que algum Governo Latino-Americano tenha a dignidade e coragem suficiente para impor seus direitos perante os Tribunais Internacionais. Os europeus teriam que pagar por toda a espoliação que aplicaram aos povos que aqui habitavam, com juros civilizados.

Publicado no Jornal do Comércio - Recife/PE


Viver é bom...


Há momentos em que a vida nos vem tão avassaladora, dando a impressão de nos ter metido num tunel escuro, profundo, assombroso e indefínivel. Dentro dele, na escuridão, a gente perde a clareza da visão, e a mente se permite congelar.

Mas há, sim, momentos que são pra sempre. Eles "colam" na alma com tal firmeza, intensidade e durabilidade que nem os doces, nem os sais, nem os ácidos, nem a
escuridão da vida possuem o poder de removê-los ou deformá-los. Quem não os possui? Eu os tenho de sobra.

São momentos que geram memórias que vão muito além das simples lembranças. Formatam o dia-a-dia com irresistível força, com a deliciosa subversão do afeto impregnado nas paredes do coraç
ão. Destes momentos que são pra sempre e que trazem saudade da boa é que colho a certeza de que viver é bom e amar vale a pena.

Mas o melhor de todos os momentos é aquele através do qual se pode enxergar o fato de que o Eterno esteve e está com a gente!

Luís Wesley

Marcadores:

Domingo, Outubro 12, 2008

Reflexão sobre o meu “Auto-Exílio Eclesiástico”.


Há mais de um ano (julho de 2007) postei uma pequena nota neste blog, falando de minha transferência para a United Methodist Church e do que considero ser um auto-exílio eclesiástico. As reações foram intensas e interessantes, muitas de solidariedade e cheias de senso de justiça pela decisão tomada, e algumas poucas de certo espanto por eu aplicar a esta transferência o sentido de exílio. Não mudei a linguagem e considero ínfima a possibilidade de redefinir esta percepção. Contudo, já que também considero ser responsável de minha parte refletir sobre este auto-exílio, há algum tempo passei a fazer uma leitura bem mais positiva da experiência.

Foi re-lendo Paulo Freire que consegui substanciar esta nova leitura. “Para mim, o exílio foi profundamente pedagógico”, disse Freire, e completou: “Quando, exilado, tomei distância do Brasil, comecei a compreender-me e a compreendê-lo melhor”. Guardadas as enormes proporções de todos os aspectos de diferença entre o grande Paulo Freire e o insignificante Luís Wesley, vejo paralelos e diferenças entre a experiência dele e a minha.

Uma diferença básica é que Freire foi tacitamente “sentenciado” pela ditadura militar a se retirar do Brasil e proibido de entrar na Espanha e em outros países por conta de seu discurso revolucionário de uma pedagogia que conscientiza e resgata pessoas da alienação para formatarem seus próprios caminhos de transformação social, enquanto eu, como bem defini, decidi experimentar um auto-exílio eclesiástico por conta do discurso das relações ministeriais da igreja, mas nunca fui proibido de voltar ao Brasil ou de, quando solicitado, dar minha contribuição para a igreja brasileira.

Uma similaridade, contudo, está na pedagogia que o exílio faz gerar na gente: “comecei a compreender-me e a compreendê-lo melhor”, observou Freire. Olho para a minha própria experiência e vejo a mesma coisa. Foi quando me distanciei do que me consternava no Brasil que comecei a compreender melhor a minha própria condição enquanto pessoa e, é claro, enquanto ministro do evangelho. Num primeiro momento, permiti enxergar-me num espelho imaginário da realidade, e o que vi me trouxe sentimentos ambígüos. Vi minhas virtudes e minhas misérias mescladas num só mosaico de cores; contemplei minha independência, bem como minha flagrante vulnerabilidade; curti minha liberdade, e me deixei doer na minha distância; apreciei meu crescimento, e lamentei algumas desconexões decorrentes justamente do fato de ter crescido; celebrei minhas conquistas, e chorei meus fracassos.

Surgiu, então, uma consciência crítica e libertadora. A consciência crítica nasce da possibilidade de a gente avaliar o que somos e realizamos até o presente, reconhecer a real contribuição que se deu para o bem comum e, desta forma, fomentar um futuro mais sintonizado com o que se é, de onde se veio e para onde se pode ir. Na verdade, sei pouco ou quase nada sobre meu futuro, mas tenho absoluta consciência de onde vim e a Quem pertenço. A libertação vem, por exemplo, quando se percebe, na prática, que eu sou Protestante-Metodista, mas Deus não é; que sou evangelical de missão integral, mas Deus não o é; que sou um brasileiro morando na América, mas Deus não é nem brasileiro, nem americano, nem israelita... Deus é tudo em todos.

Neste meu exílio também passei a compreender melhor o Brasil e a Igreja. Há uma certa verdade prática no ditado “Quem vê de longe, vê melhor”, e esta se aplica ao meu próprio processo de vida. “Foi exatamente ficando longe [do Brasil], preocupado com ele, que me perguntei sobre ele”, disse o educador dos educadores numa entrevista ao repórter Ricardo Kotscho. E, como experimentou Freire, me pergunto sobre o que o país e a Igreja fizeram com parte da minha geração e da geração mais jovem, e o que será das gerações que hoje abraçam formas mais sutís de alienação.

Na época da ditadura militar (1964-1985), o sistema suprimia a consciência crítica e a comunicação pública desta. Hoje, num país de liberdades democráticas que busca exorcizar de si mesmo o caudilhismo e o “Sabe com quem você está falando?”, a religião se tornou um dos maiores e mais perigosos redutos de formação de pequenos déspotas tupiniquins. Sobram exemplos de reinosinhos particulares, de troninhos de plástico, de ditadurasinhas pretensamente legitimadas por oficialidades institucionais e/ou por discursos teológicos alegadamente bíblicos, mas em nada consistentes com o evangelho puro e simples do Jesus de Nazaré. Este assunto, entretanto, mereceria um outro longo e delicado “post” neste blog.

Ao assumir um contexto provisório, embora, no meu caso, provisório-de-longo-prazo, passei a ter uma melhor compreensão do que fiz, além de “me preparar para continuar fazendo algo fora do meu contexto e também me preparar para uma eventual volta ao Brasil”, como definiu Paulo Freire. Afinal, enquanto exilado, a gente tem que se inserir num novo contexto sócio-político e religioso, “fazendo algo em que você acredite, (...) algo através de que você se sinta oferecendo uma contribuição, por mínima que seja, a algum outro povo.”

O caminho, então, passou a ser o de negar-me o direito de fazer juízos de valor (i.e., julgar sobre o que possa ser correto ou incorreto baseado apenas no meu ponto de vista, classificando, somente desta perspectiva pessoal, o que seja bom ou mau, desejável ou indesejável) para dedicar e focar minhas energias exclusivamente no labor missiológico (por si mesmo dialético e multi-disciplinar). Isto me abriu avenidas para aprender ainda mais a viver uma virtude fundamental para qualquer pessoa, qualquer povo, qualquer igreja, qualquer espécie de relação: a tolerância.

Somente pelo caminho de uma tolerância responsável, graciosa, generosa, compassiva, misericordiosa e redentora é que se supera preconceitos e negatividades, e se aprende a “conviver com o diferente para, no fundo, brigar melhor com o antagônico” (conf. Freire, itálicos meus). No meu caso, não me refiro somente a preconceitos culturais, mas também a diferenças relacionais de caráter, personalidade, temperamento, postura e escolha.

Neste contexto, o exílio também me ajuda a redescobrir caminhos que superam obstáculos pessoais, institucionais e culturais. E isto só foi e só é possível quando me convido de novo e de novo a olhar no espelho da graça do Eterno e em nada colocar a minha fé senão em Cristo, e Cristo tão somente.

______________________
As frases de Paulo Freire citadas aqui estão em Essa escola chamada vida: depoimento [de Paulo Freire e Frei Betto] ao repórter Ricardo Kotscho. São Paulo, SP: Editora Ática, quinta edição, 1985, p. 56.

Copyright © Outubro 2008 Luís Wesley de Souza

Marcadores: ,

Sábado, Setembro 20, 2008

Fotos que "falam" o que a gaga-história não diz.

"Out of the blue", para minha absoluta e agradável surpresa, recebi ontem duas fotos enviadas pelo Rev. Edinei de Souza (capelão do Hospital Evangélico de Curitiba) que, juntamente com a Renilda, examinava o acervo de fotos do Bispo Wilbur e dona Grace e encontrou, segundo ele, algumas "relíquias". Segue a minha grata resposta ao Edinei.

Caro Edinei,
Paz e bem!

Que surpresa inspiradora e agradabilíssima, meu amigo! Conhecia as fotos, mas não possuía cópias destas. Permita-me, pela necessidade de se colocar um olhar mais desdobradamente extenso e profundo nelas, aproveitar para visitar outras fotos que ainda dizem o que a história tartamuda não diz.

A primeira, que mostra meus pais, Rev. Samuel & Edi, trata-se de uma das fotos que tiraram logo após o casamento. Ela, órfã de pai quando ainda "meninica", chegou a mendigar com a mãe pelas ruas de São Paulo, para depois ser, por longo tempo, criada e educada pelos padrinhos e pelo casal evangelista metodista Joel & Dasdores Medeiros. Terminou o primário e o ginásio somente depois de se casar e ter os quatro filhos. Organista, olhos azuis suaves, olhar meigo, passos curtos e rápidos, mãos hábeis, coração e hábitos simples, ela possuía uma espiritualidade solidária, apaixonada por Cristo e pelas pessoas. Costumava organizar festas e peças de Natal com presépios vivos, cujos personagens, para a consternação dos racistas igrejeiros, eram negros. Isto mesmo, em vários presépios da D. Edi, o menino Jesus, a Maria, o José, os pastores e os magos eram da raça negra e, por vezes, representados por crianças abandonadas em orfanatos. Ela morreu em conseqüência de um fungo que adquiriu enquanto trabalhava, como voluntária, com crianças de rua.

Ele, descendente de uma escrava que se casou com um português, filho de sitiantes e órfão de mãe desde aos oito anos de idade, estudou no Colégio Londrinense sob o cuidado do jovem médico João Henrique Stephen e esposa, e sob a tutoria do Rev. Dr. Zaqueu de Mello (legendário pastor presbiteriano que, mais tarde, tornou-se deputado federal pelo Paraná), a quem serviu em tudo e por quem foi entusiasticamente encaminhado para um seminário presbiteriano.

Neste seminário, um professor "ameba" o declarou, intelectualmente, incompetente e, organicamente (saúde), desqualificado para ser ministro protestante e sugeriu que, ao invés disso, fosse vender frutas na Praça da Sé, São Paulo. De coração simples e quase sempre ingênuo, fez o que o professor sugeriu. Contudo, numa certa noite, sonhou que alguém entrou em seu quarto de pensão, acendeu a lâmpada de soquete borboleta pendurada no centro do quarto e disse: "Samuel, não foi pra isso que Eu te chamei!" Em sobressalto, ele acordou, notou a porta aberta e a luz acesa, correu para a praça, vendeu a banca de frutas (a foto acima é apenas ilustração não-verídica) e foi procurar um homem de quem ouvira falar que era bondoso e acolhedor: Bispo Isaías Sucasas.

O casal Sucasas o acolheu em casa por vários meses, cuidou de sua saúde, ensinou-lhe o "português urbano", despertou nele o gosto pela leitura de literatura clássica e eclética e, depois, o encaminhou para a Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, onde foi recebido sob uma condição: seria responsável por lavar os banheiros, desentupir latrinas e manilhas e limpar as fossas da instituição. Nunca jamais fora chamado de vagabundo até os 80 anos de idade... mas esta é uma outra história que sequer merece ser contada.

Estes dois aí na primeira foto são responsáveis por nada menos que (1) minha formação e identidade na fé cristã, por (2) minha experiência de arrependimento e conversão pelo poder redentor e regenerador do Jesus Cristo de Nazaré crucificado por meus pecados, por (3) minha consciência de continuidade de avanço nos estudos, e por (4) minha iniciação na experiência internacional. Esta carta seria extensa demais -- daria um livro! -- se eu narrasse tudo o que quero dizer com isso. Minha mãe foi minha primeira discipuladora, da época em que morávamos em Jericó (1959-1964), numa Igreja Metodista plantada numa colina das montanhas da Serra do Mar, na região do Vale do Paraíba, onde vi meu pai esconder, por vários dias, líderes da Confederacão de Jovens da Igreja Metodista e da Federação de Jovens da Terceira Região Eclesiástica. Meu pai construiu em mim a cultura da dedicação exclusiva ao Reino, ainda que tivesse que correr os riscos de dar cobertura a perseguidos políticos.

Numa certa ocasião, vi meu pai prender um bandido fugitivo no escritório pastoral da Igreja de Jericó, orar pela conversão dele e, no dia seguinte, convencê-lo de se entregar à polícia para, daí, levá-lo no lombo de uma mula para Cunha, a 18 km do sertão onde morávamos. N'outra ocasião, ouvi minha mãe contar sobre meu pai que, montado na mesma mula, enfrentou gente armada na mesmíssima estrada para Cunha, porque ele resolvera, após várias pregações e muita advertência, denunciá-los ao poder público por zoofilia. Com a coragem de quem é homem-macho e a ousadia de quem é homem-de-Deus, mesmo sob ameaça à mão armada, o Rev. Samuel passou cavalgando sem titubear por meio deles dizendo que era "isto mesmo que iria fazer, quisessem ou não, para o bem deles próprios, de suas famílias, dos animais e da sociedade." Isso tudo no início dos anos 60 e no Vale do Paraíba, onde e quando uma denúncia dessas poderia significar-lhe a morte. É mole?

Foi idéia dele colocar, em honra ao fundador e mentor do movimento metodista, o nome "Wesley" na seqüência dos primeiros nomes de todos os filhos, coisa que se repetiu no que tange aos nomes dos sobrinhos e netos e, ao que parece, dos bisnetos.

