APAGÃO NO BRASIL
Que raio, que nada!
Foi um estagiário da Itaipú.
Alguém falou pra ele:
“Quando sair, desliga tudo!”
Quem precisa de raio quando se tem estagiário?
Este blog é dedicado ao exercício dos dons da liberdade, da razão, da experiência e do afeto na caminhada.
Ora, o que me importa ser senão UM BOM AMIGO NA JORNADA?

A meu ver, hoje existem néo-Alcatrazes sendo alimentadas no imaginário de muita gente. Estas novas Alcatrazes não são somente representadas por certas empresas, sociedades, ordens, clubes, partidos, status quo's, convenções relacionais ou de amizade, mas também por organismos religiosos, notadamente por estruturas eclesiásticas. Estas costumam sugerir que, fora das suas muralhas domésticas, só pode haver incerteza, ignorância, anonimato, ausência de destino, despropósito, isolamento, desvalor, paralelismo, desaparecimento, invisibilidade e/ou morte ministerial.
Cada um encheu de areia seca e fina as duas mãos que formavam uma só concha. O Cássio, contudo, sabe-se lá por que cargas d’água, sem que soubéssemos até então, pegou um tijolo partido ao meio, daqueles antigos, pesados e massudos, dando "sopa" bem ao lado dele.
Eu e ela, ela e eu.
Penso que a maneira mais honesta e criativa de entender e processar uma dada tradição cristã é focar nas perguntas complicadas do passado e do presente formuladas pela mesma tradição, com a consciência de que as respostas foram e ainda são, freqüente e necessariamente, contextuais e provisórias. Desta forma, refletir numa tradição cristã não é uma questão de obter respostas para todas e cada uma das perguntas que temos hoje, sem margens de exceção. Ao invés disto, para teólogos cristãos que querem ser responsáveis com a história, a atitude de perguntar e responder deveria, isto sim, se tornar um exercício de questionar e lutar/lidar com respostas aparentemente prontas.
É claro que a tradição cristã, por seu labor histórico, já possui uma multiplicidade de respostas, algumas das quais são e devem continuar sendo definitivas e inegociáveis. Um exemplo está nas seguintes formulações e convições da Reforma Protestante: Sola gratia (somente pela graça), Sola fide (pela fé somente), Solus Christus (somente Cristo), Sola scriptura (somente a Escritura), Soli Deo gloria (glória somente a Deus). Como já disse num post anterior, "menos do que isto deixa de ser o Evangelho do Reino; mais do que isto é borra que as confessionalidades aderem e tromboses que as institucionalidades impõem" (LWdeS, neste blog, em 11/12/07).
Penso que toda e qualquer teologia começa com perguntas muito humanas, das quais a mais importante é: "Há ordem e significado neste universo?" Penso também que, pelo fato de que muitas teologias não se mantém intactas, íntegras e holísticas – i.e., não provêem poder formativo suficiente para impedir a injustiça, a segregação racial, a opressão, a desumanidade, o genocídio, etc. (o holocausto é um exemplo clássico, mas não é o único!) –, não deveríamos discutí-las como lugares onde se desvendam questões/respostas importantes.Marcadores: ACADEMIA, ESPIRITUALIDADE, OPINIÃO, TEOLOGIA
O irmão Bush desenhou sua própria história com lápis coloridos pelos conservadorismos evangélicos do "cinturão bíblico" americano -- eivado de conceitos e preconceitos pouco cristãos --, e a caricaturou de tal forma que acabará sendo contado como o pior presidente que os EUA jamais teve. A história do mundo hoje lamenta sua ascensão à presidência e desde já agradece e sua partida do poder.Telêmaco Borba, PR, 1978, Acampamento Metodista Bispo Dawsey. Da esquerda para a direita: Vera, Lidiane, Eliane, Ediéia, Arlei, Edinei e Luís Wesley. Coloco esta foto aqui porque aqueles eram "Anos de Prata Fina", e para que aquela geração se alimente do que são nossas lembranças de Telêmaco Borba e dos jovens da Sexta RE no final dos anos 70. Recebi esta foto da Lidiane. Tive uma lembrança vívida da ocasião. A foto pode ser qualificada de “medonha”, sim, mas é repleta de significado. “Medonho” mesmo é o que nos tornamos após 31 anos!
O Acampamento Bispo Dawsey era rústico e simples, e a gente ía pra lá por muitas razões, menos à procura de conforto. Note o fundo do palco em lona ainda, paredes de tijolo sem reboco, nada terminado, tudo provisório, tema ("Em busca da maturidade cristã") e cântico (veja letra abaixo) escritos à mão em cartazes de papelão... E nós todos éramos mais simples também. Afinal, painéis refletores e retro-projetores eram coisas "futuristas", datashow e tela de plasma sequer cabiam na nossa mais criativa imaginação, e "CD" eram apenas as duas primeiras das três letras daquele adjetivo terminado com "F" que dávamos aos nerds.
E tinha muito barro! Basta observar os nossos sapatos e botas. A foto, de fato, tem a "côr" de Telêmaco da época. Quanto mais barro e frio em Telêmaco, mais aconchegante ficava. A gente trabalhava pra construir o “Recanto”, sujava a roupa, mas limpava a alma!
Olho nesta foto e esta é a pergunta que me vem à mente: Éramos mais ingênuos e mais alienados, ou mais sensíveis, alegres, livres, aquecidos e apaixonados? No que tange a mim, percebo o quanto a vida, de lá pra cá, se sofisticou em TODOS os aspectos. Saudade da simplicidade...
Entretanto, a memória do que foi caminha lado-a-lado na definição de quem somos. Afinal, "sucesso" não se mede pelo que nos tornamos, mas de onde viemos e a Quem pertencemos.
Luís Wesley
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Mais e Mais
Queremos te conhecer mais e mais,
Escolhendo os teus caminhos mais e mais.
Queremos te obedecer, procurando o teu querer,
E vivendo pra te agradar mais e mais.
Queremos, Senhor, te amar mais e mais.
Ajudando a tua gente mais e mais.
Crescendo pra sermos úteis no teu reino aqui, Senhor.
Repartindo a tua vida mais e mais.
[Luiza Cruz (1973)]
Marcadores: REFLEXÃO

Foi re-lendo Paulo Freire que consegui substanciar esta nova leitura. “Para mim, o exílio foi profundamente pedagógico”, disse Freire, e completou: “Quando, exilado, tomei distância do Brasil, comecei a compreender-me e a compreendê-lo melhor”. Guardadas as enormes proporções de todos os aspectos de diferença entre o grande Paulo Freire e o insignificante Luís Wesley, vejo paralelos e diferenças entre a experiência dele e a minha.
Uma similaridade, contudo, está na pedagogia que o exílio faz gerar na gente: “comecei a compreender-me e a compreendê-lo melhor”, observou Freire. Olho para a minha própria experiência e vejo a mesma coisa. Foi quando me distanciei do que me consternava no Brasil que comecei a compreender melhor a minha própria condição enquanto pessoa e, é claro, enquanto ministro do evangelho. Num primeiro momento, permiti enxergar-me num espelho imaginário da realidade, e o que vi me trouxe sentimentos ambígüos. Vi minhas virtudes e minhas misérias mescladas num só mosaico de cores; contemplei minha independência, bem como minha flagrante vulnerabilidade; curti minha liberdade, e me deixei doer na minha distância; apreciei meu crescimento, e lamentei algumas desconexões decorrentes justamente do fato de ter crescido; celebrei minhas conquistas, e chorei meus fracassos.
Neste meu exílio também passei a compreender melhor o Brasil e a Igreja. Há uma certa verdade prática no ditado “Quem vê de longe, vê melhor”, e esta se aplica ao meu próprio processo de vida. “Foi exatamente ficando longe [do Brasil], preocupado com ele, que me perguntei sobre ele”, disse o educador dos educadores numa entrevista ao repórter Ricardo Kotscho. E, como experimentou Freire, me pergunto sobre o que o país e a Igreja fizeram com parte da minha geração e da geração mais jovem, e o que será das gerações que hoje abraçam formas mais sutís de alienação.
O caminho, então, passou a ser o de negar-me o direito de fazer juízos de valor (i.e., julgar sobre o que possa ser correto ou incorreto baseado apenas no meu ponto de vista, classificando, somente desta perspectiva pessoal, o que seja bom ou mau, desejável ou indesejável) para dedicar e focar minhas energias exclusivamente no labor missiológico (por si mesmo dialético e multi-disciplinar). Isto me abriu avenidas para aprender ainda mais a viver uma virtude fundamental para qualquer pessoa, qualquer povo, qualquer igreja, qualquer espécie de relação: a tolerância.Marcadores: AUTO-CRÍTICA, REFLEXÃO
"Out of the blue", para minha absoluta e agradável surpresa, recebi ontem duas fotos enviadas pelo Rev. Edinei de Souza (capelão do Hospital Evangélico de Curitiba) que, juntamente com a Renilda, examinava o acervo de fotos do Bispo Wilbur e dona Grace e encontrou, segundo ele, algumas "relíquias". Segue a minha grata resposta ao Edinei.
Caro Edinei,
Paz e bem!
Que surpresa inspiradora e agradabilíssima, meu amigo! Conhecia as fotos, mas não possuía cópias destas. Permita-me, pela necessidade de se colocar um olhar mais desdobradamente extenso e profundo nelas, aproveitar para visitar outras fotos que ainda dizem o que a história tartamuda não diz.
A primeira, que mostra meus pais, Rev. Samuel & Edi, trata-se de uma das fotos que tiraram logo após o casamento. Ela, órfã de pai quando ainda "meninica", chegou a mendigar com a mãe pelas ruas de São Paulo, para depois ser, por longo tempo, criada e educada pelos padrinhos e pelo casal evangelista metodista Joel & Dasdores Medeiros. Terminou o primário e o ginásio somente depois de se casar e ter os quatro filhos. Organista, olhos azuis suaves, olhar meigo, passos curtos e rápidos, mãos hábeis, coração e hábitos simples, ela possuía uma espiritualidade solidária, apaixonada por Cristo e pelas pessoas. Costumava organizar festas e peças de Natal com presépios vivos, cujos personagens, para a consternação dos racistas igrejeiros, eram negros. Isto mesmo, em vários presépios da D. Edi, o menino Jesus, a Maria, o José, os pastores e os magos eram da raça negra e, por vezes, representados por crianças abandonadas em orfanatos. Ela morreu em conseqüência de um fungo que adquiriu enquanto trabalhava, como voluntária, com crianças de rua.
Ele, descendente de uma escrava que se casou com um português, filho de sitiantes e órfão de mãe desde aos oito anos de idade, estudou no Colégio Londrinense sob o cuidado do jovem médico João Henrique Stephen e esposa, e sob a tutoria do Rev. Dr. Zaqueu de Mello (legendário pastor presbiteriano que, mais tarde, tornou-se deputado federal pelo Paraná), a quem serviu em tudo e por quem foi entusiasticamente encaminhado para um seminário presbiteriano.
Neste seminário, um professor "ameba" o declarou, intelectualmente, incompetente e, organicamente (saúde), desqualificado para ser ministro protestante e sugeriu que, ao invés disso, fosse vender frutas na Praça da Sé, São Paulo. De coração simples e quase sempre ingênuo, fez o que o professor sugeriu. Contudo, numa certa noite, sonhou que alguém entrou em seu quarto de pensão, acendeu a lâmpada de soquete borboleta pendurada no centro do quarto e disse: "Samuel, não foi pra isso que Eu te chamei!" Em sobressalto, ele acordou, notou a porta aberta e a luz acesa, correu para a praça, vendeu a banca de frutas (a foto acima é apenas ilustração não-verídica) e foi procurar um homem de quem ouvira falar que era bondoso e acolhedor: Bispo Isaías Sucasas.
O casal Sucasas o acolheu em casa por vários meses, cuidou de sua saúde, ensinou-lhe o "português urbano", despertou nele o gosto pela leitura de literatura clássica e eclética e, depois, o encaminhou para a Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, onde foi recebido sob uma condição: seria responsável por lavar os banheiros, desentupir latrinas e manilhas e limpar as fossas da instituição. Nunca jamais fora chamado de vagabundo até os 80 anos de idade... mas esta é uma outra história que sequer merece ser contada.
Estes dois aí na primeira foto são responsáveis por nada menos que (1) minha formação e identidade na fé cristã, por (2) minha experiência de arrependimento e conversão pelo poder redentor e regenerador do Jesus Cristo de Nazaré crucificado por meus pecados, por (3) minha consciência de continuidade de avanço nos estudos, e por (4) minha iniciação na experiência internacional. Esta carta seria extensa demais -- daria um livro! -- se eu narrasse tudo o que quero dizer com isso. Minha mãe foi minha primeira discipuladora, da época em que morávamos em Jericó (1959-1964), numa Igreja Metodista plantada numa colina das montanhas da Serra do Mar, na região do Vale do Paraíba, onde vi meu pai esconder, por vários dias, líderes da Confederacão de Jovens da Igreja Metodista e da Federação de Jovens da Terceira Região Eclesiástica. Meu pai construiu em mim a cultura da dedicação exclusiva ao Reino, ainda que tivesse que correr os riscos de dar cobertura a perseguidos políticos.
Numa certa ocasião, vi meu pai prender um bandido fugitivo no escritório pastoral da Igreja de Jericó, orar pela conversão dele e, no dia seguinte, convencê-lo de se entregar à polícia para, daí, levá-lo no lombo de uma mula para Cunha, a 18 km do sertão onde morávamos. N'outra ocasião, ouvi minha mãe contar sobre meu pai que, montado na mesma mula, enfrentou gente armada na mesmíssima estrada para Cunha, porque ele resolvera, após várias pregações e muita advertência, denunciá-los ao poder público por zoofilia. Com a coragem de quem é homem-macho e a ousadia de quem é homem-de-Deus, mesmo sob ameaça à mão armada, o Rev. Samuel passou cavalgando sem titubear por meio deles dizendo que era "isto mesmo que iria fazer, quisessem ou não, para o bem deles próprios, de suas famílias, dos animais e da sociedade." Isso tudo no início dos anos 60 e no Vale do Paraíba, onde e quando uma denúncia dessas poderia significar-lhe a morte. É mole?
Foi idéia dele colocar, em honra ao fundador e mentor do movimento metodista, o nome "Wesley" na seqüência dos primeiros nomes de todos os filhos, coisa que se repetiu no que tange aos nomes dos sobrinhos e netos e, ao que parece, dos bisnetos.
Dona Grace Smith costumava colecionar fotos dos pastores e esposas. Minha mãe deve tê-la entregue à Dona Grace assim que a conheceu no Concílio Geral (Rio, 1965) que elegeu o Rev. Wilbur K. Smith como bispo da recém-criada Sexta Região Eclesiástica (Paraná e Santa Catarina), para a qual meu pai se transferiu, logo de início, sendo nomeado, imediatamente, para a linda Porto União, SC.
Foi lá que, ainda menino, tive o privilégio e a honra de conhecer alguns dos excelentes representantes dos "anos rebeldes", gente que não abraçava os comprometimentos ideológicos e políticos de certos representantes da Igreja Metodista no que tangia ao estado vigente criado pelo golpe militar de 1964 (que instituiu a ditadura): Herman Oberdick, Günter Bart e Nelson Tomasi. O Herman Oberdick, cujos pais moravam em Porto União/União da Vitória, vinha em casa para conversar com meu pai e, enquanto isso, fazia pandorgas pra mim na varanda da casa pastoral. Eu ouvia todas as conversas, e sabia, por esta via, das crises na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, e do brutal e inconcebível fechamento desta. Depois do Porto, fomos para a acolhedora Santo Antônio da Platina, PR.
Quanto à outra foto que você me enviou (a que está à esquerda), com quase toda a família (neste caso aqui, com exceção da Léa, a filha mais velha, que tinha se casado havia pouco e que, se não me falha a memória, estava em lua-de-mel), foi tirada pelo fotógrafo profissional platinense, “Seo” Tanko, na sala da primeira casa pastoral da Igreja Metodista de Santo Antônio da Platina, PR, às vésperas da nossa partida para o campo missionário do Equador. Nesta foto, eu estava com 15,5 anos, a Leila (à minha esquerda) devia estar com, aproximadamente, 12, e a Lêda (em frente aos nossos pais) com 9, se não me engano. Note a prateleira do meio, feita por meu pai em meio aos assovios, ao estilo "anos dourados".
A família missionária fora cedida pela Sexta Região, enviada pela Igreja Metodista do Brasil, comissionada pelo CIEMAL (Consejo de Iglesias Evangelicas Metodistas de America Latina), e sustentada pela GBGM-UMC (General Board of Global Ministries of the United Methodist Church, U.S.A.), sob a supervisão de um bispo que é quase uma lenda: Sante Uberto Barbieri.
Filho de “pais anarquistas italianos, amantes da liberdade e lutadores pela justiça” (metodistaonline.com), o Bispo Barbieri era órfão de nacionalidade, razão pela qual se definia como “um cidadão do mundo”. Falava 8 línguas até quando o conheci. Por aqueles que o conheciam e o admiravam, ele era tido como “Cidadão do Mundo & Cidadão do Reino”. Grande parte de sua vida foi vivida no Brasil, e, a partir dos 19 anos, dedicada à Igreja Metodista. Entretanto, após sofrer as agruras perpetradas pela politicagem eclesiástica do baixo clero metodista da época, foi-se embora para servir o Reino de Deus no Uruguai e na Argentina, onde se tornou bispo da IM.
O Bispo Barbieri -- de vida simples e marcante sabedoria acessível, de impressionante conhecimento geral e espiritualidade cristocêntrica, de extensa experiência e percepções globais -- possuia uma visão integral do evangelho e da missão. Ele formatou minha resposta ao chamado ministerial e deixou, na minha memória e cosmovisão cristãs, as mais doces inspirações que um bispo seria capaz de transferir para um adolescente extremamente tímido, que vivia longe de seu país e que, no entanto, já se entendia engajado em experiências transculturais e apaixonado pelo mundo. Por exemplo, foi dele que ouvi, pela primeiríssima vez na vida, expressões como: "O evangelho é para todos os seres humanos e para o ser humano como um todo" e "Missão global e holística". Lembro-me de ter-lhe perguntado o que significava a palavra "holística", e, enquanto caminhávamos lentamente para comprar bananas na feira-livre de Santo Domingo de los Colorados (ele amava banana nanica!), ouví-lo responder com a paciência e com a simplicidade de um vovô dotado de intuição pedagógica que enche sua resposta de exemplos e histórias de vida.
Meus pais e irmãs permaneceriam por alguns anos no Equador e, depois, seguiriam para a Colômbia, onde o Rev. Samuel se tornaria Superintendente Geral (o equivalente a bispo) da Igreja Metodista colombiana. O “nosso” Bispo Wilbur K. Smith, juntamente com a D. Grace (ambos Asburyanos), foi o único bispo metodista brasileiro a visitar a família missionária. Muito antes disso, nos anos 60 e 70, Dona Grace foi responsável por encorajar minha mãe a continuar estudos e se tornar normalista, alfabetizadora e professora. O Bispo Wilbur costumava nos contar sobre o impressionante avivamento de 100 dias ininterruptos ocorrido no campus do Asbury College e Asbury Theological Seminary em 1970. (Uma série de ducumentários e testemunhos estão disponíveis no YouTube.Com). "Foi como se os céus se soltassem a partir de um culto das 10 da manhã do Asbury College", dizia o Bispo Wilbur, repetindo o slogan comumente usado até hoje para descrever o acontecido, o que plantou em mim uma semente que me faria, mais tarde, tornar-me um Asburyano também.
Tornei-me membro da Igreja Metodista Central de Curitiba (1986), onde conheceria aquele que se tornou o meu maior e melhor amigo, discipulador e mentor: Douglas R. Spurlock, um genuíno companheiro na caminhada, do tipo "amigo mais chegado do que um irmão" (Provérbios 18:24b) e que se transformam em "coisa (sic) pra se guardar debaixo de sete-chaves dentro do coração" (Milton Nascimento). Pena não ter uma foto virtual do Douglas & Joyce comigo aqui. Quando o conheci, ele era missionário do SEPAL (Serviço de Evangelização Para a América latina). Juntos, fundamos a SETE (Sociedade de Estudantes de Teologia Evangélica) e, através desta, conheci, convivi (ocasionalmente) e aprendi muitíssimo do Dr. Russell Shedd, expositor bíblico e escritor. Mais tarde, nos anos 90, juntamente com a esposa Joyce e os seus irmãos, Douglas Spurlock criou uma fundação que me sustentou durante meus estudos na University of Kentucky (1996) e na E. Stanley Jones School of World Mission & Evangelism of Asbury Teological Seminary (1997-2001) e, depois, como professor e co-fundador da Faculdade Teológica Sul Americana (2001-2004).
Retomando, de Curitiba segui para Maringá em 78, enviado pelo Bispo Wilbur como o primeiro aluno “pré-teológico” da IM. Fui uma espécie de cobaia, é claro, mas foi uma das melhores coisas que me aconteceram na minha formação! Morei com o Rev. Valdir Peres Marins e Dona Elda, com quem aprendi a virtude de ver o Reino além e apesar da igreja. Eles me apresentaram para gente muito querida, dentre eles o Pr. Paulo César Bornelli, dentista e ex-pastor presbiteriano renovado, que me influenciaria em minha percepção de como se pode e se deve "fazer tendas" enquanto se serve a Deus no ministério da igreja. Bornelli também me ensinou a ver a Deus como Pai e a entender melhor o que significa ser discipulo do Cristo da Galiléia.
Depois, fui para a Faculdade de Teologia em Rudge Ramos, São Bernardo do Campo, SP. De lá fui nomeado pelo Bispo Richard dos Santos Canfield para três igrejas: Apucarana, Arapongas e Jaguapitã. Deixei amigos eternos em Apucarana. Recebi depois novas nomeações: Florianópolis, Central de Londrina e Santo Antônio da Platina, onde passaria um tempo delicioso de proximidade com meus pais.