Dona Grace Smith costumava colecionar fotos dos pastores e esposas. Minha mãe deve tê-la entregue à Dona Grace assim que a conheceu no Concílio Geral (Rio, 1965) que elegeu o Rev. Wilbur K. Smith como bispo da recém-criada Sexta Região Eclesiástica (Paraná e Santa Catarina), para a qual meu pai se transferiu, logo de início, sendo nomeado, imediatamente, para a linda Porto União, SC.

Foi lá que, ainda menino, tive o privilégio e a honra de conhecer alguns dos excelentes representantes dos "anos rebeldes", gente que não abraçava os comprometimentos ideológicos e políticos de certos representantes da Igreja Metodista no que tangia ao estado vigente criado pelo golpe militar de 1964 (que instituiu a ditadura): Herman Oberdick, Günter Bart e Nelson Tomasi. O Herman Oberdick, cujos pais moravam em Porto União/União da Vitória, vinha em casa para conversar com meu pai e, enquanto isso, fazia pandorgas pra mim na varanda da casa pastoral. Eu ouvia todas as conversas, e sabia, por esta via, das crises na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, e do brutal e inconcebível fechamento desta. Depois do Porto, fomos para a acolhedora Santo Antônio da Platina, PR.

Quanto à outra foto que você me enviou (a que está à esquerda), com quase toda a família (neste caso aqui, com exceção da Léa, a filha mais velha, que tinha se casado havia pouco e que, se não me falha a memória, estava em lua-de-mel), foi tirada pelo fotógrafo profissional platinense, “Seo” Tanko, na sala da primeira casa pastoral da Igreja Metodista de Santo Antônio da Platina, PR, às vésperas da nossa partida para o campo missionário do Equador. Nesta foto, eu estava com 15,5 anos, a Leila (à minha esquerda) devia estar com, aproximadamente, 12, e a Lêda (em frente aos nossos pais) com 9, se não me engano. Note a prateleira do meio, feita por meu pai em meio aos assovios, ao estilo "anos dourados".

A família missionária fora cedida pela Sexta Região, enviada pela Igreja Metodista do Brasil, comissionada pelo CIEMAL (Consejo de Iglesias Evangelicas Metodistas de America Latina), e sustentada pela GBGM-UMC (General Board of Global Ministries of the United Methodist Church, U.S.A.), sob a supervisão de um bispo que é quase uma lenda: Sante Uberto Barbieri.

Filho de “pais anarquistas italianos, amantes da liberdade e lutadores pela justiça” (metodistaonline.com), o Bispo Barbieri era órfão de nacionalidade, razão pela qual se definia como “um cidadão do mundo”. Falava 8 línguas até quando o conheci. Por aqueles que o conheciam e o admiravam, ele era tido como “Cidadão do Mundo & Cidadão do Reino”. Grande parte de sua vida foi vivida no Brasil, e, a partir dos 19 anos, dedicada à Igreja Metodista. Entretanto, após sofrer as agruras perpetradas pela politicagem eclesiástica do baixo clero metodista da época, foi-se embora para servir o Reino de Deus no Uruguai e na Argentina, onde se tornou bispo da IM.

O Bispo Barbieri -- de vida simples e marcante sabedoria acessível, de impressionante conhecimento geral e espiritualidade cristocêntrica, de extensa experiência e percepções globais -- possuia uma visão integral do evangelho e da missão. Ele formatou minha resposta ao chamado ministerial e deixou, na minha memória e cosmovisão cristãs, as mais doces inspirações que um bispo seria capaz de transferir para um adolescente extremamente tímido, que vivia longe de seu país e que, no entanto, já se entendia engajado em experiências transculturais e apaixonado pelo mundo. Por exemplo, foi dele que ouvi, pela primeiríssima vez na vida, expressões como: "O evangelho é para todos os seres humanos e para o ser humano como um todo" e "Missão global e holística". Lembro-me de ter-lhe perguntado o que significava a palavra "holística", e, enquanto caminhávamos lentamente para comprar bananas na feira-livre de Santo Domingo de los Colorados (ele amava banana nanica!), ouví-lo responder com a paciência e com a simplicidade de um vovô dotado de intuição pedagógica que enche sua resposta de exemplos e histórias de vida.

Meus pais e irmãs permaneceriam por alguns anos no Equador e, depois, seguiriam para a Colômbia, onde o Rev. Samuel se tornaria Superintendente Geral (o equivalente a bispo) da Igreja Metodista colombiana. O “nosso” Bispo Wilbur K. Smith, juntamente com a D. Grace (ambos Asburyanos), foi o único bispo metodista brasileiro a visitar a família missionária. Muito antes disso, nos anos 60 e 70, Dona Grace foi responsável por encorajar minha mãe a continuar estudos e se tornar normalista, alfabetizadora e professora. O Bispo Wilbur costumava nos contar sobre o impressionante avivamento de 100 dias ininterruptos ocorrido no campus do Asbury College e Asbury Theological Seminary em 1970. (Uma série de ducumentários e testemunhos estão disponíveis no YouTube.Com). "Foi como se os céus se soltassem a partir de um culto das 10 da manhã do Asbury College", dizia o Bispo Wilbur, repetindo o slogan comumente usado até hoje para descrever o acontecido, o que plantou em mim uma semente que me faria, mais tarde, tornar-me um Asburyano também.

Não segui com meus pais e irmãs para a Colômbia. Voltei para o Brasil para continuar meus estudos, completar o “colegial” no Colégio Barddal, em Curitiba, onde morava no sótão da casa do Rev. Rozalino Domingos (hoje Bispo Emérito) (pena não ter uma foto virtual dele para também colocá-la aqui).

Tornei-me membro da Igreja Metodista Central de Curitiba (1986), onde conheceria aquele que se tornou o meu maior e melhor amigo, discipulador e mentor: Douglas R. Spurlock, um genuíno companheiro na caminhada, do tipo "amigo mais chegado do que um irmão" (Provérbios 18:24b) e que se transformam em "coisa (sic) pra se guardar debaixo de sete-chaves dentro do coração" (Milton Nascimento). Pena não ter uma foto virtual do Douglas & Joyce comigo aqui. Quando o conheci, ele era missionário do SEPAL (Serviço de Evangelização Para a América latina). Juntos, fundamos a SETE (Sociedade de Estudantes de Teologia Evangélica) e, através desta, conheci, convivi (ocasionalmente) e aprendi muitíssimo do Dr. Russell Shedd, expositor bíblico e escritor. Mais tarde, nos anos 90, juntamente com a esposa Joyce e os seus irmãos, Douglas Spurlock criou uma fundação que me sustentou durante meus estudos na University of Kentucky (1996) e na E. Stanley Jones School of World Mission & Evangelism of Asbury Teological Seminary (1997-2001) e, depois, como professor e co-fundador da Faculdade Teológica Sul Americana (2001-2004).

Retomando, de Curitiba segui para Maringá em 78, enviado pelo Bispo Wilbur como o primeiro aluno “pré-teológico” da IM. Fui uma espécie de cobaia, é claro, mas foi uma das melhores coisas que me aconteceram na minha formação! Morei com o Rev. Valdir Peres Marins e Dona Elda, com quem aprendi a virtude de ver o Reino além e apesar da igreja. Eles me apresentaram para gente muito querida, dentre eles o Pr. Paulo César Bornelli, dentista e ex-pastor presbiteriano renovado, que me influenciaria em minha percepção de como se pode e se deve "fazer tendas" enquanto se serve a Deus no ministério da igreja. Bornelli também me ensinou a ver a Deus como Pai e a entender melhor o que significa ser discipulo do Cristo da Galiléia.


Depois, fui para a Faculdade de Teologia em Rudge Ramos, São Bernardo do Campo, SP. De lá fui nomeado pelo Bispo Richard dos Santos Canfield para três igrejas: Apucarana, Arapongas e Jaguapitã. Deixei amigos eternos em Apucarana. Recebi depois novas nomeações: Florianópolis, Central de Londrina e Santo Antônio da Platina, onde passaria um tempo delicioso de proximidade com meus pais.

De Santo Antônio fui para Niterói por três bons anos (1993-1995) para trabalhar como Diretor Executivo Nacional da AEVB (Associação Evangélica Brasileira), na época presidida pelo Rev. Caio Fábio de D'Araújo Filho que, além de me ter convidado e dado o privilégio de aprender e trabalhar pessoalmente com ele, também abriu as portas do coração. Com extrema e inesquecível afabilidade, valor e respeito, o Caio pavimentou avenidas já construídas em mim para a vida e o mundo cristão brasileiro e internacional, justamente numa época em que eu ainda me submetia a intenso acompanhamento oncológico e sequer sabia se viveria o suficiente para ver meus flhos crescerem e se tornarem adultos. Foi por causa do Caio que ouvi falar intensamente do Dr. Leighton Ford, cujo ministério bancava os retiros dos 40 pastores (início dos anos 90) que compunham um grupo do qual eu fazia parte.

Fui para o Asbury e, lá, encontraria muita gente de Deus: Howard A. Snyder -- amado professor, orientador e mentor acadêmico, teólogo, eclesiólogo e historiador preferido, ex-missionário da Igreja Metodista Livre no Brasil --, Darrell Whiteman, Samuel Kamaleson, George Hunter III, Maxie Dunnan, Mathias Zahniser e, é claro, B. David Dinkins, um homem bom, generoso, conselheiro encorajador e companheiro acolhedor. Eu já o conhecia, vagamente, de quando fora missionário metodista na Sexta Região (Apucarana e Londrina), mas nossa amizade se estreitou quando me mudei para o Kentucky, e nele tive e ainda tenho um "tutor" para a vida. Depois de vários anos, agora moramos novamente na mesma cidade -- Atlanta, GA --, a ele devo o frescor do encorajamento ininterrupto no que tange ao meu trabalho e vida pessoal.

Foi quando estava no Asbury que recebi três "awards" (prêmios) por excelência acadêmica conferidos pelo Leighton Ford Ministries e a Foundation for the Carolines. Tais "awards" me colocariam e
m relacionamento pessoal com o Dr. Ford, cunhado e companheiro de trabalho do Rev. Billy Graham. Após receber o terceiro "award", Leighton me convidaria para fazer parte do seu grupo pessoal de mentoria. Encontramo-nos à cada ano nas montanhas da Carolina do Norte, e deste grupo desejo jamais sair. Leighton Ford é um artista da alma e outro importante companheiro na jornada.

Minha vinda para a Emory University, Candler School of Theology, onde procuro dar minha contribuição à Igreja em várias partes do mundo através de docência no campo da missiologia, tem tudo a ver com duas pessoas: o conhecido historiador, ministro e teólogo wesleyano, Dr. Russell Richey, reitor da Candler na época, e a pesquisadora e escritora, Dra. Elizabeth M. Bounds, coordenadora da Divisão Graduada de Religião da Emory. Bounds procurava alguém que representasse o perfil desejado pela universidade para fazer um pós-doutorado em Teologia Prática e Práxis Religiosa, e Richey procurava alguém para tornar-se o catedrático da área de missão e evangelismo na Emory. Apesar de não me conhecerem pessoalmente (nem eles e nem mais ninguém daqui da Emory até aquele momento), examinaram meu histórico, informaram-se sobre minha caminhada cristã ministerial e acadêmica através de pessoas como Leighton Ford, Maxie Dunnan e George Hunter III, e, nesta investigação, concluiram que acharam a pessoa primeiramente para o pós-doutoramento, sob a supervisão pessoal dele, Dr. Richey, e da Dra. Bounds. Após alguns meses de minha estada na Emory, incialmente prevista para nove meses apenas, Richey me convidou para candidatar-me para a cátedra Arthur J. Moore of Evangelism.

O Dr. George Morris, na época já aposentado, embora cobrisse temporariamente a saída do ex-catedrático da área, foi fortemente usado pelo Eterno para me convencer a cessar meu envolvimento com alguns dos projetos
, a meu ver, mais relevantes que eu tinha no Brasil (FTSA e Instituto Jetro) e vir para a Emory. Ao Dr. Morris devo também a retomada da auto-estima, reconstruída num contexto de companheirismo, de muita conversa, de oração e de encorajamento para ver mais além de mim mesmo e dos "caixotes-eclesiásticos" e olhar para a vastidão do mundo. Ao fazer isto, ele sempre me lembrava de dois dizeres de John Wesley: "O mundo é a minha paróquia" e "O melhor de tudo é que Deus está conosco".

Toda esta jornada junto aos meus pais, amigos "do peito", tutores, mentores e até de gente desconhecida, bem como TODOS os fatores de formação familiar, trajetória de vida, ministério cristão, estudos, relacionamentos etc, não se trata
de mérito pessoal meu. É, definitivamente, obra generosa e graciosa do Eterno -- Pai, Filho e Espírito Santo--, cuja Soberania não se limita nem se aprisiona a qualquer espécie de falha humana ou a "borras" institucionais. Falo do Deus que, melhor do que tudo, por Sua graça e misericórdia puras, também não se prende às minhas muitas imperfeições ou idiossincrasias, sejam estas intelectuais, morais ou relacionais. Ao senhorio deste Deus Eterno me dobro e digo: "Prevaleça em mim o Teu 'sim' ou o Teu 'não', mesmo naquele algo sobre o qual eu reluto abrir mão. Seja o meu sim uma resposta singela aos Teus nãos, e venham os Teus sins como tesouros nas minhas mãos" (verso de poesia de minha autoria, em maio de 2008).

Digo isso tudo para expressar o que as duas simples fotos que me mandou representam e “falam” a respeito dos meus pais, da família, e a respeito de minha trajetória. A segunda, em particular, sinaliza uma caminhada de vida que se desdobrou em muitos "tomos". Afinal, a ida e estada no Equador desenhou minha jornada em várias etapas. Doces lembranças, acredite!