Rev. Caio Fábio de D'Araújo Filho que, além de me ter convidado e dado o privilégio de aprender e trabalhar pessoalmente com ele, também abriu as portas do coração. Com extrema e inesquecível afabilidade, valor e respeito, o Caio pavimentou avenidas já construídas em mim para a vida e o mundo cristão brasileiro e internacional, justamente numa época em que eu ainda me submetia a intenso acompanhamento oncológico e sequer sabia se viveria o suficiente para ver meus flhos crescerem e se tornarem adultos. Foi por causa do Caio que ouvi falar intensamente do Dr. Leighton Ford, cujo ministério bancava os retiros dos 40 pastores (início dos anos 90) que compunham um grupo do qual eu fazia parte. 
Fui para o Asbury e, lá, encontraria muita gente de Deus: Howard A. Snyder -- amado professor, orientador e mentor acadêmico, teólogo, eclesiólogo e historiador preferido, ex-missionário da Igreja Metodista Livre no Brasil --, Darrell Whiteman, Samuel Kamaleson, George Hunter III, Maxie Dunnan, Mathias Zahniser e, é claro, B. David Dinkins, um homem bom, generoso, conselheiro encorajador e companheiro acolhedor.
Foi quando estava no Asbury que recebi três "awards" (prêmios) por excelência acadêmica conferidos pelo Leighton Ford Ministries e a Foundation for the Carolines. Tais "awards" me colocariam em relacionamento pessoal com o Dr. Ford, cunhado e companheiro de trabalho do Rev. Billy Graham. Após receber o terceiro "award", Leighton me convidaria para fazer parte do seu grupo pessoal de mentoria. Encontramo-nos à cada ano nas montanhas da Carolina do Norte, e deste grupo desejo jamais sair. Leighton Ford é um artista da alma e outro importante companheiro na jornada.
Minha vinda para a Emory University, Candler School of Theology, onde procuro dar minha contribuição à Igreja em várias partes do mundo através de docência no campo da missiologia, tem tudo a ver com duas pessoas: o conhecido historiador, ministro e teólogo wesleyano, Dr. Russell Richey, reitor da Candler na época, e a pesquisadora e escritora, Dra. Elizabeth M. Bounds, coordenadora da Divisão Graduada de Religião da Emory. Bounds procurava alguém que representasse o perfil desejado pela universidade para fazer um pós-doutorado em Teologia Prática e Práxis Religiosa, e Richey procurava alguém para tornar-se o catedrático da área de missão e evangelismo na Emory. Apesar de não me conhecerem pessoalmente
O Dr. George Morris, na época já aposentado, embora cobrisse temporariamente a saída do ex-catedrático da área, foi fortemente usado pelo Eterno para me convencer a cessar meu envolvimento com alguns dos projetos, a meu ver, mais relevantes que eu tinha no Brasil (FTSA e Instituto Jetro) e vir para a Emory. Ao Dr. Morris devo também a retomada da auto-estima, reconstruída num contexto de companheirismo, de muita conversa, de oração e de encorajamento para ver mais além de mim mesmo e dos "caixotes-eclesiásticos" e olhar para a vastidão do mundo. Ao fazer isto, ele sempre me lembrava de dois dizeres de John Wesley: "O mundo é a minha paróquia" e "O melhor de tudo é que Deus está conosco".Marcadores: CURIOSIDADES, FAMÍLIA, REFLEXÃO
[1] At 20.23
[2] 1Tm 6.10
[3] 1Co 4.-9-13
[4] Gl 2.4
[5] Rm 7.19
[6] 2Co 10.10
[7] Gl 4.13-15
[8] 1Tm 5.23
[9] Fp 3.8
[10] At 19.12
[11] At 17.18
[12] At 17.11
[13] 2Tm 1.6
[14] 1Tm 4.1
Marcadores: CITAÇÃO
Para mim, enquanto líder cristão, haverá sempre a sutil tentação de encarar projetos e visões que "dão certo" como meio e fim em si mesmos. Pior do que isto é a tentação de permitir que o sucesso destes acabe por desenhar e dar suposto sentido à minha vida pessoal, ao meu ministério e, em última análise, à minha própria história. Tais tentações podem relacionar-se com as ênfases que dou ou com os métodos que emprego, seja para viabilizar o crescimento de uma igreja ou para progredir numa carreira.
De antemão, quero parabenizá-lo pelo texto. Ele é uma verdadeira ironia com características proféticas, ou se preferir, uma profecia com características irônicas. Sei que muitas pessoas não entenderão o que você expressou, mas não importa, afinal, o mundo plural no qual todos estamos inseridos permite-nos pensar qualquer coisa. Kyrie Eleisson
Seu texto combina com o aforismo de T. S. Eliott, tão citado por Rubem Alves: "Em um país de fugitivos, quem anda na direção contrária parece que está fugindo". Grande paradoxo esse, não acha? Como é interessante notar que as pessoas que se despontam com o único intuito de expressar ética e integridade no cenário eclesial são tratadas com indiferença, seguida pela lacônica expressão: "está em crise" – jargão que determina, em suas entrelinhas: “não possuo argumentos”. Kyrie Eleisson
Mas eu quero a crise! Quero vivê-la com toda a intensidade! Quero percebê-la, não no seu outro sentido mandarim - oportunidade. Quero me apropriar dela no seu sentido mais latino e passional, ou seja, sofrimento e inquietação.
Estou, assim como você, remando contra a maré. E com a nau caotizada pelos furos e intempéries das águas e das chuvas ácidas.
Entretanto, quero me dirigir aos céticos espirituais, quem sabe por causa de um restolho de esperança presente em minha alma angustiada:
Sei que os impressionados com os jargões evangelicais dirão: olha, aí está um pastor sem visão. Por favor, não se enganem! Orgulho-me de não ter visão (literalmente dizendo), mas continuo a me humilhar ante a luz daquele que é muito maior que todas as minhas insignificantes mediocridades. Não se enganem, pois tudo isso que em mim acontece me remete a uma consciência plena de liberdade e gratuidade. Acho, entretanto, que as pessoas, principalmente as ligadas ao cristianismo se esqueceram da tônica dessas manifestações de Deus. Kyrie Eleisson
Liberdade e Graça estão diretamente ligadas à idéia do amor de Deus, que se revela na simplicidade de cada momento e nos convida para um desenvolvimento relacional e até mesmo paritário. Esse Deus não quer ser manipulado ao bel prazer ilícito dos que vociferam continuamente contra as pessoas de bem. Nessa mesma linha, o Kíwitz afirma que Deus não é um ventilador para ser manipulado. Ele é vento que sopra onde quer. Aliás, acho que a maioria dos evangélicos não gosta muito dessa idéia de Deus como vento. Eles preferem o ventilador e quanto mais pequenino melhor, pois se pode movimentá-lo com mais facilidade - Kyrie Eleisson.
Preciso ainda confessar, que em muitos momentos gostaria de não ter pudor evangélico. Pelo menos poderia xingar um "palavrão" com o intuito de revelar, no mínimo, minha indignação ante ao lixo em que se torna o evangelho no Brasil - generalizando mesmo. Nunca se ouviu falar tanto de "homens" e "mulheres" "de Deus", como se isso credenciasse qualquer pecador perdoado a um patamar superior, como crentes de primeira classe. Quero a cruz!
A bem da verdade, acho que preciso "vomitar" muita coisa, principalmente os absurdos engolidos ao longo de uma trajetória de fé. Encontrei-me com a graça de Deus na vida e, posteriormente, na Igreja Metodista. Observei e me espelhei em pastores e pastoras, em irmãos e irmãs que vivenciavam suas experiências de fé e conquistavam suas igrejas pela simplicidade e carisma. Vi ministros não tão eloqüentes, mas que vivam com intensidade a dimensão da graça... Só graça... E me encantei com isso.
Mas a senhora, inescrupulosa e prostituta, conhecida também pelo nome de mediocridade sobressaiu nos púlpitos dessa igreja ainda amada que perde, cotidianamente, o sentido de ser.
Como diria a Adélia Prado:
"Tudo está na esfera do religioso, não tem jeito de fugir..." "Eu vi um documento esses dias, o documentário se chama Fé, sobre as manifestações religiosas no Brasil, então pegaram umas velhinhas lá em Canindé, mas aquelas velhinhas mesmo, espertinhas, e o repórter perguntou pra uma delas: 'Por que a senhora está aqui em Canindé? ' - 'Ah! Vim agradecer uma graça, meu filho, porque neste mundo a gente tem que sofrer, tem que sofrer. ' Qualquer psicólogo modernoso vai falar: 'Ai, que complexo de culpa! Leva essa mulher logo... ' Não, ela está certa! Ela estava falando 'tem que sofrer' com a cara mais feliz, mais iluminada do mundo!" (Adélia Prado).
Somente faria uma adaptação à crônica de Adélia - pífia pretensão a minha, mas necessária - 'Qualquer pastor modernoso vai falar: Ai, você não pode dizer assim. Você é mais que vencedora! Leva essa mulher para uma campanha de oração! '
Triste ironia a nossa, não acha?
Mas ainda bem que existe apocalipse.
Valeu mano, por provocar em minha mente insana essas palavras emblemáticas.
Moisés Coppe
Marcadores: CARTAS
Já fiz isso em outras ocasiões – a última vez há seis anos – e não incluí na conversa o adjetivo “bem sucedido” porque eu achava que pastorado não combinava com “sucesso”. Mas eu estava enganado. Os tempos são outros! Por isso, mudaria minhas orientações.
Primeiro passo: Seja esperto. Você já está com 25 anos e sem perspectiva de vida. Não consegue entrar para universidade pública, não tem um bom emprego. É um bom rapaz, apesar de ser um pouco preguiçoso. Não quer ser pastor? Veja, que alternativa você tem? O mercado de trabalho não vai te absorver tão cedo! Como pastor solteiro você terá, de cara, salário, casa, água, luz, ajuda para transporte, plano de saúde e até seguro de vida. Chamado? Deus já te chamou, rapaz! Só você não percebeu. Olhe as circunstâncias. Olhe as suas necessidades. O mundo está cada vez mais religioso e nós, evangélicos, estamos crescendo neste país. Você vai ficar de fora? Pense bem!
Segundo passo: Apareça. Agora que Deus te chamou, você vai precisar da recomendação da igreja local. É importante que você tenha visibilidade na comunidade. Se você toca algum instrumento, ótimo! Se não, cante no ministério do louvor. É um ministério concorrido, mas eu garanto que para você não haverá escala – você “ministrará” em todos os cultos. Entenda por “ministração” aquela falação entre uma música e outra, com chavões indispensáveis para impressionar a congregação e alguns gemidos com mudança da voz. Mas não se preocupe. É só a gente arranjar alguns dvds de ministérios de louvor famosos e você aprende tudo em duas horas. Aliás, guarde bem o que te digo agora: sempre que puder compre cds e dvds de músicas evangélicas. Esteja por dentro de tudo sobre o “mundo gospel”. Se tiver de escolher entre comprar um livro ou um cd, nunca hesite: compre o cd, ele te ajudará mais. Voltando para a questão da visibilidade, devo te exortar: nunca apareça na congregação da periferia ou da zona rural, nunca apareça no hospital para visitar os enfermos, nunca apareça na cadeia para visitar os presos, nunca apareça na casa dos irmãos para visitá-los – mesmo se estiverem enfermos ou forem idosos, nunca apareça nas atividades dos ministérios que trabalham com proclamação, evangelização, missões ou ação social. Nada disso dá ibope, meu filho! Lembre-se: você precisa da recomendação para ingresso no pré-teológico. Com menos de um ano, aparecendo assim como estou orientando, garanto que toda comunidade votará favorável a você.