Com sincero apreço,


Luís Wesley


Marcadores: , ,

Sexta-feira, Setembro 19, 2008

E-M@IL AO APÓSTOLO PAULO


Amado apóstolo:


Estou escrevendo para colocá-lo a par da situação do Evangelho que um dia você ajudou a propagar para nós gentios, e que lhe custou a própria vida. As coisas estão muito difíceis por aqui. Quase tudo o que você escreveu foi esquecido ou deturpado.


Você foi bastante claro ao despedir-se dos irmãos em Éfeso, alertando que depois de sua partida lobos vorazes penetrariam em meio à igreja, e não poupariam o rebanho [1]. Palavras de fato inspiradas, pois isso se concretiza a cada dia.


Lembra-se que você escreveu ao jovem Timóteo, que o amor ao dinheiro era a “raiz de todos os males”[2]? Quero que saiba que suas palavras foram invertidas, e agora se prega que o dinheiro é a “solução” de todos os males.

Também é com tristeza que lhe digo que em nossa época ninguém mais quer ser chamado de pastor, missionário ou evangelista, pois isso é por demais humilde: um bom número almeja levar o título de apóstolo. Sei que em seu tempo, os apóstolos eram “fracos... desprezíveis... espetáculo para os homens... loucos... sem morada certa... injuriados... lixo e escória” [3]. Agora é bem diferente. Trata-se de uma honraria muito grande: acercam-se de serviçais que lhes admiram, quando viajam exigem as melhores hospedarias e são recebidos nos palácios pelos governantes.

Eles não costumam pregar seus textos, pois você fala muito da “Graça” e da “liberdade que temos em Cristo” [4]. Isso não soa bem hoje, pois a Igreja voltou à “teologia da retribuição” da Antiga Aliança (só recebe quem merece), e liberdade é a última coisa que os pastores querem pregar à suas ovelhas.


Você não é bem visto por aqui, pois sempre foi muito humano, sem jamais esconder suas fraquezas: chegou até reconhecer contradições internas, dizendo que não faz o bem que prefere, mas o mal, esse faz [5]. Eles não gostam disso, pois sempre se apresentam inabaláveis e sem espinhos na carne como você. A presença deles é forte, a sua fraca [6], eles são saudáveis, você sofria de alguma coisa nos olhos [7],eles jamais recomendariam a um irmão tomar remédio, como você fez com Timóteo [8], mas aqui eles oram e determinam a cura – coisa que você nunca fez.


Você dizia que por amor de Cristo perdeu “todas as cousas”considerando-as refugo [9]. As coisas mudaram, irmão. Agora cantamos: “Restitui, quero de volta o que é meu!”.


Vivo em uma cidade que recebeu o seu nome, e aqui há um apóstolo que após as pregações distribui lencinhos vermelhos encharcados de suor, e as pessoas levam pra casa, como fizeram em Éfeso, imaginando que afastarão enfermidades [10]. Sim, eu sei que você nunca ordenou isso, nem colocou como doutrina para a igreja nas epístolas, mas sabe como é o povo....


Admiro sua coragem por ter expulsado um “espírito adivinhador” daquela jovem [11], embora isso tenha lhe custado a prisão e açoites. Você não se deixou enganar só porque ela acertava o prognóstico. Hoje há uma profusão de pitonisas e prognosticadores no meio do povo de Deus, todavia esses espíritos não são mais expulsos, ao contrário, nos reunimos ansiosos para ouvir o que eles têm a dizer para nós.


Gostaria de ter conhecido os irmãos bereanos que você elogiou. Infelizmente, quase não existem mais igrejas como as de Beréia, que recebam a palavra com avidez e examinem as Escrituras “todos os dias para ver se as coisas são de fato assim”[12].


Tem hora que a gente desanima e se sente fragilizado como Timóteo, o seu companheiro de lutas. Mas que coisa bonita foi quando você o reanimou insistindo para que reavivasse “o dom de Deus” que havia nele [13]. Estou lhe confessando isso, pois atualmente 90% dos pregadores oferecem uma “nova unção” para quem fraqueja. Amo esta sua exortação, pois você ensina que dentro de nós já existe o poder do Espírito, e não precisamos buscar nada fora ou nada novo!


Nossos cultos não são mais como em sua época, onde a igreja se reunia na casa de um irmão, havia comunhão, orações, e a palavra explanada era o prato principal.... as coisas mudaram: culto agora é como fosse um show, a fumaça não é mais da nuvem gloriosa da presença de Deus, mas do gelo seco, e a palavra é só para ensinar como conseguir mais coisas do céu.


O Espírito lhe revelou que nos últimos tempos alguns apostatariam da fé “por obedecerem a espíritos enganadores” [14]. Essa profecia já está se cumprindo cabalmente, e creio que de forma irreversível.


Amado apóstolo, sinto ter lhe incomodado em seu merecido descanso eternal, mas eu precisava desabafar. Um dia estaremos todos juntos reunidos com a verdadeira Igreja de Cristo.


Maranata!


Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

[1] At 20.23
[2] 1Tm 6.10
[3] 1Co 4.-9-13
[4] Gl 2.4
[5] Rm 7.19
[6] 2Co 10.10
[7] Gl 4.13-15
[8] 1Tm 5.23
[9] Fp 3.8
[10] At 19.12
[11] At 17.18
[12] At 17.11
[13] 2Tm 1.6
[14] 1Tm 4.1

© Copyright 2005
- Associação da Igreja Metodista
- 3ª Região Eclesiástica


Marcadores:

Sexta-feira, Setembro 12, 2008

Sucesso é voltar para Ele.

Para mim, enquanto líder cristão, haverá sempre a sutil tentação de encarar projetos e visões que "dão certo" como meio e fim em si mesmos. Pior do que isto é a tentação de permitir que o sucesso destes acabe por desenhar e dar suposto sentido à minha vida pessoal, ao meu ministério e, em última análise, à minha própria história. Tais tentações podem relacionar-se com as ênfases que dou ou com os métodos que emprego, seja para viabilizar o crescimento de uma igreja ou para progredir numa carreira.

Por serem nobres, honestos e até efetivos, eles possuem dois grandes potenciais: (1) o de dar glória ao Senhor da História pelos frutos autênticos que possam produzir, ou (2) o de me seduzir ao ponto de me levar ao fracasso no que tange a lembrar que é Cristo a fonte, o sentido e o fim de tudo, e que, portanto, Ele está além e acima de minhas próprias ênfases e métodos, projetos e visões. Quanto mais me concentro, me realizo, me resumo, me dreno e me gasto no que possa parecer ou ser considerado bem-sucedido, mais me afasto do eixo da Cruz.

Repetidamente, o evangelho me chama de volta para aquilo que de fato importa: o Cristo de Nazaré, crucificado e ressurreto. Ao me chamar de volta para Ele, o evangelho me faz aprender que o significado da história não reside na própria história imanente. Afinal, a história pela história não é capaz de encontrar significado no seu próprio desenvolvimento. A história, que inclui a minha própria, só ganha significado através aquilo que Deus fez em Cristo, e através daquilo que Ele prometeu ainda fazer.

No quadro de qualquer possível sucesso ministerial enquanto líder cristão, não pode haver outra coisa, senão Cristo, e Cristo tão somente! O meu verdadeiro horizonte não está num fim bem-sucedido dos meus projetos e visões, mas no estabelecimento do Reino vindouro. Este Reino se sinaliza à medina em que me volto para Ele. Afinal, sucesso não se mede pela via do "quem me tornei", pelo "até onde cheguei" ou "pelo quanto realizei", mas pela correta consciência no que tange "a quem pertenço", "de onde eu vim" e "para quem existo".

Eu pertenço ao Rei Jesus, d'Ele vim, n'Ele nasci, pra Ele vivo, e pra Ele volvo meus olhos, minha mente e meu coração, de novo e de novo... Até aquele dia em que poderei ouvir d'Ele: "Muito bem, servo bom e fiel. Fostes fiel no pouco, sob o muito te colocarei".

Copyright © Junho 2007 Luís Wesley de Souza

Domingo, Agosto 31, 2008

Reação ao texto "Ser Pastor 'Bem-Sucedido'".

De: Moisés Coppe
Para: Maurício C. R. Guimarães

Amigo e irmão - sei que posso chamá-lo assim com todo o teor das palavras,

De antemão, quero parabenizá-lo pelo texto. Ele é uma verdadeira ironia com características proféticas, ou se preferir, uma profecia com características irônicas. Sei que muitas pessoas não entenderão o que você expressou, mas não importa, afinal, o mundo plural no qual todos estamos inseridos permite-nos pensar qualquer coisa. Kyrie Eleisson

Seu texto combina com o aforismo de T. S. Eliott, tão citado por Rubem Alves: "Em um país de fugitivos, quem anda na direção contrária parece que está fugindo". Grande paradoxo esse, não acha? Como é interessante notar que as pessoas que se despontam com o único intuito de expressar ética e integridade no cenário eclesial são tratadas com indiferença, seguida pela lacônica expressão: "está em crise" – jargão que determina, em suas entrelinhas: “não possuo argumentos”. Kyrie Eleisson

Mas eu quero a crise! Quero vivê-la com toda a intensidade! Quero percebê-la, não no seu outro sentido mandarim - oportunidade. Quero me apropriar dela no seu sentido mais latino e passional, ou seja, sofrimento e inquietação.

Estou, assim como você, remando contra a maré. E com a nau caotizada pelos furos e intempéries das águas e das chuvas ácidas.

Entretanto, quero me dirigir aos céticos espirituais, quem sabe por causa de um restolho de esperança presente em minha alma angustiada:

Sei que os impressionados com os jargões evangelicais dirão: olha, aí está um pastor sem visão. Por favor, não se enganem! Orgulho-me de não ter visão (literalmente dizendo), mas continuo a me humilhar ante a luz daquele que é muito maior que todas as minhas insignificantes mediocridades. Não se enganem, pois tudo isso que em mim acontece me remete a uma consciência plena de liberdade e gratuidade. Acho, entretanto, que as pessoas, principalmente as ligadas ao cristianismo se esqueceram da tônica dessas manifestações de Deus. Kyrie Eleisson


Liberdade e Graça estão diretamente ligadas à idéia do amor de Deus, que se revela na simplicidade de cada momento e nos convida para um desenvolvimento relacional e até mesmo paritário. Esse Deus não quer ser manipulado ao bel prazer ilícito dos que vociferam continuamente contra as pessoas de bem. Nessa mesma linha, o Kíwitz afirma que Deus não é um ventilador para ser manipulado. Ele é vento que sopra onde quer. Aliás, acho que a maioria dos evangélicos não gosta muito dessa idéia de Deus como vento. Eles preferem o ventilador e quanto mais pequenino melhor, pois se pode movimentá-lo com mais facilidade - Kyrie Eleisson.

Preciso ainda confessar, que em muitos momentos gostaria de não ter pudor evangélico. Pelo menos poderia xingar um "palavrão" com o intuito de revelar, no mínimo, minha indignação ante ao lixo em que se torna o evangelho no Brasil - generalizando mesmo. Nunca se ouviu falar tanto de "homens" e "mulheres" "de Deus", como se isso credenciasse qualquer pecador perdoado a um patamar superior, como crentes de primeira classe. Quero a cruz!

A bem da verdade, acho que preciso "vomitar" muita coisa, principalmente os absurdos engolidos ao longo de uma trajetória de fé. Encontrei-me com a graça de Deus na vida e, posteriormente, na Igreja Metodista. Observei e me espelhei em pastores e pastoras, em irmãos e irmãs que vivenciavam suas experiências de fé e conquistavam suas igrejas pela simplicidade e carisma. Vi ministros não tão eloqüentes, mas que vivam com intensidade a dimensão da graça... Só graça... E me encantei com isso.

Mas a senhora, inescrupulosa e prostituta, conhecida também pelo nome de mediocridade sobressaiu nos púlpitos dessa igreja ainda amada que perde, cotidianamente, o sentido de ser.

Como diria a Adélia Prado:

"Tudo está na esfera do religioso, não tem jeito de fugir..." "Eu vi um documento esses dias, o documentário se chama Fé, sobre as manifestações religiosas no Brasil, então pegaram umas velhinhas lá em Canindé, mas aquelas velhinhas mesmo, espertinhas, e o repórter perguntou pra uma delas: 'Por que a senhora está aqui em Canindé? ' - 'Ah! Vim agradecer uma graça, meu filho, porque neste mundo a gente tem que sofrer, tem que sofrer. ' Qualquer psicólogo modernoso vai falar: 'Ai, que complexo de culpa! Leva essa mulher logo... ' Não, ela está certa! Ela estava falando 'tem que sofrer' com a cara mais feliz, mais iluminada do mundo!" (Adélia Prado).


Somente faria uma adaptação à crônica de Adélia - pífia pretensão a minha, mas necessária - 'Qualquer pastor modernoso vai falar: Ai, você não pode dizer assim. Você é mais que vencedora! Leva essa mulher para uma campanha de oração! '

Triste ironia a nossa, não acha?

Mas ainda bem que existe apocalipse.

Valeu mano, por provocar em minha mente insana essas palavras emblemáticas.

Moisés Coppe


Marcadores:

Sexta-feira, Agosto 29, 2008

SER PASTOR "BEM SUCEDIDO".

Passos para tornar-se um/a pastor/a bem sucedido/a
na Igreja Metodista brasileira do século XXI

Autor: Rev. Maurício C. R. Guimarães

Sou pastor metodista há quinze anos, ordenado há dez. Participei como membro clérigo de sete Concílios da IV Região Eclesiástica (Minas e Espírito Santo) e visitei – pela primeira vez e por um dia – um Concílio Geral (2006). Imaginei-me aconselhando um jovem para tornar-se um pastor “bem sucedido” na nossa Igreja Metodista.

Já fiz isso em outras ocasiões – a última vez há seis anos – e não incluí na conversa o adjetivo “bem sucedido” porque eu achava que pastorado não combinava com “sucesso”. Mas eu estava enganado. Os tempos são outros! Por isso, mudaria minhas orientações.

Primeiro passo: Seja esperto. Você já está com 25 anos e sem perspectiva de vida. Não consegue entrar para universidade pública, não tem um bom emprego. É um bom rapaz, apesar de ser um pouco preguiçoso. Não quer ser pastor? Veja, que alternativa você tem? O mercado de trabalho não vai te absorver tão cedo! Como pastor solteiro você terá, de cara, salário, casa, água, luz, ajuda para transporte, plano de saúde e até seguro de vida. Chamado? Deus já te chamou, rapaz! Só você não percebeu. Olhe as circunstâncias. Olhe as suas necessidades. O mundo está cada vez mais religioso e nós, evangélicos, estamos crescendo neste país. Você vai ficar de fora? Pense bem!

Segundo passo: Apareça. Agora que Deus te chamou, você vai precisar da recomendação da igreja local. É importante que você tenha visibilidade na comunidade. Se você toca algum instrumento, ótimo! Se não, cante no ministério do louvor. É um ministério concorrido, mas eu garanto que para você não haverá escala – você “ministrará” em todos os cultos. Entenda por “ministração” aquela falação entre uma música e outra, com chavões indispensáveis para impressionar a congregação e alguns gemidos com mudança da voz. Mas não se preocupe. É só a gente arranjar alguns dvds de ministérios de louvor famosos e você aprende tudo em duas horas. Aliás, guarde bem o que te digo agora: sempre que puder compre cds e dvds de músicas evangélicas. Esteja por dentro de tudo sobre o “mundo gospel”. Se tiver de escolher entre comprar um livro ou um cd, nunca hesite: compre o cd, ele te ajudará mais. Voltando para a questão da visibilidade, devo te exortar: nunca apareça na congregação da periferia ou da zona rural, nunca apareça no hospital para visitar os enfermos, nunca apareça na cadeia para visitar os presos, nunca apareça na casa dos irmãos para visitá-los – mesmo se estiverem enfermos ou forem idosos, nunca apareça nas atividades dos ministérios que trabalham com proclamação, evangelização, missões ou ação social. Nada disso dá ibope, meu filho! Lembre-se: você precisa da recomendação para ingresso no pré-teológico. Com menos de um ano, aparecendo assim como estou orientando, garanto que toda comunidade votará favorável a você.

Terceiro passo: Seja dissimulado. No pré-teológico você será avaliado para ver se tem condições de entrar para Faculdade de Teologia. Você terá de ler os textos indicados e freqüentar todas as reuniões. Como ninguém te conhece e ao final de um ano você terá passado algumas horas com outros candidatos e uns professores, dá para enganar. Não fale demais. Ouça com atenção. Em qualquer discussão, nunca seja o primeiro a falar; preste atenção nas falas e tente concordar com todos, passando uma impressão de conciliador – no popular, “em cima do muro”. Tente passar a imagem de que você é estudioso. Na entrevista com o diretor mostre firmeza e certeza do seu chamado. Na entrevista com a psicóloga, cuide para revelar-se liberal especialmente se houver perguntas sobre sexualidade. Depois, virá o vestibular, que não é um “bicho de sete cabeças”. Ah, é preciso contar com a sorte também!

Quarto passo: Seja um louco-irresponsável-puxa-saco. Você vai estudar quatro anos na Faculdade de Teologia em São Bernardo do Campo. Aproveite bem esse tempo, ele não volta mais. Mas aproveite do modo certo. Primeiro, liberte-se do mundinho de moralidade que foi sua igreja local e sua família. Esteja aberto a qualquer experiência sexual ou com drogas que te traga prazer ou te faça “transcender”. Quem sabe você fará a grande descoberta de que está “no armário” e precisa sair dele. Ou, se não for o seu caso, e tiver sorte, consiga casar-se para “legalizar” o “relacionamento”. Busque todo prazer e arranje uma teologia para justificar esse modo de vida. Cuide para não se viciar, porque depois de quatro anos você retornará à sua região de origem para ser pastor. Segundo, não estude. Ou, como se fala em todos os tempos, “pique o fumo”. Aluno de Teologia não é reprovado. E o que importa é o diploma de Bacharel em Teologia que você exibirá orgulhosamente em alguma parede. Então, seja medíocre mesmo. Tenha a honra de dizer o que disse um aluno no culto de formatura para um amigo meu há quatro anos: “terminei o curso de Teologia e não li quatro livros inteiros”. Ou o orgulho de tantos outros que passaram por lá e hoje dizem de boca cheia: “passei pela Faculdade mas ela não passou por mim”. Terceiro, comece a treinar a habilidade de “puxar saco” de quem está acima de você: professores, reitores, componentes de conselho diretores, superintendentes distritais, bispos. Você terá muitos concorrentes nesse treinamento, mas esmere-se, porque seu futuro vai depender disso.

Quinto passo: Seja um gerente. Agora você vai assumir sua primeira igreja. O material para sua leitura diária deve ser tudo que você conseguiu juntar sobre estrutura e funcionamento da igreja, administração e liderança. Se possível, faça alguns cursos rápidos como: vendas, porque o Evangelho que você vai pregar é como um produto que precisa ser apresentado convincentemente para ser comprado; marketing, porque sua igreja vai precisar criar necessidades nas pessoas para freqüentarem os cultos. Faça seminários de fins de semana com os pastores de sucesso sobre como dobrar a arrecadação da sua igreja. Enfim, existem cursos e farto material para transformar você num grande manager. Porque o que importará quando você for avaliado será o “resultado”, que é culto lotado de gente e aumento da arrecadação – obviamente não como fruto da fidelidade a Deus, mas por sua habilidade gerencial.

Sexto passo: Seja um líder ditador. A membresia da Igreja Metodista não admite um/a pastor/a que ouve, é democrático, é conciliador e não abre mão de presidir, dirigir a comunidade. Ela prefere um/a pastor/a “banana”, aquele/a que não dirige nada, não se posiciona e deixa a comunidade na mão de um grupinho “que faz” – desde que tenha algum poder de influência, seja econômico ou de conhecimento – ou prefere um/a pastor/a ditador/a, aquele/a que centraliza tudo, não ouve, manda, faz a agenda para seus “súditos” cumprirem. Prefira, jovem, ser o ditador. Combina mais com o quinto passo dado. Aliás, apesar da ditadura ter acabado no Brasil há mais de vinte anos, ela está de volta na América Latina com uma nova roupagem, arrancando elogios de muitos “democratas”!

Sétimo passo: Seja um animador de altar. Você será um palrador, um tagarela, mas nunca um pregador. Esse “tipo” de pastor/a, que ainda teima em pregar a Bíblia, está fora de moda, vai acabar. Para ser um bom animador de altar, ou palco – algumas igrejas já não têm altares – é preciso: Primeiro, ter um bom grupo de louvor. Leia de novo o segundo passo nomeado “apareça”. Esse grupo será tão importante que muitas vezes você nem terá o trabalho de falar; as pessoas vão “sentir” Deus e vão ficar na sua igreja. Segundo, não preocupar-se com a Bíblia. Ela, a Bíblia, é sua grande desconhecida. Você nunca a leu toda. Ela vai te servir como material decorativo e algumas vezes como amuleto. Mas, antes de falar, leia um texto ainda que você nada fale sobre ele. E se por acaso for falar sobre algum texto, não se importe com o contexto em que foi escrito. Leia os fatos históricos do Antigo Testamento sempre como analogia para interesses individualistas da sua congregação e transforme Jesus Cristo num grande milagreiro como fazem os tagarelas da confissão positiva e teologia da prosperidade. Uma boa mensagem também é aquela retirada de manuais de auto-ajuda. Você pode ler um salmo como pretexto para tagarelar e vai fazer um grande sucesso se aprender a psicologizar sua tagarelice. Mas cuidado. Evite os versículos de lamento e confissão de pecado. Terceiro, usar “chavões” e berros para impressionar a congregação. Preste atenção: até a saudação já virou um chavão e um identificador do “pregador ungido”. Se você disser um “boa noite” no lugar de um “a paz do Senhor” corre o risco de não ganhar a simpatia dos fiéis. Ao ler qualquer texto e em qualquer falação use estas palavras (e os verbos correspondentes): unção, vitória, alegria, glória, conquista, promessa, saúde, cura, prosperidade, diabo, bênção, maldição, etc... Se você agüentar tagarelar aos berros, melhor. Se não, guarde-os para as frases de efeito, por meio das quais você convencerá os ouvintes. Aí você os verá levantando as mãos, dizendo “amém” e “aleluia”, batendo palmas, mesmo que tenham acabado de ouvir uma grande bobagem.

Oitavo passo: Celebre os sacramentos a seu bel prazer. Nunca use qualquer ritual para tais celebrações. Tire tudo da sua cabeça sob a inspiração do momento, pois o que mais vale é a espontaneidade! Que a Ceia do Senhor não seja mais que um pequeno “anexo” ao final de um culto que teve mais de uma hora de “louvor” e mais uma de tagarelice. Quanto ao Batismo, atenção! Não estude com os/as batizandos/as sobre conteúdo e forma desse sacramento. Apenas pergunte de que jeito ele/a quer ser batizado: aspersão, imersão ou derramamento? Sobre a administração do mesmo às crianças, faça o que você achar melhor. Há pastores que batizam. Há outros que não batizam e pregam contra o batismo de crianças. E todos são metodistas! A Igreja Metodista aprovou a participação das crianças na Ceia do Senhor desde o início dos anos 90. E o fez porque sempre recebeu as crianças no Corpo visível de Cristo – a igreja local – por meio do Batismo. Por serem batizadas, as crianças são convidadas à Mesa do Senhor. Contudo, a falta de Batismo para crianças fez surgir uma prática que não existe em nenhuma Igreja Cristã séria na face da Terra: a participação de não batizados/as na Santa Ceia. A Igreja Metodista foi muito responsável ao trabalhar a inclusão das crianças por meio dos únicos sacramentos por ela celebrados. Mas, se pastores/as e pais excluem as crianças do Batismo, com que consciência admitem a participação delas na Ceia? Não é uma questão teológica séria? Mas não se preocupe, jovem candidato ao ministério! Isso é demais para sua cabeça! Se você não entende e nem se importa, como vai ensinar? Deixe as coisas como estão. Sacramentos têm a ver com a história e a tradição cristãs. Mas, hoje, quem se interessa por isso?

Nono passo: Seja sectário. Você está proibido de ler, pelo menos, três textos de J. Wesley: “Carta a um Católico Romano” e os sermões “Contra o Sectarismo” e “O Espírito Católico”. Demarque bem a linha divisória dos que “são abençoados” e dos que “não são abençoados”, justificando que você e sua igreja receberam uma “nova unção” que outras igrejas não têm e que por isso todos devem vir para a “sua” igreja se quiserem ser “abençoados”. Não esqueça de gastar bastante tempo em suas tagarelices falando contra a Igreja Católica. Seja anti-católico como um apaixonado torcedor de futebol torce contra o time adversário. Alimente o anti-catolicismo com as histórias de perseguição sofridas pelos nossos antepassados protestantes, de tal maneira que gere entre os fiéis rancor, ódio e sede de vingança. Você vai contribuir para a intolerância crescente dos dias atuais.

Décimo passo: Guarde os pecados alheios como “trunfos na manga”. A Igreja de Cristo é santa e pecadora. Homens e mulheres são pecadores/as salvos pela Graça de Deus. No decorrer do seu trabalho muitos serão os pecados que você cometerá e que outros cometerão contra você. E você sabe que Deus perdoa pecados. Ele, em Cristo, reconciliou consigo o mundo. Mas como essa conversa sobre perdão é para gente simples e humilde, que não perdeu o coração, então esqueça. Você estará em outro nível, rapaz. Deus perdoa, mas você não! Pelo contrário, revide, vingue! E como muitas vezes não dá para revidar ou vingar na hora, então guarde os pecados dos outros como “trunfos na manga”. Mais tarde você vai usá-los. Para você, jovem, que deseja ter sucesso e crescer, aprenda cedo esse “jogo” do poder. É o que os antigos chamavam de ter “rabo-preso”: manter pessoas sob controle pelo conhecimento que se tem de pecados do passado ou do presente. Só tenha cuidado para não descobrirem os seus pecados também. Mas se descobrirem-nos, não se afobe. Você apenas estará no círculo de pessoas que têm “rabos-presos” umas com as outras. É só fingir que está tudo bem e todos se mantêm como estão!

Décimo-primeiro passo: Busque os seus direitos. Se algum dia você se sentir ofendido ou injustiçado, busque seus direitos. Mas lembre-se: você não perdoa, não há possibilidade de reconciliação, você não pode “sair perdendo”. Quem “pisar na bola” com você vai pagar caro. E não adianta tentar resolver o problema “entre os santos” (haverá algum?) como o apóstolo Paulo aconselha. Vá para a justiça comum. Vá para a mídia escrita e televisiva – de preferência com repercussão nacional. A má fama das igrejas evangélicas no Brasil e a formação secularizada de muitos juízes são dois fatos que te farão sair em vantagem em qualquer processo. Você poderá até ganhar uma boa grana! Depois de todo estardalhaço vão reconhecer que você é corajoso. Então você volta ao “seio da amada igreja” ainda mais forte com a testa escrita “cuidado, não mexam comigo!”

Pode ser que a lista de passos a serem dados para você se tornar um pastor metodista de sucesso seja bem maior, mas vou ficando por aqui.

Agora, se tudo isso não enche os seus olhos, rapaz, há um outro caminho. E te digo de uma vez que é estreito e espinhoso. Quer saber?