Terceiro passo: Seja dissimulado. No pré-teológico você será avaliado para ver se tem condições de entrar para Faculdade de Teologia. Você terá de ler os textos indicados e freqüentar todas as reuniões. Como ninguém te conhece e ao final de um ano você terá passado algumas horas com outros candidatos e uns professores, dá para enganar. Não fale demais. Ouça com atenção. Em qualquer discussão, nunca seja o primeiro a falar; preste atenção nas falas e tente concordar com todos, passando uma impressão de conciliador – no popular, “em cima do muro”. Tente passar a imagem de que você é estudioso. Na entrevista com o diretor mostre firmeza e certeza do seu chamado. Na entrevista com a psicóloga, cuide para revelar-se liberal especialmente se houver perguntas sobre sexualidade. Depois, virá o vestibular, que não é um “bicho de sete cabeças”. Ah, é preciso contar com a sorte também!
Quarto passo: Seja um louco-irresponsável-puxa-saco. Você vai estudar quatro anos na Faculdade de Teologia em São Bernardo do Campo. Aproveite bem esse tempo, ele não volta mais. Mas aproveite do modo certo. Primeiro, liberte-se do mundinho de moralidade que foi sua igreja local e sua família. Esteja aberto a qualquer experiência sexual ou com drogas que te traga prazer ou te faça “transcender”. Quem sabe você fará a grande descoberta de que está “no armário” e precisa sair dele. Ou, se não for o seu caso, e tiver sorte, consiga casar-se para “legalizar” o “relacionamento”. Busque todo prazer e arranje uma teologia para justificar esse modo de vida. Cuide para não se viciar, porque depois de quatro anos você retornará à sua região de origem para ser pastor. Segundo, não estude. Ou, como se fala em todos os tempos, “pique o fumo”. Aluno de Teologia não é reprovado. E o que importa é o diploma de Bacharel em Teologia que você exibirá orgulhosamente em alguma parede. Então, seja medíocre mesmo. Tenha a honra de dizer o que disse um aluno no culto de formatura para um amigo meu há quatro anos: “terminei o curso de Teologia e não li quatro livros inteiros”. Ou o orgulho de tantos outros que passaram por lá e hoje dizem de boca cheia: “passei pela Faculdade mas ela não passou por mim”. Terceiro, comece a treinar a habilidade de “puxar saco” de quem está acima de você: professores, reitores, componentes de conselho diretores, superintendentes distritais, bispos. Você terá muitos concorrentes nesse treinamento, mas esmere-se, porque seu futuro vai depender disso.
Quinto passo: Seja um gerente. Agora você vai assumir sua primeira igreja. O material para sua leitura diária deve ser tudo que você conseguiu juntar sobre estrutura e funcionamento da igreja, administração e liderança. Se possível, faça alguns cursos rápidos como: vendas, porque o Evangelho que você vai pregar é como um produto que precisa ser apresentado convincentemente para ser comprado; marketing, porque sua igreja vai precisar criar necessidades nas pessoas para freqüentarem os cultos. Faça seminários de fins de semana com os pastores de sucesso sobre como dobrar a arrecadação da sua igreja. Enfim, existem cursos e farto material para transformar você num grande manager. Porque o que importará quando você for avaliado será o “resultado”, que é culto lotado de gente e aumento da arrecadação – obviamente não como fruto da fidelidade a Deus, mas por sua habilidade gerencial.
Sexto passo: Seja um líder ditador. A membresia da Igreja Metodista não admite um/a pastor/a que ouve, é democrático, é conciliador e não abre mão de presidir, dirigir a comunidade. Ela prefere um/a pastor/a “banana”, aquele/a que não dirige nada, não se posiciona e deixa a comunidade na mão de um grupinho “que faz” – desde que tenha algum poder de influência, seja econômico ou de conhecimento – ou prefere um/a pastor/a ditador/a, aquele/a que centraliza tudo, não ouve, manda, faz a agenda para seus “súditos” cumprirem. Prefira, jovem, ser o ditador. Combina mais com o quinto passo dado. Aliás, apesar da ditadura ter acabado no Brasil há mais de vinte anos, ela está de volta na América Latina com uma nova roupagem, arrancando elogios de muitos “democratas”!
Sétimo passo: Seja um animador de altar. Você será um palrador, um tagarela, mas nunca um pregador. Esse “tipo” de pastor/a, que ainda teima em pregar a Bíblia, está fora de moda, vai acabar. Para ser um bom animador de altar, ou palco – algumas igrejas já não têm altares – é preciso: Primeiro, ter um bom grupo de louvor. Leia de novo o segundo passo nomeado “apareça”. Esse grupo será tão importante que muitas vezes você nem terá o trabalho de falar; as pessoas vão “sentir” Deus e vão ficar na sua igreja. Segundo, não preocupar-se com a Bíblia. Ela, a Bíblia, é sua grande desconhecida. Você nunca a leu toda. Ela vai te servir como material decorativo e algumas vezes como amuleto. Mas, antes de falar, leia um texto ainda que você nada fale sobre ele. E se por acaso for falar sobre algum texto, não se importe com o contexto em que foi escrito. Leia os fatos históricos do Antigo Testamento sempre como analogia para interesses individualistas da sua congregação e transforme Jesus Cristo num grande milagreiro como fazem os tagarelas da confissão positiva e teologia da prosperidade. Uma boa mensagem também é aquela retirada de manuais de auto-ajuda. Você pode ler um salmo como pretexto para tagarelar e vai fazer um grande sucesso se aprender a psicologizar sua tagarelice. Mas cuidado. Evite os versículos de lamento e confissão de pecado. Terceiro, usar “chavões” e berros para impressionar a congregação. Preste atenção: até a saudação já virou um chavão e um identificador do “pregador ungido”. Se você disser um “boa noite” no lugar de um “a paz do Senhor” corre o risco de não ganhar a simpatia dos fiéis. Ao ler qualquer texto e em qualquer falação use estas palavras (e os verbos correspondentes): unção, vitória, alegria, glória, conquista, promessa, saúde, cura, prosperidade, diabo, bênção, maldição, etc... Se você agüentar tagarelar aos berros, melhor. Se não, guarde-os para as frases de efeito, por meio das quais você convencerá os ouvintes. Aí você os verá levantando as mãos, dizendo “amém” e “aleluia”, batendo palmas, mesmo que tenham acabado de ouvir uma grande bobagem.
Oitavo passo: Celebre os sacramentos a seu bel prazer. Nunca use qualquer ritual para tais celebrações. Tire tudo da sua cabeça sob a inspiração do momento, pois o que mais vale é a espontaneidade! Que a Ceia do Senhor não seja mais que um pequeno “anexo” ao final de um culto que teve mais de uma hora de “louvor” e mais uma de tagarelice. Quanto ao Batismo, atenção! Não estude com os/as batizandos/as sobre conteúdo e forma desse sacramento. Apenas pergunte de que jeito ele/a quer ser batizado: aspersão, imersão ou derramamento? Sobre a administração do mesmo às crianças, faça o que você achar melhor. Há pastores que batizam. Há outros que não batizam e pregam contra o batismo de crianças. E todos são metodistas! A Igreja Metodista aprovou a participação das crianças na Ceia do Senhor desde o início dos anos 90. E o fez porque sempre recebeu as crianças no Corpo visível de Cristo – a igreja local – por meio do Batismo. Por serem batizadas, as crianças são convidadas à Mesa do Senhor. Contudo, a falta de Batismo para crianças fez surgir uma prática que não existe em nenhuma Igreja Cristã séria na face da Terra: a participação de não batizados/as na Santa Ceia. A Igreja Metodista foi muito responsável ao trabalhar a inclusão das crianças por meio dos únicos sacramentos por ela celebrados. Mas, se pastores/as e pais excluem as crianças do Batismo, com que consciência admitem a participação delas na Ceia? Não é uma questão teológica séria? Mas não se preocupe, jovem candidato ao ministério! Isso é demais para sua cabeça! Se você não entende e nem se importa, como vai ensinar? Deixe as coisas como estão. Sacramentos têm a ver com a história e a tradição cristãs. Mas, hoje, quem se interessa por isso?
Nono passo: Seja sectário. Você está proibido de ler, pelo menos, três textos de J. Wesley: “Carta a um Católico Romano” e os sermões “Contra o Sectarismo” e “O Espírito Católico”. Demarque bem a linha divisória dos que “são abençoados” e dos que “não são abençoados”, justificando que você e sua igreja receberam uma “nova unção” que outras igrejas não têm e que por isso todos devem vir para a “sua” igreja se quiserem ser “abençoados”. Não esqueça de gastar bastante tempo em suas tagarelices falando contra a Igreja Católica. Seja anti-católico como um apaixonado torcedor de futebol torce contra o time adversário. Alimente o anti-catolicismo com as histórias de perseguição sofridas pelos nossos antepassados protestantes, de tal maneira que gere entre os fiéis rancor, ódio e sede de vingança. Você vai contribuir para a intolerância crescente dos dias atuais.
Décimo passo: Guarde os pecados alheios como “trunfos na manga”. A Igreja de Cristo é santa e pecadora. Homens e mulheres são pecadores/as salvos pela Graça de Deus. No decorrer do seu trabalho muitos serão os pecados que você cometerá e que outros cometerão contra você. E você sabe que Deus perdoa pecados. Ele, em Cristo, reconciliou consigo o mundo. Mas como essa conversa sobre perdão é para gente simples e humilde, que não perdeu o coração, então esqueça. Você estará em outro nível, rapaz. Deus perdoa, mas você não! Pelo contrário, revide, vingue! E como muitas vezes não dá para revidar ou vingar na hora, então guarde os pecados dos outros como “trunfos na manga”. Mais tarde você vai usá-los. Para você, jovem, que deseja ter sucesso e crescer, aprenda cedo esse “jogo” do poder. É o que os antigos chamavam de ter “rabo-preso”: manter pessoas sob controle pelo conhecimento que se tem de pecados do passado ou do presente. Só tenha cuidado para não descobrirem os seus pecados também. Mas se descobrirem-nos, não se afobe. Você apenas estará no círculo de pessoas que têm “rabos-presos” umas com as outras. É só fingir que está tudo bem e todos se mantêm como estão!
Décimo-primeiro passo: Busque os seus direitos. Se algum dia você se sentir ofendido ou injustiçado, busque seus direitos. Mas lembre-se: você não perdoa, não há possibilidade de reconciliação, você não pode “sair perdendo”. Quem “pisar na bola” com você vai pagar caro. E não adianta tentar resolver o problema “entre os santos” (haverá algum?) como o apóstolo Paulo aconselha. Vá para a justiça comum. Vá para a mídia escrita e televisiva – de preferência com repercussão nacional. A má fama das igrejas evangélicas no Brasil e a formação secularizada de muitos juízes são dois fatos que te farão sair em vantagem em qualquer processo. Você poderá até ganhar uma boa grana! Depois de todo estardalhaço vão reconhecer que você é corajoso. Então você volta ao “seio da amada igreja” ainda mais forte com a testa escrita “cuidado, não mexam comigo!”