Você terá de receber o chamado de Deus para aventurar-se na vida sacerdotal e ministerial. Você terá certeza do chamado. Junto com a certeza você terá dúvida. A dúvida será fruto do sentimento de indignidade, de incapacidade e inadequação: “Eu não sei falar”, “Eu sou o menor na casa de meu pai”, “Não passo de uma criança”, “Ai de mim, estou perdido, sou homem de lábios impuros”... A dúvida estará presente sempre, podendo chegar ao ponto de você dizer “fui enganado” ou “persuadido” ou “seduzido” por Deus, “já não falarei no seu nome”. Seu inimigo não será a dúvida, mas o medo. Por isso, necessário será ouvir dEle continuamente: “Não temas, eu estou contigo!”

Você terá de ser você mesmo, se assumindo como “pecador salvo pela graça de Deus”.

Você terá de ser normal, responsável e aberto para amizades saudáveis.

Você terá de ser fiel àquelas tarefas que um/a pastor/a deve fazer sem que ninguém veja: a oração, a leitura da Palavra e a orientação espiritual.

Você terá de trabalhar como cooperador de Deus, “plantando e regando” e deixando por conta dEle o “crescimento”. Como canta o grupo Logos “até porque resultados não são o indicador verdadeiro de aprovação. Há quem curou e o diabo expulsou mas Jesus nunca o conheceu” (do cd “Conteúdo”).

Você terá de celebrar os sacramentos e pregar a Palavra de Deus tendo a tradição e a história cristãs como instrumentos de inspiração e avaliação para a caminhada de hoje, sem ser denominacionalista – como aqueles que se arrogam ser os “mais metodistas” – nem sectarista – como aqueles que se sentem “donos” da salvação.

Você terá de perdoar os que te prejudicarem, assim como você tem sido perdoado por Deus em Cristo Jesus. Isso vai depender de você se colocar humildemente diante do Pai e abrir-se ao poder curador de sua Graça, desistindo do “direito de não perdoar”, como dizia o Dr. David Seamands. Não é fácil, especialmente se você for “ferido na casa de amigos”.

Como você pode ver, jovem, o que precisamos fazer é conseqüência da Graça de Deus revelada em Cristo e atualizada em nós pelo Espírito Santo.

Esse caminho é bem mais difícil por causa do nosso afastamento de Deus, da nossa autoconfiança, da nossa soberba, da nossa sede de poder, da nossa busca de reconhecimento a todo custo, do abandono da nossa condição de pecadores/as, e tantos outros tropeços, buracos, curvas que nós mesmos acrescentamos ao caminho.

E o “prêmio” desse caminho não é “o sucesso”. Quem nele seguirá?

“Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência, de que com santidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria humana, mas na graça divina, temos vivido no mundo, e mais especialmente para convosco.” (Paulo – 2 Co 1.12)

“Ora, o Deus de toda graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortalecer e fundamentar. A ele seja o domínio, pelos séculos dos séculos. Amém.” (Pedro – 1 Pe 5.10,11)


Marcadores: ,

Quinta-feira, Agosto 28, 2008

O caos que se deseja SEMPRE...


"Amor não forma ordem, forma desordem.

Pessoas apaixonadas tornam suas vidas um caos."

Jung Mo Sung, no debate sobre Fé e descrença
Fonte: PavaZine#, Ano 2, Número 64
www.pavablog.blogspot.com


Marcadores: ,

Sábado, Julho 26, 2008

A igreja não é mera organização.


Seleção e desdobramento de perguntas e respostas de entrevista
dada em abril de
2005 para o Informativo do Instituto Jetro.


Luís Wesley

Quais as necessidades urgentes da igreja brasileira no que diz respeito à capacitação de líderes?

Luís Wesley - Há alguns anos perguntei ao querido amigo Valdir Steuernagel sobre quais eram, no entender dele, os maiores desafios da igreja brasileira no que se refere ao desenvolvimento de liderança. A resposta foi ampla, porém precisa, desafiante e inspiradora: "[1] Crescimento da Igreja com vistas à 'segunda hora'; [2] A Igreja precisa continuar a crescer e, ao mesmo tempo, avaliar as conseqüências de seu crescimento; [3] Olhar as conseqüências éticas do crescimento da Igreja, ou seja, em que dimensões nossa sociedade está diferente em função do fato de que a Igreja está crescendo? [4] Redescobrir a tradição de ser a igreja da Palavra, enquanto se confronta a tentação de ser a igreja do mercado; [5] A fé cristã em relação ao crescimento de uma mentalidade religiosa relativista; [6] A cultura da geração mais jovem e a necessidade de estabelecer uma igreja que experimente estabilidade e comunidade". Para mim estas questões são cruciais quando penso no ministério do Instituto Jetro como agente de mudança, como frente facilitadora de formação de novos líderes e como iniciativa que não deixa de se preocupar também com os líderes que já exercem funções chaves nas igrejas e em organismos cristãos.

[Líderes cristãos não poderiam ser guiados apenas pela intuição própria?]

Luís Wesley - A intuição é uma das marcas extraordinárias dos líderes cristãos brasileiros. É no campo da intuição que nos tornamos mais abertos para a ação soberana e criativa do Espírito Santo. Há, contudo, um grande perigo quando colocamos demasiada confiança na nossa intuição. Se formos apenas intuitivos em nosso ministério, negligenciamos o fato de que o Espírito não se prende à intuição humana. O Espírito Santo vai muito além, e isto inclui dar a cada cristão dons e ministérios que surpreendem por sua contemporaneidade e aplicabilidade contextual. Daí a necessidade de se encontrar sabedoria na multidão de conselheiros, [i.e.,] de Jetros [contemporâneos]! Neste sentido, a equipe do Instituto Jetro sente-se altamente entusiasmada quando age para capacitar e acompanhar líderes em várias frentes de abordagem que outrora eram tabus, mas que agora estão sendo encaradas como úteis, relevantes, redimíveis e aplicáveis ao ministério cristão na realidade brasileira.

O senhor diria que as igrejas hoje são como "empresas" e é por isso que precisam se organizar melhor?

Luís Wesley - Recuso-me a pensar e tratar as igrejas como "empresas". A história demonstra que, cada vez que as igrejas foram vistas [nesta categoria ou equivalência], ocorreu trágica redução de sua natureza como comunidade missionária a algo tão pequeno que sequer lhe daria a dignidade de ser chamada de Eclésia. A Igreja não é mera organização, mas, antes de tudo, um organismo vivo. Ela é o Corpo de Cristo, comunidade de dons e ministérios gerados pelo Espírito, família que se governa pelo amor do Pai, povo de sacerdotes enviados para a missão.

Gosto muito da maneira holística pela qual o bispo [anglicano] Robinson Cavalcanti a definiu em um de seus artigos na Revista Ultimato: "A Igreja, de origem divina e composição humana, é um mistério, um povo e um pacto: una, santa, católica e apostólica. Ela não é o reino de Deus, mas expressão, vanguarda, antecipação e sinal deste mesmo reino. Criada segundo o coração de Deus, dentro da economia da salvação, ela é formada por gente, com suas personalidades, temperamentos e histórias de vida, situada no tempo e no espaço, na cultura e na conjuntura" [Robinson Cavalcanti, Os cristãos e o estado da Igreja”, Revista Ultimato, ano XXX - # 248, pág. 57].

[O que se pode derivar desta forma de definir a Igreja?]

Luís Wesley - A primeira lição desta forma integral de pensar é que, ao mesmo tempo em que é "de origem divina", a Igreja é também de "composição humana". Dentre outras coisas, isto significa dizer que a Igreja é um fato espiritual e um fato sociológico. Como fato espiritual a Igreja obedece, inegociavelmente, às orientações do seu Senhor expressas nas Escrituras Sagradas. Como fato sociológico e, portanto, como organismo sociologicamente entendido e avaliado, a Igreja tem satisfações a dar à sociedade, sejam estas de natureza ético-moral, relacional, contábil, organizacional e mesmo legal. Prova disso é que, por contingência contextual, as igrejas locais no Brasil possuem CNPJ. Tudo isto, contudo, precisa fazer sentido no que tange à nossa participação na missio Dei. Penso, então, que as igrejas precisam, sim, estar mais bem organizadas, não por razões empresariais, mas por razões de sua natureza missionária. Estar organizada não significa tornar-se empresa. Significa, isto sim, permanecer "situada no tempo e no espaço, na cultura e na conjuntura". A Igreja existe [e se formata] em contexto.

Fonte: Informativo do Instituto Jetro
Publicado em 14/04/2005
(Partes selecionadas)


Marcadores:

Sexta-feira, Julho 18, 2008

Sempre? Sempre...


Não é sempre que se deve conceber e aplicar um “sempre” nas afirmações da existência, mas não se pode nunca deixar de desejar e desfrutar daquilo que nasce para ser perene: crer, ter esperança, amar e ser amado. Dentre estas quatro coisas prevalescentes, as duas últimas - amar e ser amado - são incorrigíveis, irremediáveis, irretornáveis, irrevogáveis e irrepreensíveis. Elas têm o poder intrínseco de perpassar a vida e de redesenhar o que se sentiu ontem, o que se experimenta hoje, e o que será pra sempre. Afinal, “amor [que é amor mesmo] jamais acaba” (I Cor. 13).

Luís Wesley

Marcadores: ,

Sexta-feira, Maio 16, 2008

Prevaleça-Te, ó Eterno!

Uma das orações-poesias que
fiz
durante retiro pessoal nas
montanhas da
Carolina do
Norte em meados de maio/08,
como
integrante do grupo de
mentoria de Leighton Ford.


Prevaleça em mim o Teu senhorio,
Ainda que
hoje meu coração esteja tão sombrio.
Sê sempre Aquele que tem da primeira à última palavra,

E mantém minha vida livre de se tornar escrava.

Prevaleça em mim o Teu fluir,
D’outra feita, como voltará minh’alma a sorrir?
Inunda o meu ser de amor, alegria e ternura,
E reconstrói minha lida para que seja mais pura.

Prevaleça em mim o Teu querer,
Faz-me entender o que devo ser, dizer e fazer.
Lembra-me de quem sou e a Quem pertenço,
E
isto seja sempre como flagrância em tudo o que penso.

Prevaleça em mim a Tua graça,
Seja o Teu amor, verdade e justiça aquilo que me traspassa.
Do tudo que possa vir a ter neste mundo que enlaça,
Livra-me de coisas que me tragam qualquer des-graça.

Prevaleça em mim o Teu “sim” ou o Teu “não”,
Mesmo naquilo que não quero ou que reluto abrir mão.
Seja o meu sim uma resposta singela aos Teus nãos,
E dá-me os Teus sins e nãos como jóias nas minhas mãos.

Prevaleça em mim a Tua soberania,
Trazendo-me a certeza de Tua companhia.
Mais além disso, ensina-me a viver constante,
Sabendo que estar nas Tuas mãos é o bastante.

Copyright © May 2008 Luís Wesley de Souza


Marcadores: , , ,

Segunda-feira, Maio 05, 2008

A Gente, a Morte e o Morrer.

Por Luís Wesley


Para quem é gente como a gente, viver plenamente é preciso,

e aprender a morrer com serenidade é necessário.

Mesmo para quem admite com realismo que aprender a morrer pode ser tão natural e importante quanto aprender a viver, este é um tema difícil de se tratar. Lidar com o assunto da morte e do morrer tem sido ainda mais confuso e complicado para aqueles que sustentam uma teologia que, na prática, não quer falar de sofrimento e nem de morte, e que parece aceitar somente a possibilidade da cura.

O último inimigo

É óbvio que a morte, sendo o último inimigo a ser vencido por Deus (I Coríntios 15:26), ainda é algo à respeito do qual lutamos para encontrar compatibilidade com a fé. Isto é natural e compreensível. Ocorre que este inimigo ainda não foi vencido, exceto no campo da fé que admite a vida eterna conquistada na cruz e na ressurreição de um só – o Jesus de Nazaré. No campo da concretude da vida, a morte continua sendo muito real.

O problema evangélico

Observo, contudo, que grande parte dos cristãos desaprenderam ou jamais aprenderam a encarar a morte sob a perspectiva da graça de Deus. A teologia corrente e dominante no Brasil, por exemplo, não dá lugar à possibilidade do sofrimento e eliminou a morte enquanto objeto de reflexão, ensinamento e acompanhamento pedagógico.

Não se fala sobre o assunto de maneira natural enquanto parte da experiência cristã na sua totalidade. Quando se trata de morte, parece que a vida eterna não passa de um imaginário representado apenas no discurso da fé. Uma boa parte dos cristãos brasileiros de hoje estão vivendo como se já estivessem no céu, mas morrem como se para lá não quisessem ir.

O lá e o aqui em desconexão

Na hora da morte, aqueles que desejam e experimentam desconexões da realidade, as mesmas que os fazem sentir como que conectados com “as coisas lá do alto”, não traduzem tudo isso em aceitação da morte. É como se o “lá” não existisse, e como se viver fosse somente para o aqui e o agora. Assim, quando se trata de morte a fé na vida eterna não passa de uma fantasia, enquanto a vida “já” passa a ser um objeto de desejo definitivo e um sonho de consumo.

A concepção comum é a de que a morte é algo bonito de se falar enquanto meio de estar para sempre com Deus, mas que não deveríamos esperar por ela nem aceitá-la como possibilidade válida, muito menos para aqueles que cremos no poder curador de Deus.

Nada há de errado em crer no poder que Deus tem de curar, e de que Ele pode fazê-lo quando quiser, no tempo que quiser e do jeito que quiser. O problema é almejar o milagre apenas em função da vida na terra. Como disse C.S. Lewis em seu livro Cristianismo Puro e Simples, “Desde que os cristãos pararam de pensar na outra vida é que começaram a falhar nesta. Quem almeja o céu, terá a terra como acréscimo; quem almejar [apenas] a terra, não terá nem uma nem outra”.

“Não quero morrer”

Recentemente, ouvi o relato sobre uma evangélica que, para o desespero próprio e a angústia dos familiares e amigos mais próximos, partiu dizendo que não queria morrer. Por ser algo desconhecido, penso que é absolutamente normal não querer morrer ou mesmo ter medo da morte. Afinal, quem não tem receios de pensar na própria morte? Até para um teólogo do calibre de Rubem Alves, a morte é objeto de medo. Ele afirma o seguinte:

(...) tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, [sem] medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza. (Alves, 10 de dezembro de 2003, Folha de São Paulo, Caderno “Sinapse”, folha 3)

Enquanto se vive, se sente e se pensa, deve-se lidar com a doença fatal de maneira que a morte chegue e aconteça com serenidade, tendo por base uma espiritualidade sólida que não esquece que Deus é vida mesmo enquanto se está a caminho do fim. Afinal, para os que crêem em Cristo, a vida eterna com Deus é o que se segue à morte física. Notadamente quando se trata de um estado terminal, esta convicção pode e deve se tornar o foco e a fonte primária de desejo, saudade e esperança enquanto a morte se aproxima.

Morrer sem amargura

Enquanto cristãos, precisamos aprender a mística de aceitar a realidade da morte e do morrer, sem com isso desistir da vida e do viver. Sôa paradoxo, eu sei. É humano e natural o apego à essa vida, mas diante de uma provável morte temos a opção de pensar sobre o que está à nossa espera e, se necessário, experimentar nossos últimos dias pensando e nos alimentando sobre isso.

Freqüentemente, quando isto não acontece, a morte torna-se muito mais triste, deprimente, amargurada e dolorosa. A falta de bases na esperança cristã da vida eterna, e, fundamentalmente, da confiança na soberania de Deus, faz com que a serenidade desapareça e o coração se torne amaro e ferido contra a realidade da vida e contra o próprio Deus.

Fé na fé, ou fé em Deus?

Não se pode deixar que o triunfalismo religioso, que tende a sugerir que as pessoas se tornam imortais quando crêem no Deus da vida, nos transforme em frenéticos amargurados que colocam a fé na fé, e não no Deus da fé. Precisamos ensinar as pessoas a não colocarem a fé em sua própria fé ou na fé de outra pessoa supostamente dotada de dom para curar enfermos.

Ajudar as pessoas a aceitar a morte não é deixar de crer na cura. Não é tampouco achar que a cura só pode acontecer se pacientes terminais a considerarem como certa. Penso que uma das possibilidades é ajudá-los a saberem a Quem pertencemos, a crerem no tipo de Deus que temos, e a desenvolverem uma espiritualidade que encontra paz e conforto diante da morte.

Ajuda ministerial ou pastoral

Há inúmeros casos irreversíveis em que a ajuda profissional de preparação para a morte se faz necessária, tanto para o paciente quanto para a família e os amigos mais chegados. Nem todas as famílias possuem “know how” na experiência da morte e do morrer. Confiar tão somente no instinto humano diante da morte pode gerar situações e memórias extremamente dolorosas para o resto da vida daqueles que ficam.

Pouquíssimas igrejas são abertas o bastante para admitir a validade de desenvolver este campo de ministério. Esta tarefa tem sido entendida como sendo essencialmente pastoral. E é, em alguns aspectos.

Ocorre que a maioria dos pastores na atualidade não se percebem neste papel de prepararem pessoas que se vêem diante de inevitável morte. Afinal, é muito mais fácil enganarem-se a si mesmos e às pessoas, fazendo apenas uma ou mais “visitas pastorais” que terminem com uma oração pela cura que não virá, para depois saírem sem uma mínima contribuição pastoral realista para o processo de morte.

A ajuda profissional

A meu ver, se a igreja não possui um ministério especializado na área, a participação de um psicólogo ou mesmo de um tanatólogo pode ajudar no processo de acompanhamento. A tanatologia é uma ciência que estuda a morte em seus aspectos biológicos, sociais, psicológicos, emocionais, legais e éticos.

Diga-se de passagem, tanatólogo não é o que mata de vez a pessoa com uma suposta falta de fé na cura que Deus possa realizar à qualquer momento, revertendo a trajetória de morte. Trata-se, isto sim, de alguém que ajuda a pessoa a lidar com a morte, seja pra redescobrir a vida ou para encarar o morrer como caminho de vida.

O tanatólogo é uma pessoa capacitada para ajudar, no processo de luto, ao ser humano que morre e às pessoas que o rodeiam. Os tanatólogos ajudam também em quaisquer espécies de perdas significativas que envolva alguma forma de morte.

É finalidade da tanatologia ajudar um dado paciente a sofrer menos, tratando-o com afeto e compaixão, a fim de que este morra com dignidade. Cabe ao tanatólogo colocar-se no lugar do paciente, ajudando-o com respeito, confidencialidade, cordialidade e qualidade humana, a fim de oferecer-lhe o apoio de que precisa.

Um tanatólogo cristão oferecerá conteúdo bíblico-teológico, fundamentação científica e suporte psicológico à pessoa, além de orientar a família diante da morte e do morrer, seja no campo dos sentimentos ou nas atitudes, reações, deveres e obrigações.

“Com a Vida de Novo”

Em 89, quando adoeci com um câncer mortal do tipo Lymphoma non-Hodgkin, recebi a ajuda do casal Schisler. Na época, o reverendo William Schisler Filho (“Dico”, para os mais chegados) e sua esposa Edith me ajudaram a enfrentar a morte para a vida. Eles não eram tanatólogos profissionais, mas especializaram-se na área por pura demanda do ministério que exerciam junto ao Centro Vivencial Para Pessoas Idosas, em Florianópolis, SC.

Além de longas conversas pessoais que tivemos ao telefone, eles me mandaram um livro secular com o título “Com a Vida de Novo”. A leitura do livro abriu minha mente e me ajudou muitíssimo a voltar à vida, como também me preparou para a morte caso esta viesse a ser inevitável.

Não foi só a mim que os Schislers ajudaram. Eles trouxeram consolo e compreensão para dezenas de pessoas que tentavam lidar com a própria morte ou com a de entes queridos. O interesse e o ministério deles neste particular foi inspirado no trabalho da médica polonesa Elisabeth Kübler-Ross, uma mulher tida até hoje como aquela que mudou a maneira como os profissionais de saúde lidavam e pensavam sobre a morte e o morrer.

A morte e o silêncio

Kübler-Ross dizia que precisamos “[aprender] a estar em contato com o silêncio” diante da morte, e observava que “a culpa é, talvez, a companhia mais dolorosa da morte”. Ela escreveu vários livros como resultado de seu ininterrúpto trabalho com crianças em estado terminal, sobre as quais dizia serem “alguns dos nossos maiores professores”. Ela também trabalhou muito com soropositivos para AIDS, idosos e jovens portadores de doenças fatais em várias partes do mundo, incluindo a Polônia e os Estados Unidos.

O trabalho que ela fez como tanatóloga pode e deve inspirar também o ministério da igreja. “As pessoas sempre me perguntam como é a morte”, dizia ela. “Digo-lhes que é sublime. É a coisa mais fácil que terão que fazer. A vida é dura. A vida é luta. Viver é como ir à escola. Dão a você muitas lições a estudar. Quanto mais você aprende, mais difíceis ficam as lições. Quando aprendemos as lições, a dor se vai."

Varrer a morte é tolice

É preciso questionar esta cultura evangélica determinista no que tange a varrer a morte para debaixo do tapete e escondê-la ali. Negar a realidade e as implicações da morte e do morrer pode ser também uma negação a fé.

É preciso não se esquivar por detrás do discurso da cura divina como possibilidade única na vida. Se cremos que Deus é soberano, então temos que crer que Ele é livre. Se cremos que Ele é livre, cremos obrigatóriamente na liberdade de Deus no que tange a realizar ou realizar a cura. Por isso é preciso saber que a cura poderá não acontecer.

É preciso desafiar o senso comum ao trazer, expor e lidar com essa etapa final da existência terrena, para que não tenhamos mais medo dela. Afinal, como observa Rubem Alves, "A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A 'reverência pela vida' exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir" (Alves, 10 de dezembro de 2003, Folha de São Paulo, Caderno “Sinapse”, folha 3).


Copyright © May 2008 Luís Wesley de Souza


-------------------------------

“Pois, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. De sorte que, quer vivamos quer morramos, somos do Senhor”. (Romanos 14:8)


Marcadores: ,

Domingo, Maio 04, 2008

SOBRE A MORTE E O MORRER -- Por Rubem Alves

O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de
um ser humano? O que e quem a define?


Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.

Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”

Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”

Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.

Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".

Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.

Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.

Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?

Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".

Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.

Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.

--------------------------------
Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12-10-03. fls 3.

Rubem Alves: tudo sobre o autor e sua obra em "
Biografias".

Marcadores:

Sexta-feira, Abril 25, 2008

O que é missiologia?

Aos amigos que perguntam sobre meu intrigante
campo de trabalho, docência e pesquisa.

O que se pode chamar de prisma missiológico precisa merecer um lugar essencial na percepção e análise das coisas, não somente no que tange à Igreja, mas também no que se refere à realidade do mundo. Uma vez que assim entendo, preciso definir o que quero dizer por perspectiva missiológica, a fim de traçar o desenvolvimento que faço de estudos sobre Igreja em missão.

Neste sentido, a mais básica definição apresentada por Charles Van Engen ajuda muitíssimo. Ele afirma que a “teologia de missão busca ser multidisciplinar, interativa, definidora, analítica e verdadeira” (Van Engen 1996:17, tradução minha). De fato, o inteiro campo da missiologia exige uma interação e inclusividade de outras disciplinas, e leva em conta o que estas têm a oferecer como ferramentas úteis e de ajuda para interpretar realidades e conjunturas.

Como também coloca Van Engen, missiologia é “um aventura multi e interdisciplinar” (1996:18). Esta definição reflete a naturesa e abordagem intencional de meus estudos sobre o Pentecostalismo clássico e os movimentos de revitalização, por exemplo, e destaca os parâmetros e limites dos argumentos e contribuições a serem feitas através dos meus estudos.

Defino missiologia como um campo acadêmico cristologicamente centrado que busca dialogar com outras disciplinas, com o propósito de habilitar a Igreja a entender e exercer sua missão no mundo. No processo, a missiologia penetra outros campos disciplinares, os aproveita e os incorpoa na teologia prática, lembrando a Igreja de sua tarefa em “servir, curar, e reconciliar uma humanidade dividida e ferida” (Bosch 1991:495, tradução minha).

Esta é a razão pela qual a missiologia torna-se uma área multidisciplinar e interdisciplinar (1996:18). Acredite, isto me fascina, porque a missiologia requer que nós, missiólogos, eliminemos toda e qualquer forma de preconceito contra outras disciplinas, ao mesmo tempo em que devemos ser capazes de desenvolver diálogo e análise multidimencionais sobre o uso daquelas disciplinas que têm a contribuir para um melhor entendimento da participação da Igreja na missão.

Há muitos campos disciplinares que informam a Igreja quando esta ocupa seu lugar e exerce sua tarefa na missio Dei: antropologia cultural, sociologia, psicologia, estatística, lingüística e comunicação, além dos campos do diálogo interreligioso, crescimento da Igreja, mulher em teologia e ministério, e religião folclórica (ou popular), para citar alguns apenas.

Uma missiologia confiável, então, a meu ver, interage com outros assuntos teológicos e não-teológicos, provocando trocas analíticas ao acompanhar tais assuntos nos seus respectivos trabalhos (Bosch 1991:495). Isto é o que eu quero dizer por abordagem ou prisma missiológico que caracteriza minha docência, estudos, pesquisa e escrita sobre a Igreja em sua vida e missão.

Como missiólogo, tento interagir com o maior número possível de campos disciplinares que tenham algo a informar e/ou oferecer para o bem de uma ampla resposta a um dado problema ou caso. Sendo assim, me coloco em diálogo com o que se tem escrito sobre assuntos correlatos por antropólogos, sociólogos, especialistas em crescimento da Igreja, e assim por diante.

Copyright © Abril 2003 Luís Wesley de Souza
(Versão Abril 2008)

-----------------------------

Bosch, David
1991
Transforming Mission: Paradigm Shifts in Theology of Mission. Maryknoll, NY: Orbis Books.

Van Engen, Charles
1996 Mission on the Way: Issues in Mission Theology. Grand Rapids, MI: Baker Books.


Marcadores: ,

Segunda-feira, Abril 14, 2008

ARQUEIRO EXISTENCIAL

Inspiração do passado,
realismo do presente e
nostalgia do futuro.


Busco aprender a rir das mesmas coisas que me causam choro, sorrir diante de quadros que me fazem engolir seco, abraçar algumas coisas que se me apresentam incertas e incógnitas, encarar com realismo o que quer que seja que me vulnerabiliza.

Tento ser resoluto no enfrentamento daquilo que me aborda na forma do desafio ou da ameaça, e determinado na missão à que fui divinamente arremeçado.

Somente assim, no futuro, não terei que dizer: "Tudo o que fiz foi ser apenas um 'contrarregra' do meu próprio cenário existencial cheio de vazio". Afinal, não foi para isto que o Altíssimo me criou!

Não quero deixar jamais de ter saudades do futuro. Sim, quero sempre sentir mais e mais nostalgia por aquilo que ainda está por vir, não somente pelo bom e o bem que já passaram. Ademais, não quero atropelar o futuro no presente por causa de qualquer erro do meu passado recente ou remoto.

Quero colher de minhas raízes passadas o que há de melhor e mais precioso e valoroso quanto a construir fundações que me mantenham capaz de sonhar e, se possível, redesenhar no presente os meus dias vindouros. Para isso, busco não negligenciar nem passado, nem presente, nem muito menos o futuro, pois são a história que o Eterno escreve a meu respeito.

É por isso que gosto de pensar o futuro ou a existência que o Soberano tem para mim como sendo a experiência acumulada, desde o meu tenro passado, de dar velocidade, dinâmica e trajetória à uma flecha.

Empurro o arco para frente, vergo a corda para trás, concentro-me nos mais nobres sentidos de vida plena conquistados em Cristo, revisito meus propósitos de vida e reconsidero meu chamado e vocação.