Pode ser que a lista de passos a serem dados para você se tornar um pastor metodista de sucesso seja bem maior, mas vou ficando por aqui.
Agora, se tudo isso não enche os seus olhos, rapaz, há um outro caminho. E te digo de uma vez que é estreito e espinhoso. Quer saber?
Você terá de receber o chamado de Deus para aventurar-se na vida sacerdotal e ministerial. Você terá certeza do chamado. Junto com a certeza você terá dúvida. A dúvida será fruto do sentimento de indignidade, de incapacidade e inadequação: “Eu não sei falar”, “Eu sou o menor na casa de meu pai”, “Não passo de uma criança”, “Ai de mim, estou perdido, sou homem de lábios impuros”... A dúvida estará presente sempre, podendo chegar ao ponto de você dizer “fui enganado” ou “persuadido” ou “seduzido” por Deus, “já não falarei no seu nome”. Seu inimigo não será a dúvida, mas o medo. Por isso, necessário será ouvir dEle continuamente: “Não temas, eu estou contigo!”
Você terá de ser você mesmo, se assumindo como “pecador salvo pela graça de Deus”.
Você terá de ser normal, responsável e aberto para amizades saudáveis.
Você terá de ser fiel àquelas tarefas que um/a pastor/a deve fazer sem que ninguém veja: a oração, a leitura da Palavra e a orientação espiritual.
Você terá de trabalhar como cooperador de Deus, “plantando e regando” e deixando por conta dEle o “crescimento”. Como canta o grupo Logos “até porque resultados não são o indicador verdadeiro de aprovação. Há quem curou e o diabo expulsou mas Jesus nunca o conheceu” (do cd “Conteúdo”).
Você terá de celebrar os sacramentos e pregar a Palavra de Deus tendo a tradição e a história cristãs como instrumentos de inspiração e avaliação para a caminhada de hoje, sem ser denominacionalista – como aqueles que se arrogam ser os “mais metodistas” – nem sectarista – como aqueles que se sentem “donos” da salvação.
Você terá de perdoar os que te prejudicarem, assim como você tem sido perdoado por Deus em Cristo Jesus. Isso vai depender de você se colocar humildemente diante do Pai e abrir-se ao poder curador de sua Graça, desistindo do “direito de não perdoar”, como dizia o Dr. David Seamands. Não é fácil, especialmente se você for “ferido na casa de amigos”.
Como você pode ver, jovem, o que precisamos fazer é conseqüência da Graça de Deus revelada em Cristo e atualizada em nós pelo Espírito Santo.
Esse caminho é bem mais difícil por causa do nosso afastamento de Deus, da nossa autoconfiança, da nossa soberba, da nossa sede de poder, da nossa busca de reconhecimento a todo custo, do abandono da nossa condição de pecadores/as, e tantos outros tropeços, buracos, curvas que nós mesmos acrescentamos ao caminho.
E o “prêmio” desse caminho não é “o sucesso”. Quem nele seguirá?
“Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência, de que com santidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria humana, mas na graça divina, temos vivido no mundo, e mais especialmente para convosco.” (Paulo – 2 Co 1.12)
“Ora, o Deus de toda graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortalecer e fundamentar. A ele seja o domínio, pelos séculos dos séculos. Amém.” (Pedro – 1 Pe 5.10,11)

Luís Wesley - Há alguns anos perguntei ao querido amigo Valdir Steuernagel sobre quais eram, no entender dele, os maiores desafios da igreja brasileira no que se refere ao desenvolvimento de liderança. A resposta foi ampla, porém precisa, desafiante e inspiradora: "[1] Crescimento da Igreja com vistas à 'segunda hora'; [2] A Igreja precisa continuar a crescer e, ao mesmo tempo, avaliar as conseqüências de seu crescimento; [3] Olhar as conseqüências éticas do crescimento da Igreja, ou seja, em que dimensões nossa sociedade está diferente em função do fato de que a Igreja está crescendo? [4] Redescobrir a tradição de ser a igreja da Palavra, enquanto se confronta a tentação de ser a igreja do mercado; [5] A fé cristã em relação ao crescimento de uma mentalidade religiosa relativista; [6] A cultura da geração mais jovem e a necessidade de estabelecer uma igreja que experimente estabilidade e comunidade". Para mim estas questões são cruciais quando penso no ministério do Instituto Jetro como agente de mudança, como frente facilitadora de formação de novos líderes e como iniciativa que não deixa de se preocupar também com os líderes que já exercem funções chaves nas igrejas e em organismos cristãos.
[Líderes cristãos não poderiam ser guiados apenas pela intuição própria?]
Luís Wesley - A intuição é uma das marcas extraordinárias dos líderes cristãos brasileiros. É no campo da intuição que nos tornamos mais abertos para a ação soberana e criativa do Espírito Santo. Há, contudo, um grande perigo quando colocamos demasiada confiança na nossa intuição. Se formos apenas intuitivos em nosso ministério, negligenciamos o fato de que o Espírito não se prende à intuição humana. O Espírito Santo vai muito além, e isto inclui dar a cada cristão dons e ministérios que surpreendem por sua contemporaneidade e aplicabilidade contextual. Daí a necessidade de se encontrar sabedoria na multidão de conselheiros, [i.e.,] de Jetros [contemporâneos]! Neste sentido, a equipe do Instituto Jetro sente-se altamente entusiasmada quando age para capacitar e acompanhar líderes em várias frentes de abordagem que outrora eram tabus, mas que agora estão sendo encaradas como úteis, relevantes, redimíveis e aplicáveis ao ministério cristão na realidade brasileira.
Luís Wesley - Recuso-me a pensar e tratar as igrejas como "empresas". A história demonstra que, cada vez que as igrejas foram vistas [nesta categoria ou equivalência], ocorreu trágica redução de sua natureza como comunidade missionária a algo tão pequeno que sequer lhe daria a dignidade de ser chamada de Eclésia. A Igreja não é mera organização, mas, antes de tudo, um organismo vivo. Ela é o Corpo de Cristo, comunidade de dons e ministérios gerados pelo Espírito, família que se governa pelo amor do Pai, povo de sacerdotes enviados para a missão.
Gosto muito da maneira holística pela qual o bispo [anglicano] Robinson Cavalcanti a definiu em um de seus artigos na Revista Ultimato: "A Igreja, de origem divina e composição humana, é um mistério, um povo e um pacto: una, santa, católica e apostólica. Ela não é o reino de Deus, mas expressão, vanguarda, antecipação e sinal deste mesmo reino. Criada segundo o coração de Deus, dentro da economia da salvação, ela é formada por gente, com suas personalidades, temperamentos e histórias de vida, situada no tempo e no espaço, na cultura e na conjuntura" [Robinson Cavalcanti, “Os cristãos e o estado da Igreja”, Revista Ultimato, ano XXX - # 248, pág. 57].
[O que se pode derivar desta forma de definir a Igreja?]
Luís Wesley - A primeira lição desta forma integral de pensar é que, ao mesmo tempo em que é "de origem divina", a Igreja é também de "composição humana". Dentre outras coisas, isto significa dizer que a Igreja é um fato espiritual e um fato sociológico. Como fato espiritual a Igreja obedece, inegociavelmente, às orientações do seu Senhor expressas nas Escrituras Sagradas. Como fato sociológico e, portanto, como organismo sociologicamente entendido e avaliado, a Igreja tem satisfações a dar à sociedade, sejam estas de natureza ético-moral, relacional, contábil, organizacional e mesmo legal. Prova disso é que, por contingência contextual, as igrejas locais no Brasil possuem CNPJ. Tudo isto, contudo, precisa fazer sentido no que tange à nossa participação na missio Dei. Penso, então, que as igrejas precisam, sim, estar mais bem organizadas, não por razões empresariais, mas por razões de sua natureza missionária. Estar organizada não significa tornar-se empresa. Significa, isto sim, permanecer "situada no tempo e no espaço, na cultura e na conjuntura". A Igreja existe [e se formata] em contexto.
Fonte: Informativo do Instituto Jetro
Publicado em 14/04/2005
(Partes selecionadas)
Marcadores: ENTREVISTAS

Não é sempre que se deve conceber e aplicar um “sempre” nas afirmações da existência, mas não se pode nunca deixar de desejar e desfrutar daquilo que nasce para ser perene: crer, ter esperança, amar e ser amado. Dentre estas quatro coisas prevalescentes, as duas últimas - amar e ser amado - são incorrigíveis, irremediáveis, irretornáveis, irrevogáveis e irrepreensíveis. Elas têm o poder intrínseco de perpassar a vida e de redesenhar o que se sentiu ontem, o que se experimenta hoje, e o que será pra sempre. Afinal, “amor [que é amor mesmo] jamais acaba” (I Cor. 13).
Marcadores: AUTO-CRÍTICA, REFLEXÃO
Prevaleça em mim o Teu fluir,
D’outra feita, como voltará minh’alma a sorrir?
Inunda o meu ser de amor, alegria e ternura,
E reconstrói minha lida para que seja mais pura.
Prevaleça em mim o Teu querer,
Faz-me entender o que devo ser, dizer e fazer.
Lembra-me de quem sou e a Quem pertenço,
E isto seja sempre como flagrância em tudo o que penso.
Prevaleça em mim a Tua graça,
Seja o Teu amor, verdade e justiça aquilo que me traspassa.
Do tudo que possa vir a ter neste mundo que enlaça,
Livra-me de coisas que me tragam qualquer des-graça.
Prevaleça em mim o Teu “sim” ou o Teu “não”,
Mesmo naquilo que não quero ou que reluto abrir mão.
Seja o meu sim uma resposta singela aos Teus nãos,
E dá-me os Teus sins e nãos como jóias nas minhas mãos.
Prevaleça em mim a Tua soberania,
Trazendo-me a certeza de Tua companhia.
Mais além disso, ensina-me a viver constante,
Sabendo que estar nas Tuas mãos é o bastante.
Copyright © May 2008 Luís Wesley de Souza
Marcadores: AUTO-CRÍTICA, ESPIRITUALIDADE, POESIA, REFLEXÃO
Para quem é gente como a gente, viver plenamente é preciso,
e aprender a morrer com serenidade é necessário.
Mesmo para quem admite com realismo que aprender a morrer pode ser tão natural e importante quanto aprender a viver, este é um tema difícil de se tratar.
O último inimigo
É óbvio que a morte, sendo o último inimigo a ser vencido por Deus (I Coríntios 15:26), ainda é algo à respeito do qual lutamos para encontrar compatibilidade com a fé. Isto é natural e compreensível. Ocorre que este inimigo ainda não foi vencido, exceto no campo da fé que admite a vida eterna conquistada na cruz e na ressurreição de um só – o Jesus de Nazaré. No campo da concretude da vida, a morte continua sendo muito real.
O problema evangélico
Observo, contudo, que grande parte dos cristãos desaprenderam ou jamais aprenderam a encarar a morte sob a perspectiva da graça de Deus. A teologia corrente e dominante no Brasil, por exemplo, não dá lugar à possibilidade do sofrimento e eliminou a morte enquanto objeto de reflexão, ensinamento e acompanhamento pedagógico.