Trago uma vez mais à memória aquela minha oração da adolescência para que o Pai das Luzes fizesse de minha vida um milagre e que me ensinasse a viver uma vida simples, mas sem mediocidade. Confio radicalmente na Graça, conto com a sólida e inescapável presença do Parácleto, e, com convicção, solto a flecha em direção à mira.

Minha flecha, como qualquer outra bem lançada, embora frágil e vulnerável, enfrenta as intempéries do trajeto - massas opostas de ar frio ou quente, forças de ventos contrários ou de vácuos -, e rasga o percurso com suavidade e firme determinação, até chegar ao seu destino. Para isso, usa toda a energia depositada nela pela tensão do arco e da corda, e guia-se pelos conteúdos, sentimentos, memória e vocação deste arqueiro.

Se acerto, muito bem. Se não, ao menos tenho a consciência de que fiz o melhor que pude para acertar na "mosca", e continuo a sorrir para a vida certo de estar imerso na misericórdia do Eterno, cujos juízos são insondáveis, cuja mente é desconhecida, e de Quem os caminhos são inescrutáveis (Romanos 11:33-34).

Copyright © Abril 2007 Luís Wesley de Souza
(Versão Abril 2008)

------
Tela acima: Arqueiro, de Mauro Andriole. Nanquim sobre cartão, 2000.
Fonte: www.casadacultura.org

Marcadores: ,

Sexta-feira, Abril 11, 2008

American Idol: pedras clamando?


"Shout to the Lord" é cantado em duas edições
de
programa secular americano.

Neste último dia 9 de abril ocorreu algo inusitado na TV americana, no programa American Idol, de altíssima audiência.

Em duas edições do programa, para surpresa e arrepio de todos os que o assistimos, a música "Shout to the Lord" foi cantada pelos oito finalistas, além de ser ouvida e assistida por mais de 40 milhões de pessoas em cada edição.

Na primeira execussão (
veja vídeo com a primeira versão, disponível no YouTube) substituíram a palavra "Jesus" por "Shepherd" no início da música. Há rumores de que o programa fora editado para eliminar, intencionalmente, o nome "Jesus".

Houve, contudo, quem reclamasse. E na segunda vez, que foi ontem, 10/04, eles a executavam novamente, desta vez com "Jesus" (veja a segunda versão no YouTube). Enfim, os dois momentos foram especiais e fortemente inspiradores.


Quando perguntei aos meus alugos da Emory sobre o que acharam do acontecido, um deles o descreveu como "uma evidência de que a arte musical cristã pode e deve traspassar barreiras da secularidade, do cinismo e da resistência à expressão da fé nos espaços públicos".

Sem dúvida, "Shout to the Lord" é uma das poucas composições cristãs contemporâneas que se tornaram públicas e populares. Ultrapassou primeiramente as paredes das igrejas -- mofas de tantos mesmismos e repetições sem alcance social -- e se mantém entre as músicas mais longivas das paradas de sucesso nas rádios americanas.


As pedras estão clamando!

Luís Wesley

Marcadores:

Quarta-feira, Abril 09, 2008

“Em nome de Jesus, vai embora, Zé Maria!"


Aconteceu há alguns anos, mas não posso deixar
de escrever este relato que me fora feito de
um acontecimento que me estarreceu.
Talvez ainda se possa colher
lições do ocorrido.


O espancamento do guardador.

Zé Maria*, o guardador de carros estacionados nas cercanias de uma igreja protestante, já há anos prestava este serviço e ganhava uns trocados. Num dado domingo, justamente entre a Escola Dominical e o culto da manhã, Zé Maria foi abordado por três rapazes muito violentos.

Intencionando tirá-lo da área para assumirem o "pedaço", eles o espancaram ao ponto de haver sangramento na face, na cabeça e em outras partes do corpo. Enquanto isso, o povo da igreja assistia, a certa distância, ao quadro de violência.

O pedido de socorro.

Com a pouca lucidez que lhe restava, sabendo estar correndo risco de morte, Zé Maria correu em direção aos portões da igreja que, à esta altura, estavam fechados para a “segurança” dos crentes.

Zé Maria implorou para que o deixassem entrar, e, depois de desesperada insistência, algumas pessoas o puseram para o lado de dentro do portão. Ficou alí à salvo e aliviado por longos minutos, enquanto os que o espancaram ainda estavam do lado de fora do portão ameaçando matá-lo.

Pra quê se envolver?

Entretanto, uma senhora, membro da igreja, que estava juntamente com os demais observadores no lado de dentro do portão, incomodada com a situação e o envolvimento da igreja no caso, começou a ordenar-lhe que saísse do pátio do templo.

Afinal, ora vejam!, onde já se viu a igreja ter que se envolver com o sofrimento de "gente vagabunda", lidar com a violência urbana, ou mesmo preocupar-se com o direito à vida, a dignidade e a integridade humana?!

Em nome de Jesus?

“Vai embora, em nome de Jesus!”, repetia ela com intrigante empáfia, como quem vestida por mística de autoridade espiritual supostamente contida no jargão da expressão usada -- “Sai, em nome de Jesus!” --, enquanto o moço, todo ensangüentado, implorava pra que não o tirassem dali.

“Se eu sair, eles vão me matar, dona!”, dizia Zé Maria com voz de pavor a todos os participantes da igreja que estavam presenciando a cena naquele momento. Estes, contudo, se viram divididos entre a "autoridade espiritual" e a desesperada necessidade do moço.

Lançado aos lobos pelas ovelhas alegres.

Não tardou muito e, depois do mórbido silêncio que tomou conta de todos frente ao comando daquela senhora que insistia em pedir que ele saísse “em nome de Jesus”, o rapaz, com o olhar distante, confuso e perdido, saiu às pressas e desapareceu do lugar.

"Sem lenço e sem documento", Zé Maria pirulitou dali sem deixar rastros. Os igrejados, contudo, continuaram a desfrutar dos três abençoados cultos daquele domingo - dia do Senhor! - cheio de cânticos de alegria e louvor marcados por característica coreografia evangélica.

Falou-se sobre o amor de Deus "por todos nós", pediu-se pela generosidade de Deus na vida de cada um dos presentes ao culto, e, depois e acima de tudo, impetrou-se a bênção apóstólica: "Que a graça do Senhor Jesus, o amor de Deus o Pai e a consolação do Espírito Santo esteja com todos e cada um dos que amam sinceramente ao Senhor". "Amém", disseram todos.

A notícia devastadora.

Dois dias depois, o jornal da cidade informa que um guardador de carros que trabalhava no centro havia sido morto a pauladas assim que chegou em casa na segunda-feira.

Para o desespero de poucos e a indiferença de muitos, imaginou-se que se tratava do mesmo guardador de carros que havia pedido refúgio para a igreja que o colocou para dentro do portão e depois o expulsou “em nome de Jesus”.

Sobrevivência e exclusão.

Zé Maria, contudo, reapareceu dois meses depois nas redondezas da igreja. Ele havia sido confundido com a morte de outro guardador de carros. Entretanto, continua fora daqueles santos e impenetráveis portões que não se abrem para os que experimentam violência e correm para a vida na hora que mais precisam.

Que razões teria ele para entrar numa igreja que o expulsou "em nome de Jesus", quando a igreja não pediu desculpas pelo que fez? Como pode este rapaz enxergar a Graça salvadora pelo prisma de um "evangelho" que se preocupa com a salvação da alma, que se gasta no consumo da fé, que se retira da realidade e que promove uma fé sem compromisso social?

De forma mais ampla, como podem os Josés e as Marias encontrarem na igreja a "cidade de refúgio" de que precisam no momento em que estão fitando a violência e a morte? Como podem correr pela vida em direção a uma igreja cuja receptividade, naquele momento, inspirou estar na contra-mão do Reino?

Luís Wesley

________________

“Quando, pois vier o Filho do homem na sua glória, e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; e diante dele serão reunidas todas as nações; e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos; e porá as ovelhas à sua direita, mas os cabritos à esquerda. Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estava na prisão e fostes ver-me. Então os justos lhe perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? Ou com sede, e te demos de beber? Quando te vimos forasteiro, e te acolhemos? Ou nu, e te vestimos? Quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-te? E responder-lhes-á o Rei: Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes. Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai- vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; era forasteiro, e não me acolhestes; estava nu, e não me vestistes; enfermo, e na prisão, e não me visitastes. Então também estes perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou forasteiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Ao que lhes responderá: Em verdade vos digo que, sempre que o deixaste de fazer a um destes mais pequeninos, deixastes de o fazer a mim.” (Mateus 25:31-45)

__________________

*Zé Maria aqui é usado como nome fictício.


Marcadores: ,

Sábado, Abril 05, 2008

Na cama com minha amiga-inimiga

Reflexões sobre uma invasiva
relação de intimidade.

Eu e ela, ela e eu.

Tenho alguém muito íntima de mim, de longe a maior e a melhor das
amigas-inimigas que jamais pensei, imaginei ou planejei possuir. Tenho com ela
uma relação tão íntima e que se manifesta num grau de cumplicidade tal, que há momentos em que não sei se o que sentimos um pelo outro é amor, ódio ou o mais puro instinto de sobrevivência.

Tento compreender suas origens, seus conteúdos, suas faces, seus caminhos, suas notas, seus abismos, suas foices, seus remédios... Todos estes perfís me parecem óbvios e, ao mesmo tempo, obscuros e nebulosos.

Bálsamo, unhas e cobertor.

Quando ela conversa comigo, com a doçura mais desejada que minha alma possa conceber, com uma voz cujos sons e timbres são quase imperceptíveis, invado-me pela impressão de conhecê-la desde minha mais tenra infância.

O seu tom me faz lembrar da voz de minha mãe, e, por essa via, ela me faz sentir como se eu estivesse voltando à experiência e à imagem de, em resposta ao meu choro, ser colhido no colo, amamentado e embalado por aquela que me amava sem condições.

Contudo, quando ela mostra suas unhas, cujas bordas cortam como punhal bem afiado, e me faz saber que são esmaltadas por uma incrível mistura de mel e fel, antídoto e veneno, ferida e remédio, o meu impulso mais óbvio é sair às pressas, à busca de um abrigo qualquer, o primeiro que aparecer, mesmo que esse seja sobre um travesseiro e entre o colchão macio, o lençol e o ededrom que me aquecem.

Me cubro depressa como aquela criança que tem medo de “Bicho-Papão”, como se este fosse fraco o bastante e ingênuo o suficiente para não pensar em tirar ou transpor o cobertor. Que ledo angano!

Paz ou perturbação.

Aonde quer que eu vá, lá estará ela também. Me segue como um cão dependente de seu dono, ou como um dono apegado ao seu cão. Às vezes me deixa em paz, e às vezes em perturbação. Me cutuca, me instiga, me provoca, me toca, me povoa, me faz pensar, me invade, me exorta e me mata, para logo mais me consolar, me beijar e me reacender para a vida.

Ela é uma alternação que vai de uma amiga-inimiga a uma inimiga-amiga. Já tentei dizer-lhe que não mais quero conversar nem trocar idéias, mas ela é teimosíssima e extremamente persistente! Quer estar comigo, não importando onde, quando, com quem ou em que circunstâncias.

Nudez e crueza.

Aliás, diga-se de passagem, com freqüência ela invade as minhas mais profundas intimidades e privacidades. Nada há que ela não conheça em mim, e a cama costuma ser o lugar onde ela mais gosta de me fazer companhia.

Abraça-me por detrás e pela frente, entrelaça suas pernas nas minhas, sussurra nos meus ouvidos me falando coisas indizíveis, me aperta, me agita, me excita e me relaxa. Tira o meu sono para devolvê-lo logo em seguida.

Nua e crua, ela se encaixa em mim de uma tal forma e com tal leveza que, depois de um certo tempo, passo a não mais saber se há algum espaço de qualquer espécie entre nós. Me verga, me entorta, me endireita novamente, me apruma, me faz rolar, me surra, me afaga, me põe genuflexo, me redime...

Intromissão.

Intromete-se onde pouco peço sua ajuda, fala coisas sobre as quais pensei em não solicitar sua opinião, responde perguntas que formulei apenas e tão somente no íntimo e no mais absoluto silêncio, canta músicas antigas perturbadoras que pensei nunca voltaria a ouvir.

Mas, como numa mágica instantânea e paralela, ela me faz sentir em casa, como quando minha alma voava ao abrir os braços para recostar-me naquela rede da varanda da casa dos meus pais. Eu ainda era um menino sem noção de como a vida se desvendaria, mas que amava observar o vento tocando as árvores viçosas e cheias de frutas, e os pássaros silvestres pousando nelas.

O diálogo.

“Por que você não me deixa?”, eu pergunto, mas a resposta é sempre a mesma: “Oras bolas... porque você não viveria sem mim! Porque seria como um tronco cortado, morto e lançado despenhadeiro abaixo, ou como uma folha que se desprende do galho e que, a partir de então, é levada por um vento que não possui nem parâmetros nem direção. Deixe-me ficar com você, eu lhe peço”, insiste minha amiga-inimiga.

"Tá bom, tá bom... Pode ficar!", eu replico e completo: "Afinal, de você o que mais quero é a Essência que te perfuma, o Aroma que me seduz, a Graça que me perdoa, o Sangue que me alveja e o Conteúdo que me forma."

E eu me silencio e me tranqüilizo diante desta eterna parceira de cama e travesseiro: a Consciência.


Copyright © April 2008 Luís Wesley de Souza


Marcadores: ,

Quinta-feira, Abril 03, 2008

Taquaras

"O Teu nome proclama a morte do desejo. Mas há sempre aquele cheiro de coisas em decomposição, presente nos paramentos sagrados e nas vozes taquarais pastorais... Meu Deus, que é que fizeram com o Teu nome?"

Rubem Alves, no livro Pai Nosso
(Fonte: PavaZine#, Ano 1, Número 45)

Marcadores:

Quinta-feira, Março 27, 2008

ISAQUE*, O AMIGO QUE NÃO MORREU.


Exame de uma morte
que não aconteceu.


A falsa notícia e a sincera reação.

“Wesley, você está sabendo que o 'Isaque'* foi assassinado?", me perguntou alguém ao telefone, com voz embargada, sabendo que isto seria mais uma das dores a serem absorvidas por mim nestes últimos meses.

Fiquei chocado com a notícia, tive ânsia de choro pela tragédia, rolei na cama a noite toda, trouxe à memória momentos bons, travei conflitos interiores em razão dos maus momentos de explícita intolerância da igreja em relação a aquele que tinha sido meu querido amigo, companheiro e colega. Afinal, seus muitos talentos, senso de chamado e desejos de servir a Deus no ministério não foram suficientes para superar a falsa moral e a incapacidade da igreja em lidar com os diferentes.

Memória útil e oração inútil.

Lembrei-me de seu admirável, sábio, culto, e saudoso pai, e de sua mãe e irmã. Trouxe à memória toda a história passada que presenciei do Isaquinho* na infância, adolescência e juventude, daquele menino tímido, estrábico, com óculos de lentes tipo fundo-de-garrafa, braços quase sempre cruzados para trás, humilde, educado, afável, polido e extremamente inteligente.

Orei por aqueles que estavam diariamente ligados a ele no momento de seu "passamento", pedi o consolo divino, e, além disso, indignei-me ao perceber que não havia comunicação formal sobre sua morte.

O caminho da vida.

Todo este pesadelo demorou 21 horas. Foi durante este período que corri atrás da informação para ter a certeza de que não estava lidando com uma falácia. Suspeitei que algo havia de errado e inconsistente. Liguei daqui dos EEUU pra algumas pessoas no Brasil, em busca de saber se e o que realmente acontecera. Falei com dois amigos comuns, mas eles sequer tinham ouvido falar de tal morte súbita e violenta.

Ao final, minhas suspeitas, torcida e desejo estavam corretos: o Isaquinho* esteve e está "vivinho-da-silva”, como se expressou a pessoa que me trouxe a confortante boa nova. Um amigo comum ligou para o celular dele na esperança de que, vivo ou "morto", o Isaque* atendesse. Atendeu. Graças a Deus, ele não morrera, não fora assassinado, e, é claro, sequer sabia de sua própria “morte”.

A indignação.

Misturado ao sentimento de alívio e perspectiva de vê-lo novamente, fui invadido por uma indignação quase insuportável. Fiquei pensando sobre de quem teria sido esta absoluta imbecilidade que fez começar esta estória maluca, que “matou” o Isaque* e acabou colocando alguns dos seus amigos-do-coração em povorosa, dor, luto, angústia e saudade.

Teria sido uma fofoca intencional, talvez para substanciar aquele tipo de tendência tragicômico-espiritual que precisa de anti-histórias, de “exemplos” do que acontece com aqueles que eram e que pertenciam, mas que agora, supostamente, não mais são nem pertencem, e que por isso merecem morrer se possível uma morte trágica e irrelevante? Teria havido alguma intencionalidade em gerar a representação de um mórbido imaginário punitivo, do tipo "tá-vendo-no-que-deu"?

A percepção.

Talvez tenha sido uma simples confusão, uma vez que houve, sim, uma morte trágica de um outro irmão querido que chegou a ser pastor, mas que vinha enfrentando lutas atrozes com a própria dependência química da qual havia saído quando se converteu ao evangelho.

Confusão ou não, o que se sobressalta nesta estória da "morte" do Isaque* é a irresponsabilidade, a cara-de-pau com que se inicia e se espalha uma inverdade, numa espécie de prazer cultural leviano de capitalizar sobre uma suposta tragédia alheia, fazendo desta um conto, aumentando um ponto e angustiando um grupo presumidamente tonto.

As lições da morte que não foi.

Por outro lado, de quem quer que seja que tenha partido esta brincadeira idióta e de mal gosto, há lições a serem aprendidas aqui. A primeira e mais importante se relaciona com a pedagogia de se ter um amigo querido que “morreu”, com quem não mais se poderia conversar (ao menos não aqui e não agora), mas que reviveu na nossa memória, na nossa história, na nossa trajetória e jornada de vida.

A segunda lição tem a ver com a oportunidade que este fato gera de se fazer uma reflexão reconciliadora daquilo que ocorreu no passado. Neste particular, penso que a igreja, algumas vezes enquanto agente e porta-voz dos injustos julgamentos de caráter daqueles que “não se enquadram”, deveria rever suas práticas do passado e do presente. A igreja deve aprender a se arrepender enquanto instituição, bem como seus representantes, e não somente as pessoas simples que dela fazem parte.

Eu chego a pensar que a igreja mata pessoas antes que eles morram de fato: dita seus destinos, aprisiona seus talentos, difama e ofusca suas imagens, sufoca suas possibilidades, desajusta suas vidas, drena suas trajetórias, e, acima de tudo, marginaliza justamente aqueles que mais se parecem com o Jesus de Nazaré. Eu falo do Cristo que comia e bebia com os pecadores, que desafiava o establishment religioso, que se voltava particularmente contra o status quo dos farireus e publicanos. "Afinal, é bom jamais esquecer que foi sob a Lei e sob os auspícios da Moral que as autoridades judaicas reuniram a mais terrível força satânica a fim de matar Jesus" (CF).

A terceira lição é a de nos fazer refletir sobre esta absurda tendência de setores da igreja em punir os sinceros e promover os espertos. Chorei quando o Isaque* foi retirado do ministério pastoral nos anos 80, porque vi nele sinceridade enquanto outros se escondiam e se protegiam por detrás do escudo da mais deslavada esperteza e sofisma.

Ao que fora "morto", com afeto.

Ditas estas coisas pra aqueles que tem ouvidos que ouvem, quero dizer algo ao mais vivo dos amigos "mortos" de hoje. Assim, vai aqui uma palavra carinhosa a você, Isaque*: Gratíssimo por, uma vez mais, decepcionar os desejos ocultos das más línguas. Grato por estar vivo, meu amigo!

Grato por renascer e reviver dentro daqueles que o amamos, apesar das distâncias. Grato por traspassar tanto as lutas naturais da vida como as injustiças. Grato por sobreviver à dolorida experiência de ter que devolver à igreja o que ela lhe havia dado, e de manter, a todo o custo e ao longo destes anos todos, tudo aquilo que só o Eterno lhe deu e que ninguém possui direito e autoridade de tirar.

Grato por demonstrar que, ao contrário do que se quis inspirar no passado, você é capaz, sim! Muito mais capaz do que boa parte de nós que permanecemos no ministério. Parabéns pelas suas duas graduações (em Teologia e em Artes), por suas duas especializações (em Magistério Superior e em Educação), por seu mestrado (em Educação) e por seu doutorado (também em Educação). Parabéns por não precisar destes títulos todos pra se qualificar, por ser qualificado antes, durante, depois e apesar deles.

Grato por ser quem você é, Isaque*. Aliás, diga-se de passagem, no passado você esteve sob um juízo que foi justamente fruto de ser quem é. Hoje você continua sendo: "...tem de haver nele próprio algo de errante, que encontra sua alegria na mudança e na transitoriedade. Sem dúvida sobrevêm a um tal homem noites más, em que ele está cansado e encontra fechada a porta da cidade que deveria oferecer-lhe pousada" (Friedrich Nietzsche, em O Andarilho).

Mais que tudo, grato por ter mantido a convicção sobre a Quem você pertence.

Luís Wesley

_______________________
*Uso aqui o nome fictício "Isaque" para preservar a verdadeira identidade do personagem desta história.

Marcadores: , ,

Domingo, Março 23, 2008

Já são cinco anos de atrocidades.


Hoje, 23 de março de 2008, se completam cinco anos desde que o presidente George W. Bush iniciou uma guerra que não deveria nunca ter sido autorizada com base em premissas faltosas e de má inteligência.


Esta guerra já dura mais que a Primeira Guerra Mundial, mais que a Segunda Guerra Mundial, e mais que a própria Guerra Civil Americana.


Com os quatro soldados mortos neste fatídico aniversário da guerra ao Iraque, hoje completam-se exatos 4.000 combatentes americanos que perderam suas vidas nesta batalha insana, além de outros milhares que foram feridos.


Na melhor das hipótoses, esta guerra custará mais de 3 trilhões de dolares, não somente aos que pagamos impostos aqui nos Estados Unidos, mas também para o mundo. No total, por extensão, esta guerra deverá custar dezenas de trilhões de dólares para a humanidade, dinheiro que poderia ter sido investido na solução da pobreza em muitas partes do mundo, na criação de emprego, na promoção da justiça e na construção da solidariedade entre os povos.


E onde está a América com todo este sacrifício? Está menos segura e menos hábil para formatar os acontecimentos internacionais. Segundo um economista global da Emory University, entrevistado hoje pelo programa "Breaking News" da CNN, após 100 anos de superioridade econômica, a América está tendo que emprestar dinheiro de países em desenvolvimento, dentre eles o Brasil!


Além disso, a América está dividida em casa, e suas alianças ao redor do mundo foram danificadas ou se tornaram tensas. As ameaças de um novo século turbaram as águas da paz e da estabilidade, enquanto a América permanece ancorada no Iraque e no Afeganistão.


E no que tange ao Iraque enquanto nação? O país e o povo estão devastados. Mais de 4.000.000 de iraquianos já não mais vivem em suas casas. O número total de mortos e feridos em razão da invasão americana é estimado em 1.191.216 (segundo informa o site antiwar.com), i.e., cerca de 298 vezes o número de soldados americanos que perderam a vida em combate.


Os ânimos de grupos radicais iraquianos se encrudeceram e, a qualquer momento, facções sócio-polícico-raciais ou religiosas podem fazer o país eclodir numa guerra civil tão sangrenta e sem precedentes, que a profecia bíblica sobre "rios de sangue" pode se tornar realidade concreta. O Iraque está sofrendo as dores de ter que ser reconstruído enquanto povo, sociedade, relações, economia e governo, enquanto depende dos Estados Unidos para virtualmente tudo.


Em nível global, a guerra dos Estados Unidos ao Iraque trouxe custos negativos significantes para a economia e, portanto, menos oportunidade e mais pobreza. Um simples exemplo está no fato de que o preço do petróleo aumentou em quatro vezes desde então. As prospecções de impacto, a médio e longo prazo, na economia mundial não são nada otimistas, e poderão se traduzir em conflitos regionais que afetarão de vez as economias visinhas ao Iraque e os parceiros destas.


Enfim, o mundo inteiro paga o preço destes e de outros impactos gerados por uma antiga auto-determinação teimosa, militarista e atrapalhada de um único homem -- "Metodista" confesso, diga-se de passagem! -- de tornar o Iraque num campo de batalha e o mundo num barril de pólvora.


Luís Wesley


Marcadores:

Segunda-feira, Março 10, 2008

Nunca!

“Se depender de mim, nunca ficarei plenamente maduro
nem nas idéias nem no estilo, mas sempre verde,
incompleto, experimental.”

(Gilberto Freyre)

Marcadores:

Domingo, Fevereiro 24, 2008

A ORAÇÃO DE UM PROFETA MENOR



Esta oração [foi] pronunciada por um homem chamado a ser testemunha ante as nações, e foram estas as palavras que disse ao seu Senhor no dia em que foi ordenado. Depois de os anciãos e ministros terem orado e pousado sobre ele as suas mãos, retirou-se para estar a sós com o seu Salvador, no silêncio, mais além do que os seus irmãos bem intencionados o podiam levar - E disse:


"Senhor, escutei a tua voz e tive medo. Chamaste-me a uma tarefa solene numa hora grave e perigosa. Em breve abalarás todas as nações, a terra e também o céu, para que fique só aquilo que é inabalável. Senhor, nosso Senhor, aprouve-Te honrar-me chamando-me a ser teu servo. Só aceita esta honra aquele que é chamado a ser teu servo, visto ter de ministrar junto àqueles que são obstinados de coração e duros de ouvido. Eles Te rejeitaram, a Ti, que és o Amo, e não posso esperar que me recebam a mim, que sou o servo.

Meu Deus, não vou perder tempo a deplorar a minha fraqueza ou a minha incapacidade para o trabalho. A responsabilidade é tua, não minha, pois disseste: "Conheci-te, ordenei- te, santifiquei-te", e também: "Irás a todos aqueles a quem Eu te enviar, e falarás tudo aquilo que Eu te ordenar". Quem sou eu para argumentar contigo ou para pôr em dúvida a tua escolha soberana? A decisão não é minha, mas sim tua. Assim seja, Senhor; cumpra-se a tua vontade e não a minha.

Bem sei, Deus dos profetas e dos apóstolos, que, enquanto eu Te honrar, Tu me honrarás a mim. Ajuda-me, portanto, a fazer este voto solene de Te honrar em toda a minha vida e trabalho futuros, quer ganhando quer perdendo, na vida ou na morte, e a manter intacto esse voto enquanto eu viver.

É tempo, ó Deus, de agires, pois o inimigo entrou nos teus pastos e as ovelhas são dilaceradas e dispersas. Abundam também falsos pastores que negam o perigo e se riem das ameaças que rodeiam o teu rebanho. As ovelhas são enganadas por estes mercenários e seguem-nos com fidelidade, enquanto o lobo se acerca para matar e destruir. Imploro-Te que me dês olhos bem abertos para descobrir a presença do inimigo; que me dês compreensão para distinguir entre o falso e o verdadeiro amigo. Dá-me visão para ver e coragem para declarar fielmente o que vejo. Torna a minha voz tão parecida com a tua que até as ovelhas doentes a reconheçam e Te sigam.

Senhor Jesus, aproximo-me de Ti em busca de preparação espiritual. Pousa a tua mão sobre mim. Unge-me com o óleo do profeta do Novo Testamento. Impede que eu me transforme num religioso e perca assim a minha vocação profética. Salva-me da maldição que paira sombriamente sobre o sacerdócio mode