Não se fala sobre o assunto de maneira natural enquanto parte da experiência cristã na sua totalidade. Quando se trata de morte, parece que a vida eterna não passa de um imaginário representado apenas no discurso da fé. Uma boa parte dos cristãos brasileiros de hoje estão vivendo como se já estivessem no céu, mas morrem como se para lá não quisessem ir.
O lá e o aqui em desconexão
Na hora da morte, aqueles que desejam e experimentam desconexões da realidade, as mesmas que os fazem sentir como que conectados com “as coisas lá do alto”, não traduzem tudo isso em aceitação da morte. É como se o “lá” não existisse, e como se viver fosse somente para o aqui e o agora. Assim, quando se trata de morte a fé na vida eterna não passa de uma fantasia, enquanto a vida “já” passa a ser um objeto de desejo definitivo e um sonho de consumo.
A concepção comum é a de que a morte é algo bonito de se falar enquanto meio de estar para sempre com Deus, mas que não deveríamos esperar por ela nem aceitá-la como possibilidade válida, muito menos para aqueles que cremos no poder curador de Deus.
Nada há de errado em crer no poder que Deus tem de curar, e de que Ele pode fazê-lo quando quiser, no tempo que quiser e do jeito que quiser. O problema é almejar o milagre apenas em função da vida na terra. Como disse C.S. Lewis em seu livro Cristianismo Puro e Simples, “Desde que os cristãos pararam de pensar na outra vida é que começaram a falhar nesta. Quem almeja o céu, terá a terra como acréscimo; quem almejar [apenas] a terra, não terá nem uma nem outra”.
“Não quero morrer”
Recentemente, ouvi o relato sobre uma evangélica que, para o desespero próprio e a angústia dos familiares e amigos mais próximos, partiu dizendo que não queria morrer. Por ser algo desconhecido, penso que é absolutamente normal não querer morrer ou mesmo ter medo da morte. Afinal, quem não tem receios de pensar na própria morte? Até para um teólogo do calibre de Rubem Alves, a morte é objeto de medo. Ele afirma o seguinte:
(...) tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, [sem] medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza. (Alves, 10 de dezembro de 2003, Folha de São Paulo, Caderno “Sinapse”, folha 3)
Enquanto se vive, se sente e se pensa, deve-se lidar com a doença fatal de maneira que a morte chegue e aconteça com serenidade, tendo por base uma espiritualidade sólida que não esquece que Deus é vida mesmo enquanto se está a caminho do fim. Afinal, para os que crêem em Cristo, a vida eterna com Deus é o que se segue à morte física. Notadamente quando se trata de um estado terminal, esta convicção pode e deve se tornar o foco e a fonte primária de desejo, saudade e esperança enquanto a morte se aproxima.
Morrer sem amargura
Enquanto cristãos, precisamos aprender a mística de aceitar a realidade da morte e do morrer, sem com isso desistir da vida e do viver. Sôa paradoxo, eu sei. É humano e natural o apego à essa vida, mas diante de uma provável morte temos a opção de pensar sobre o que está à nossa espera e, se necessário, experimentar nossos últimos dias pensando e nos alimentando sobre isso.
Freqüentemente, quando isto não acontece, a morte torna-se muito mais triste, deprimente, amargurada e dolorosa. A falta de bases na esperança cristã da vida eterna, e, fundamentalmente, da confiança na soberania de Deus, faz com que a serenidade desapareça e o coração se torne amaro e ferido contra a realidade da vida e contra o próprio Deus.
Fé na fé, ou fé em Deus?
Não se pode deixar que o triunfalismo religioso, que tende a sugerir que as pessoas se tornam imortais quando crêem no Deus da vida, nos transforme em frenéticos amargurados que colocam a fé na fé, e não no Deus da fé. Precisamos ensinar as pessoas a não colocarem a fé em sua própria fé ou na fé de outra pessoa supostamente dotada de dom para curar enfermos.
Ajudar as pessoas a aceitar a morte não é deixar de crer na cura. Não é tampouco achar que a cura só pode acontecer se pacientes terminais a considerarem como certa. Penso que uma das possibilidades é ajudá-los a saberem a Quem pertencemos, a crerem no tipo de Deus que temos, e a desenvolverem uma espiritualidade que encontra paz e conforto diante da morte.
Ajuda ministerial ou pastoral
Há inúmeros casos irreversíveis em que a ajuda profissional de preparação para a morte se faz necessária, tanto para o paciente quanto para a família e os amigos mais chegados. Nem todas as famílias possuem “know how” na experiência da morte e do morrer. Confiar tão somente no instinto humano diante da morte pode gerar situações e memórias extremamente dolorosas para o resto da vida daqueles que ficam.
Pouquíssimas igrejas são abertas o bastante para admitir a validade de desenvolver este campo de ministério. Esta tarefa tem sido entendida como sendo essencialmente pastoral. E é, em alguns aspectos.
Ocorre que a maioria dos pastores na atualidade não se percebem neste papel de prepararem pessoas que se vêem diante de inevitável morte. Afinal, é muito mais fácil enganarem-se a si mesmos e às pessoas, fazendo apenas uma ou mais “visitas pastorais” que terminem com uma oração pela cura que não virá, para depois saírem sem uma mínima contribuição pastoral realista para o processo de morte.
A ajuda profissional
A meu ver, se a igreja não possui um ministério especializado na área, a participação de um psicólogo ou mesmo de um tanatólogo pode ajudar no processo de acompanhamento. A tanatologia é uma ciência que estuda a morte em seus aspectos biológicos, sociais, psicológicos, emocionais, legais e éticos.
Diga-se de passagem, tanatólogo não é o que mata de vez a pessoa com uma suposta falta de fé na cura que Deus possa realizar à qualquer momento, revertendo a trajetória de morte. Trata-se, isto sim, de alguém que ajuda a pessoa a lidar com a morte, seja pra redescobrir a vida ou para encarar o morrer como caminho de vida.
O tanatólogo é uma pessoa capacitada para ajudar, no processo de luto, ao ser humano que morre e às pessoas que o rodeiam. Os tanatólogos ajudam também em quaisquer espécies de perdas significativas que envolva alguma forma de morte.
É finalidade da tanatologia ajudar um dado paciente a sofrer menos, tratando-o com afeto e compaixão, a fim de que este morra com dignidade. Cabe ao tanatólogo colocar-se no lugar do paciente, ajudando-o com respeito, confidencialidade, cordialidade e qualidade humana, a fim de oferecer-lhe o apoio de que precisa.
Um tanatólogo cristão oferecerá conteúdo bíblico-teológico, fundamentação científica e suporte psicológico à pessoa, além de orientar a família diante da morte e do morrer, seja no campo dos sentimentos ou nas atitudes, reações, deveres e obrigações.
“Com a Vida de Novo”
Em 89, quando adoeci com um câncer mortal do tipo Lymphoma non-Hodgkin, recebi a ajuda do casal Schisler. Na época, o reverendo William Schisler Filho (“Dico”, para os mais chegados) e sua esposa Edith me ajudaram a enfrentar a morte para a vida. Eles não eram tanatólogos profissionais, mas especializaram-se na área por pura demanda do ministério que exerciam junto ao Centro Vivencial Para Pessoas Idosas, em Florianópolis, SC.
Além de longas conversas pessoais que tivemos ao telefone, eles me mandaram um livro secular com o título “Com a Vida de Novo”. A leitura do livro abriu minha mente e me ajudou muitíssimo a voltar à vida, como também me preparou para a morte caso esta viesse a ser inevitável.
Não foi só a mim que os Schislers ajudaram. Eles trouxeram consolo e compreensão para dezenas de pessoas que tentavam lidar com a própria morte ou com a de entes queridos. O interesse e o ministério deles neste particular foi inspirado no trabalho da médica polonesa Elisabeth Kübler-Ross, uma mulher tida até hoje como aquela que mudou a maneira como os profissionais de saúde lidavam e pensavam sobre a morte e o morrer.
A morte e o silêncio
Kübler-Ross dizia que precisamos “[aprender] a estar em contato com o silêncio” diante da morte, e observava que “a culpa é, talvez, a companhia mais dolorosa da morte”. Ela escreveu vários livros como resultado de seu ininterrúpto trabalho com crianças em estado terminal, sobre as quais dizia serem “alguns dos nossos maiores professores”. Ela também trabalhou muito com soropositivos para AIDS, idosos e jovens portadores de doenças fatais em várias partes do mundo, incluindo a Polônia e os Estados Unidos.
O trabalho que ela fez como tanatóloga pode e deve inspirar também o ministério da igreja. “As pessoas sempre me perguntam como é a morte”, dizia ela. “Digo-lhes que é sublime. É a coisa mais fácil que terão que fazer. A vida é dura. A vida é luta. Viver é como ir à escola. Dão a você muitas lições a estudar. Quanto mais você aprende, mais difíceis ficam as lições. Quando aprendemos as lições, a dor se vai."
Varrer a morte é tolice
É preciso questionar esta cultura evangélica determinista no que tange a varrer a morte para debaixo do tapete e escondê-la ali. Negar a realidade e as implicações da morte e do morrer pode ser também uma negação a fé.
É preciso não se esquivar por detrás do discurso da cura divina como possibilidade única na vida. Se cremos que Deus é soberano, então temos que crer que Ele é livre. Se cremos que Ele é livre, cremos obrigatóriamente na liberdade de Deus no que tange a realizar ou realizar a cura. Por isso é preciso saber que a cura poderá não acontecer.
É preciso desafiar o senso comum ao trazer, expor e lidar com essa etapa final da existência terrena, para que não tenhamos mais medo dela. Afinal, como observa Rubem Alves, "A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A 'reverência pela vida' exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir" (Alves, 10 de dezembro de 2003, Folha de São Paulo, Caderno “Sinapse”, folha 3).
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“Pois, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. De sorte que, quer vivamos quer morramos, somos do Senhor”. (Romanos 14:8)
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Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...
Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.
Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”
Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”
Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.
Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".
Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.
Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.
Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?
Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.
Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".
Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.
Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.
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Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12-10-03. fls 3.
Rubem Alves: tudo sobre o autor e sua obra em "Biografias".
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campo de trabalho, docência e pesquisa.
O que se pode chamar de prisma missiológico precisa merecer um lugar essencial na percepção e análise das coisas, não somente no que tange à Igreja, mas também no que se refere à realidade do mundo. Uma vez que assim entendo, preciso definir o que quero dizer por perspectiva missiológica, a fim de traçar o desenvolvimento que faço de estudos sobre Igreja em missão.
Neste sentido, a mais básica definição apresentada por Charles Van Engen ajuda muitíssimo. Ele afirma que a “teologia de missão busca ser multidisciplinar, interativa, definidora, analítica e verdadeira” (Van Engen 1996:17, tradução minha). De fato, o inteiro campo da missiologia exige uma interação e inclusividade de outras disciplinas, e leva em conta o que estas têm a oferecer como ferramentas úteis e de ajuda para interpretar realidades e conjunturas.
Como também coloca Van Engen, missiologia é “um aventura multi e interdisciplinar” (1996:18). Esta definição reflete a natureza e abordagem intencional de meus estudos sobre o Pentecostalismo clássico e os movimentos de revitalização, por exemplo, e destaca os parâmetros e limites dos argumentos e contribuições a serem feitas através dos meus estudos.
Defino missiologia como um campo acadêmico cristologicamente centrado que busca dialogar com outras disciplinas, com o propósito de habilitar a Igreja a entender e exercer sua missão no mundo. No processo, a missiologia penetra outros campos disciplinares, os aproveita e os incorpora na teologia prática, lembrando a Igreja de sua tarefa em “servir, curar, e reconciliar uma humanidade dividida e ferida” (Bosch 1991:495, tradução minha).
Esta é a razão pela qual a missiologia torna-se uma área multidisciplinar e interdisciplinar (1996:18). Acredite, isto me fascina, porque a missiologia requer que nós, missiólogos, eliminemos toda e qualquer forma de preconceito contra outras disciplinas, ao mesmo tempo em que devemos ser capazes de desenvolver diálogo e análise multidimencionais sobre o uso daquelas disciplinas que têm a contribuir para um melhor entendimento da participação da Igreja na missão.
Há muitos campos disciplinares que informam a Igreja quando esta ocupa seu lugar e exerce sua tarefa na missio Dei: antropologia cultural, sociologia, psicologia, estatística, lingüística e comunicação, além dos campos do diálogo interreligioso, crescimento da Igreja, mulher em teologia e ministério, e religião folclórica (ou popular), para citar alguns apenas.
Uma missiologia confiável, então, a meu ver, interage com outros assuntos teológicos e não-teológicos, provocando trocas analíticas ao acompanhar tais assuntos nos seus respectivos trabalhos (Bosch 1991:495). Isto é o que eu quero dizer por abordagem ou prisma missiológico que caracteriza minha docência, estudos, pesquisa e escrita sobre a Igreja em sua vida e missão.
Como missiólogo, tento interagir com o maior número possível de campos disciplinares que tenham algo a informar e/ou oferecer para o bem de uma ampla resposta a um dado problema ou caso. Sendo assim, me coloco em diálogo com o que se tem escrito sobre assuntos correlatos por antropólogos, sociólogos, especialistas em crescimento da Igreja, e assim por diante.
(Versão Abril 2008)
Bosch, David
Van Engen, Charles
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Neste último dia 9 de abril ocorreu algo inusitado na TV americana, no programa American Idol, de altíssima audiência.
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Aconteceu há alguns anos, mas não posso deixar
de escrever este relato que me fora feito de
um acontecimento que me estarreceu.
Talvez ainda se possa colher
lições do ocorrido.
O espancamento do guardador.
Zé Maria*, o guardador de carros estacionados nas cercanias de uma igreja protestante, já há anos prestava este serviço e ganhava uns trocados. Num dado domingo, justamente entre a Escola Dominical e o culto da manhã, Zé Maria foi abordado por três rapazes muito violentos.
Intencionando tirá-lo da área para assumirem o "pedaço", eles o espancaram ao ponto de haver sangramento na face, na cabeça e em outras partes do corpo. Enquanto isso, o povo da igreja assistia, a certa distância, ao quadro de violência.
O pedido de socorro.
Com a pouca lucidez que lhe restava, sabendo estar correndo risco de morte, Zé Maria correu em direção aos portões da igreja que, à esta altura, estavam fechados para a “segurança” dos crentes.
Zé Maria implorou para que o deixassem entrar, e, depois de desesperada insistência, algumas pessoas o puseram para o lado de dentro do portão. Ficou alí à salvo e aliviado por longos minutos, enquanto os que o espancaram ainda estavam do lado de fora do portão ameaçando matá-lo.
Pra quê se envolver?
Entretanto, uma senhora, membro da igreja, que estava juntamente com os demais observadores no lado de dentro do portão, incomodada com a situação e o envolvimento da igreja no caso, começou a ordenar-lhe que saísse do pátio do templo.
Afinal, ora vejam!, onde já se viu a igreja ter que se envolver com o sofrimento de "gente vagabunda", lidar com a violência urbana, ou mesmo preocupar-se com o direito à vida, a dignidade e a integridade humana?!
Em nome de Jesus?
“Vai embora, em nome de Jesus!”, repetia ela com intrigante empáfia, como quem vestida por mística de autoridade espiritual supostamente contida no jargão da expressão usada -- “Sai, em nome de Jesus!” --, enquanto o moço, todo ensangüentado, implorava pra que não o tirassem dali.
“Se eu sair, eles vão me matar, dona!”, dizia Zé Maria com voz de pavor a todos os participantes da igreja que estavam presenciando a cena naquele momento. Estes, contudo, se viram divididos entre a "autoridade espiritual" e a desesperada necessidade do moço.
Lançado aos lobos pelas ovelhas alegres.
Não tardou muito e, depois do mórbido silêncio que tomou conta de todos frente ao comando daquela senhora que insistia em pedir que ele saísse “em nome de Jesus”, o rapaz, com o olhar distante, confuso e perdido, saiu às pressas e desapareceu do lugar.
"Sem lenço e sem documento", Zé Maria pirulitou dali sem deixar rastros. Os igrejados, contudo, continuaram a desfrutar dos três abençoados cultos daquele domingo - dia do Senhor! - cheio de cânticos de alegria e louvor marcados por característica coreografia evangélica.
Falou-se sobre o amor de Deus "por todos nós", pediu-se pela generosidade de Deus na vida de cada um dos presentes ao culto, e, depois e acima de tudo, impetrou-se a bênção apóstólica: "Que a graça do Senhor Jesus, o amor de Deus o Pai e a consolação do Espírito Santo esteja com todos e cada um dos que amam sinceramente ao Senhor". "Amém", disseram todos.
A notícia devastadora.
Dois dias depois, o jornal da cidade informa que um guardador de carros que trabalhava no centro havia sido morto a pauladas assim que chegou em casa na segunda-feira.
Para o desespero de poucos e a indiferença de muitos, imaginou-se que se tratava do mesmo guardador de carros que havia pedido refúgio para a igreja que o colocou para dentro do portão e depois o expulsou “em nome de Jesus”.
Sobrevivência e exclusão.
Zé Maria, contudo, reapareceu dois meses depois nas redondezas da igreja. Ele havia sido confundido com a morte de outro guardador de carros. Entretanto, continua fora daqueles santos e impenetráveis portões que não se abrem para os que experimentam violência e correm para a vida na hora que mais precisam.
Que razões teria ele para entrar numa igreja que o expulsou "em nome de Jesus", quando a igreja não pediu desculpas pelo que fez? Como pode este rapaz enxergar a Graça salvadora pelo prisma de um "evangelho" que se preocupa com a salvação da alma, que se gasta no consumo da fé, que se retira da realidade e que promove uma fé sem compromisso social?
De forma mais ampla, como podem os Josés e as Marias encontrarem na igreja a "cidade de refúgio" de que precisam no momento em que estão fitando a violência e a morte? Como podem correr pela vida em direção a uma igreja cuja receptividade, naquele momento, inspirou estar na contra-mão do Reino?
Luís Wesley
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“Quando, pois vier o Filho do homem na sua glória, e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; e diante dele serão reunidas todas as nações; e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos; e porá as ovelhas à sua direita, mas os cabritos à esquerda. Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estava na prisão e fostes ver-me. Então os justos lhe perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? Ou com sede, e te demos de beber? Quando te vimos forasteiro, e te acolhemos? Ou nu, e te vestimos? Quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-te? E responder-lhes-á o Rei: Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes. Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai- vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; era forasteiro, e não me acolhestes; estava nu, e não me vestistes; enfermo, e na prisão, e não me visitastes. Então também estes perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou forasteiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Ao que lhes responderá: Em verdade vos digo que, sempre que o deixaste de fazer a um destes mais pequeninos, deixastes de o fazer a mim.” (Mateus 25:31-45)
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*Zé Maria aqui é usado como nome fictício.
Reflexões sobre uma invasiva
relação de intimidade.
Eu e ela, ela e eu.
Tenho alguém muito íntima de mim, de longe a maior e a melhor das
amigas-inimigas que jamais pensei, imaginei ou planejei possuir. Tenho com ela uma relação tão íntima e que se manifesta num grau de cumplicidade tal, que há momentos em que não sei se o que sentimos um pelo outro é amor, ódio ou o mais puro instinto de sobrevivência.
Tento compreender suas origens, seus conteúdos, suas faces, seus caminhos, suas notas, seus abismos, suas foices, seus remédios... Todos estes perfís me parecem óbvios e, ao mesmo tempo, obscuros e nebulosos.
Bálsamo, unhas e cobertor.
Quando ela conversa comigo, com a doçura mais desejada que minha alma possa conceber, com uma voz cujos sons e timbres são quase imperceptíveis, invado-me pela impressão de conhecê-la desde minha mais tenra infância.
O seu tom me faz lembrar da voz de minha mãe, e, por essa via, ela me faz sentir como se eu estivesse voltando à experiência e à imagem de, em resposta ao meu choro, ser colhido no colo, amamentado e embalado por aquela que me amava sem condições.
Contudo, quando ela mostra suas unhas, cujas bordas cortam como punhal bem afiado, e me faz saber que são esmaltadas por uma incrível mistura de mel e fel, antídoto e veneno, ferida e remédio, o meu impulso mais óbvio é sair às pressas, à busca de um abrigo qualquer, o primeiro que aparecer, mesmo que esse seja sobre um travesseiro e entre o colchão macio, o lençol e o ededrom que me aquecem.
Me cubro depressa como aquela criança que tem medo de “Bicho-Papão”, como se este fosse fraco o bastante e ingênuo o suficiente para não pensar em tirar ou transpor o cobertor. Que ledo angano!
Paz ou perturbação.
Aonde quer que eu vá, lá estará ela também. Me segue como um cão dependente de seu dono, ou como um dono apegado ao seu cão. Às vezes me deixa em paz, e às vezes em perturbação. Me cutuca, me instiga, me provoca, me toca, me povoa, me faz pensar, me invade, me exorta e me mata, para logo mais me consolar, me beijar e me reacender para a vida.
Ela é uma alternação que vai de uma amiga-inimiga a uma inimiga-amiga. Já tentei dizer-lhe que não mais quero conversar nem trocar idéias, mas ela é teimosíssima e extremamente persistente! Quer estar comigo, não importando onde, quando, com quem ou em que circunstâncias.
Nudez e crueza.
Aliás, diga-se de passagem, com freqüência ela invade as minhas mais profundas intimidades e privacidades. Nada há que ela não conheça em mim, e a cama costuma ser o lugar onde ela mais gosta de me fazer companhia.
Abraça-me por detrás e pela frente, entrelaça suas pernas nas minhas, sussurra nos meus ouvidos me falando coisas indizíveis, me aperta, me agita, me excita e me relaxa. Tira o meu sono para devolvê-lo logo em seguida.
Nua e crua, ela se encaixa em mim de uma tal forma e com tal leveza que, depois de um certo tempo, passo a não mais saber se há algum espaço de qualquer espécie entre nós. Me verga, me entorta, me endireita novamente, me apruma, me faz rolar, me surra, me afaga, me põe genuflexo, me redime...
Intromissão.
Intromete-se onde pouco peço sua ajuda, fala coisas sobre as quais pensei em não solicitar sua opinião, responde perguntas que formulei apenas e tão somente no íntimo e no mais absoluto silêncio, canta músicas antigas perturbadoras que pensei nunca voltaria a ouvir.
Mas, como numa mágica instantânea e paralela, ela me faz sentir em casa, como quando minha alma voava ao abrir os braços para recostar-me naquela rede da varanda da casa dos meus pais. Eu ainda era um menino sem noção de como a vida se desvendaria, mas que amava observar o vento tocando as árvores viçosas e cheias de frutas, e os pássaros silvestres pousando nelas.
O diálogo.
“Por que você não me deixa?”, eu pergunto, mas a resposta é sempre a mesma: “Oras bolas... porque você não viveria sem mim! Porque seria como um tronco cortado, morto e lançado despenhadeiro abaixo, ou como uma folha que se desprende do galho e que, a partir de então, é levada por um vento que não possui nem parâmetros nem direção. Deixe-me ficar com você, eu lhe peço”, insiste minha amiga-inimiga.
"Tá bom, tá bom... Pode ficar!", eu replico e completo: "Afinal, de você o que mais quero é a Essência que te perfuma, o Aroma que me seduz, a Graça que me perdoa, o Sangue que me alveja e o Conteúdo que me forma."
E eu me silencio e me tranqüilizo diante desta eterna parceira de cama e travesseiro: a Consciência.
Copyright © April 2008 Luís Wesley de Souza
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A falsa notícia e a sincera reação.
“Wesley, você está sabendo que o 'Isaque'* foi assassinado?", me perguntou alguém ao telefone, com voz embargada, sabendo que isto seria mais uma das dores a serem absorvidas por mim nestes últimos meses.
Fiquei chocado com a notícia, tive ânsia de choro pela tragédia, rolei na cama a noite toda, trouxe à memória momentos bons, travei conflitos interiores em razão dos maus momentos de explícita intolerância da igreja em relação a aquele que tinha sido meu querido amigo, companheiro e colega. Afinal, seus muitos talentos, senso de chamado e desejos de servir a Deus no ministério não foram suficientes para superar a falsa moral e a incapacidade da igreja em lidar com os diferentes.
Memória útil e oração inútil.
Lembrei-me de seu admirável, sábio, culto, e saudoso pai, e de sua mãe e irmã. Trouxe à memória toda a história passada que presenciei do Isaquinho* na infância, adolescência e juventude, daquele menino tímido, estrábico, com óculos de lentes tipo fundo-de-garrafa, braços quase sempre cruzados para trás, humilde, educado, afável, polido e extremamente inteligente.
Orei por aqueles que estavam diariamente ligados a ele no momento de seu "passamento", pedi o consolo divino, e, além disso, indignei-me ao perceber que não havia comunicação formal sobre sua morte.
O caminho da vida.
Todo este pesadelo demorou 21 horas. Foi durante este período que corri atrás da informação para ter a certeza de que não estava lidando com uma falácia. Suspeitei que algo havia de errado e inconsistente. Liguei daqui dos EEUU pra algumas pessoas no Brasil, em busca de saber se e o que realmente acontecera. Falei com dois amigos comuns, mas eles sequer tinham ouvido falar de tal morte súbita e violenta.
Ao final, minhas suspeitas, torcida e desejo estavam corretos: o Isaquinho* esteve e está "vivinho-da-silva”, como se expressou a pessoa que me trouxe a confortante boa nova. Um amigo comum ligou para o celular dele na esperança de que, vivo ou "morto", o Isaque* atendesse. Atendeu. Graças a Deus, ele não morrera, não fora assassinado, e, é claro, sequer sabia de sua própria “morte”.
A indignação.
Misturado ao sentimento de alívio e perspectiva de vê-lo novamente, fui invadido por uma indignação quase insuportável. Fiquei pensando sobre de quem teria sido esta absoluta imbecilidade que fez começar esta estória maluca, que “matou” o Isaque* e acabou colocando alguns dos seus amigos-do-coração em povorosa, dor, luto, angústia e saudade.
Teria sido uma fofoca intencional, talvez para substanciar aquele tipo de tendência tragicômico-espiritual que precisa de anti-histórias, de “exemplos” do que acontece com aqueles que eram e que pertenciam, mas que agora, supostamente, não mais são nem pertencem, e que por isso merecem morrer se possível uma morte trágica e irrelevante? Teria havido alguma intencionalidade em gerar a representação de um mórbido imaginário punitivo, do tipo "tá-vendo-no-que-deu"?
A percepção.
Talvez tenha sido uma simples confusão, uma vez que houve, sim, uma morte trágica de um outro irmão querido que chegou a ser pastor, mas que vinha enfrentando lutas atrozes com a própria dependência química da qual havia saído quando se converteu ao evangelho.
C
As lições da morte que não foi.
Por outro lado, de quem quer que seja que tenha partido esta brincadeira idióta e de mal gosto, há lições a serem aprendidas aqui. A primeira e mais importante se relaciona com a pedagogia de se ter um amigo querido que “morreu”, com quem não mais se poderia conversar (ao menos não aqui e não agora), mas que reviveu na nossa memória, na nossa história, na nossa trajetória e jornada de vida.
A segunda lição tem a ver com a oportunidade que este fato gera de se fazer uma reflexão reconciliadora daquilo que ocorreu no passado. Neste particular, penso que a igreja, algumas vezes enquanto agente e porta-voz dos injustos julgamentos de caráter daqueles que “não se enquadram”, deveria rever suas práticas do passado e do presente. A igreja deve aprender a se arrepender enquanto instituição, bem como seus representantes, e não somente as pessoas simples que dela fazem parte.
A terceira lição é a de nos fazer refletir sobre esta absurda tendência de setores da igreja em punir os sinceros e promover os espertos. Chorei quando o Isaque* foi retirado do ministério pastoral nos anos 80, porque vi nele sinceridade enquanto outros se escondiam e se protegiam por detrás do escudo da mais deslavada esperteza e sofisma.
Ao que fora "morto", com afeto.
Ditas estas coisas pra aqueles que tem ouvidos que ouvem, quero dizer algo ao mais vivo dos amigos "mortos" de hoje. Assim, vai aqui uma palavra carinhosa a você, Isaque*: Gratíssimo por, uma vez mais, decepcionar os desejos ocultos das más línguas. Grato por estar vivo, meu amigo!
Grato por renascer e reviver dentro daqueles que o amamos, apesar das distâncias. Grato por traspassar tanto as lutas naturais da vida como as injustiças. Grato por sobreviver à dolorida experiência de ter que devolver à igreja o que ela lhe havia dado, e de manter, a todo o custo e ao longo destes anos todos, tudo aquilo que só o Eterno lhe deu e que ninguém possui direito e autoridade de tirar.
Grato por demonstrar que, ao contrário do que se quis inspirar no passado, você é capaz, sim! Muito mais capaz do que boa parte de nós que permanecemos no ministério. Parabéns pelas suas duas graduações (em Teologia e em Artes), por suas duas especializações (em Magistério Superior e em Educação), por seu mestrado (em Educação) e por seu doutorado (também em Educação). Parabéns por não precisar destes títulos todos pra se qualificar, por ser qualificado antes, durante, depois e apesar deles.
Grato por ser quem você é, Isaque*. Aliás, diga-se de passagem, no passado você esteve sob um juízo que foi justamente fruto de ser quem é. Hoje você continua sendo: "...tem de haver nele próprio algo de errante, que encontra sua alegria na mudança e na transitoriedade. Sem dúvida sobrevêm a um tal homem noites más, em que ele está cansado e encontra fechada a porta da cidade que deveria oferecer-lhe pousada" (Friedrich Nietzsche, em O Andarilho).
Mais que tudo, grato por ter mantido a convicção sobre a Quem você pertence.
Luís Wesley

Esta guerra já dura mais que a Primeira Guerra Mundial, mais que a Segunda Guerra Mundial, e mais que a própria Guerra Civil Americana.
Com os quatro soldados mortos neste fatídico aniversário da guerra ao Iraque, hoje completam-se exatos 4.000 combatentes americanos que perderam suas vidas nesta batalha insana, além de outros milhares que foram feridos.
Na melhor das hipótoses, esta guerra custará mais de 3 trilhões de dolares, não somente aos que pagamos impostos aqui nos Estados Unidos, mas também para o mundo. No total, por extensão, esta guerra deverá custar dezenas de trilhões de dólares para a humanidade, dinheiro que poderia ter sido investido na solução da pobreza em muitas partes do mundo, na criação de emprego, na promoção da justiça e na construção da solidariedade entre os povos.
E onde está a América com todo este sacrifício? Está menos segura e menos hábil para formatar os acontecimentos internacionais. Segundo um economista global da Emory University, entrevistado hoje pelo programa "Breaking News" da CNN, após 100 anos de superioridade econômica, a América está tendo que emprestar dinheiro de países em desenvolvimento, dentre eles o Brasil!
Além disso, a América está dividida em casa, e suas alianças ao redor do mundo foram danificadas ou se tornaram tensas. As ameaças de um novo século turbaram as águas da paz e da estabilidade, enquanto a América permanece ancorada no Iraque e no Afeganistão.
E no que tange ao Iraque enquanto nação? O país e o povo estão devastados. Mais de 4.000.000 de iraquianos já não mais vivem em suas casas. O número total de mortos e feridos em razão da invasão americana é estimado em 1.191.216 (segundo informa o site antiwar.com), i.e., cerca de 298 vezes o número de soldados americanos que perderam a vida em combate.
Os ânimos de grupos radicais iraquianos se encrudeceram e, a qualquer momento, facções sócio-polícico-raciais ou religiosas podem fazer o país eclodir numa guerra civil tão sangrenta e sem precedentes, que a profecia bíblica sobre "rios de sangue" pode se tornar realidade concreta. O Iraque está sofrendo as dores de ter que ser reconstruído enquanto povo, sociedade, relações, economia e governo, enquanto depende dos Estados Unidos para virtualmente tudo.
Em nível global, a guerra dos Estados Unidos ao Iraque trouxe custos negativos significantes para a economia e, portanto, menos oportunidade e mais pobreza. Um simples exemplo está no fato de que o preço do petróleo aumentou em quatro vezes desde então. As prospecções de impacto, a médio e longo prazo, na economia mundial não são nada otimistas, e poderão se traduzir em conflitos regionais que afetarão de vez as economias visinhas ao Iraque e os parceiros destas.
Enfim, o mundo inteiro paga o preço destes e de outros impactos gerados por uma antiga auto-determinação teimosa, militarista e atrapalhada de um único homem -- "Metodista" confesso, diga-se de passagem! -- de tornar o Iraque num campo de batalha e o mundo num barril de pólvora.
Luís Wesley
Marcadores: OPINIÃO
“Se depender de mim, nunca ficarei plenamente maduro
nem nas idéias nem no estilo, mas sempre verde,
incompleto, experimental.”
(Gilberto Freyre)
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Esta oração [foi] pronunciada por um homem chamado a ser testemunha ante as nações, e foram estas as palavras que disse ao seu Senhor no dia em que foi ordenado. Depois de os anciãos e ministros terem orado e pousado sobre ele as suas mãos, retirou-se para estar a sós com o seu Salvador, no silêncio, mais além do que os seus irmãos bem intencionados o podiam levar - E disse:
"Senhor, escutei a tua voz e tive medo. Chamaste-me a uma tarefa solene numa hora grave e perigosa. Em breve abalarás todas as nações, a terra e também o céu, para que fique só aquilo que é inabalável. Senhor, n